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Genoma-FAPESP

Um projeto para revolucionar a ciência brasileira

Em maio do ano 2000 deverão estar seqüenciadas, por pesquisadores do Estado de São Paulo, cerca de 2 milhões de pares de bases de DNA da Xylella fastidiosa , a bactéria causadora da Clorose Variegada dos Citros (CVC), doença conhecida como praga do amarelinho, que hoje afeta gravemente 34% dos laranjais paulistas. Esses laranjais são o esteio de uma agroindústria com faturamento anual de cerca de US$ 2 bilhões, receitas de exportações em torno de US$ 1,6 bilhão por ano e que gera perto de 400 mil empregos diretos e indiretos no Estado de São Paulo.

Impulsionados por esse trabalho científico de enorme significado sócio-econômico, também no ano 2000, cerca de 30 laboratórios de pesquisa do Estado de São Paulo deverão estar dominando a técnica de análise de genoma e todas as tecnologias básicas de Biologia Molecular.

Isso significa o Estado dispor de uma base de capacitação em Biotecnologia, nacional, do desenvolvimento social e econômico”, suficiente para levar o Brasil a participar, mais adiante, do seleto grupo de países qualificados a desenvolver pesquisa em setores de ponta dessa área estratégica da Ciência contemporânea.

Esses avanços notáveis – incluindo novas idéias para atacar a CVC – serão possíveis graças ao Projeto Genoma-FAPESP, lançado no dia 14 de outubro, em solenidade no auditório da FAPESP, que contou com a presença dos secretários da Ciência, Tecnologia e Desenvolvimento Econômico, Emerson Kapaz, e da Agricultura, Francisco Graziano, entre outras autoridades, empresários e mais de 300 pesquisadores do Estado de São Paulo.

Primeiro projeto de completo seqüenciamento genético de um organismo (que é precisamente o que define os chamados projetos genoma) fora do eixo Estados Unidos-Europa-Japão e primeiro projeto genoma voltado para um fitopatógeno, ou seja, um agente causador de doença em vegetais, o Genoma-FAPESP terá o maior financiamento já concedido até hoje, no Brasil, a um projeto científico: cerca de US$ 12 milhões.

Ao abrir a solenidade do dia 14, o presidente da FAPESP e de seu Conselho Superior, professor Carlos Henrique de Brito Cruz, classificou o Genoma-FAPESP como “um projeto singular, destinado a marcar um lugar na história da Ciência e da Tecnologia no Estado de São Paulo e no Brasil”. Justificou essa avaliação observando, primeiro, que o projeto vai reunir aspectos da ciência básica e trabalhos na fronteira do conhecimento teórico com trabalhos de pesquisa aplicada e desenvolvimento tecnológico. E ressaltou em seguida que, “com esse projeto, vai-se fazer aquilo que tem sido uma das grandes preocupações da FAPESP e de outras instituições de C&T em São Paulo e no Brasil: aliar a Ciência à Produção, aproximar a Ciência do PIB, da riqueza nacional, do desenvolvimento social e econômico”.

O professor Brito Cruz se referiu ao Genoma-FAPESP também como “um projeto revolucionário” no Brasil. Pela primeira vez na América do Sul, disse ele, “ataca-se um problema dessa magnitude em Biotecnologia, uma área essencial para o futuro da Ciência e da economia Situou, de passagem, o peso da citricultura nas economias paulista e nacional para mostrar como, ao escolher por objeto do Projeto Genoma a Xylella fastidiosa , a FAPESP reafirma seu compromisso histórico de aplicar criteriosamente, sempre em benefício da sociedade, os recursos equivalentes a 1% das receitas tributárias do Estado que lhe são repassados pelo Governo Estadual.

A platéia que superlotou o auditório da FAPESP ouviu, a seguir, o diretor científico da Fundação, professor José Fernando Perez, que falou sobre as origens e a arquitetura do Genoma-FAPESP. Ele aproveitou para apresentar alguns números divulgados recentemente pelo Ministério da Ciência e Tecnologia que mostram a necessidade do fortalecimento da Biotecnologia e da Biologia Molecular no país. De acordo com esses dados, entre 1981 e 1995, a participação brasileira na produção científica mundial, documentada na base de dados do Institute of Scientific Informations (ISI), passou de 0,44% para 0,82%.

“Ou seja, essa participação praticamente dobrou. O total de publicações brasileiras cresceu por um fator 2,12, enquanto, no mundo, esse fator foi de 1,35 para o conjunto das áreas científicas”. No entanto, em Biologia Molecular, enquanto a produção científica mundial, no mesmo período, teve um fator de crescimento de 1,89, no Brasil ele foi de 1,69.

Isso significa, observou Perez, “que vem aumentando a nossa defasagem nessa área do conhecimento, instrumental para a Biotecnologia, que é, por sua vez, estratégica para o desenvolvimento das Ciências Agrárias, Agricultura, Veterinária, Genética Humana, Farmacologia, estudos de Meio Ambiente, Biodiversidade, Química de Produtos Naturais etc”. E completou, observando que “sem competência nessa área, não vamos fazer o que é necessário para o desenvolvimento do país”.

Em seguida, Evaristo Marzabal Neves, especialista em economia agrícola e atual diretor da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, ESALQ, falou sobre a importância sócio-econômica da citricultura no Estado de São Paulo, e Marcos Machado, pesquisador e coordenador do Centro de Biotecnologia do Centro de Citricultura Sylvio Moreira, do Instituto Agronômico de Campinas (IAC), traçou um quadro da Clorose Variegada dos Citros. O desenvolvimento científico do projeto foi detalhado para os pesquisadores presentes por Fernando Reinach, titular do Departamento de Bioquímica da USP.

Na citricultura, “a planta é, para o agricultor, um patrimônio maior do que a terra porque, até se tornar produtiva, ela exige dele mais investimento do que o custo da terra”, disse Ademerval Garcia, presidente do Fundecitrus-Fundo Paulista de Defesa da Citricultura. O Fundecitrus é uma instituição privada de defesa sanitária vegetal, mantida por produtores de laranja e indústrias de sucos, que investe em pesquisa científica desde 1989 e está participando do Projeto Genoma-FAPESP (ele deve contribuir com cerca de R$ 650 mil para o projeto, mas o valor será fixado pelo conselho do Fundo no próximo mês de novembro).

Garcia observou que, de 1996 para 1997, o crescimento da incidência da CVC nos laranjais paulistas foi de 45%, atingindo hoje 34% dos pomares. Dentre as árvores atacadas,5 milhões encontram-se em estado terminal e terão que ser arrancadas. “É o futuro da citricultura- disse – que está seriamente ameaçado por essa praga, porque ela ataca sobretudo as plantas jovens”.

Enfatizou, em função disso, a oportunidade e a importância do projeto proposto pela FAPESP, capaz de reverter uma situação que já cria, além de prejuízos econômicos estimados em US$ 100 milhões anuais, claros problemas sociais. “As 5 milhões de árvores que serão arrancadas correspondem aproximadamente a mil propriedades (há cerca de 4,4 mil árvores por propriedade), e a cerca de 15 mil empregos que serão perdidos”.

Garcia disse ainda que “é a primeira vez que a citricultura recebe um investimento em pesquisa dessa ordem (US$ 12 milhões)”, com o qual ele espera que os campos Já o Secretário da Agricultura do Estado de São Paulo, Francisco Graziano, destacou, “além do valor científico, o sentido prático e objetivo do conhecimento que o Projeto Genoma-FAPESP vai gerar”. Observou que o projeto é mais um importante passo concreto, dentre os que estão sendo dados “para superar os dramas da agricultura” e é também uma nova oportunidade para que se reflita sobre a importância dessa atividade no Brasil. “A agricultura é para nós fonte essencial de emprego. E hoje o país precisa de empregos. Demais”.

O Secretário disse que, se todo o setor automobilístico gera, no país, 116 mil empregos, a avicultura, por comparação, garante só em São Paulo 255 mil empregos diretos e a citricultura 400 mil empregosdiretos e indiretos”.

Esses números, disse ele, evidenciam a necessidade de se investir na agricultura, nos negócios agrícolas, e na pesquisa das ciências agrárias e de todas as áreas afins. Concluiu observando que, do ponto de vista estratégico, nada no desenho do Projeto-Genoma-FAPESP o impressionou mais do que o estímulo à formação de centenas de pesquisadores que ele vai propiciar. “Vai-se estar criando inteligência, que é, dentre todos os investimentos que a pesquisa exige, o melhor de todos”.

O último pronunciamento da solenidade foi do Secretário Emerson Kapaz. Ele lembrou da determinação do governador Mário Covas em preservar a área de Ciência e Tecnologia dos cortes de recursos que julgou necessário fazer, ao assumir o governo, para sanear as finanças do Estado. Emerson Kapaz disse ainda que a agroindústria é uma das prioridades para a Secretaria da Ciência, Tecnologia e Desenvolvimento Econômico, inclusive por sua força na geração de empregos. O Secretário finalizou observando que o Projeto Genoma-FAPESP vem se somar a uma série de iniciativas que vêm sendo tomadas no Estado de São Paulo em prol do desenvolvimento sócio-econômico, baseado no desenvolvimento científico e tecnológico.

“Mas ele, em particular, nos dá uma enorme alegria como brasileiros, porque mexer com o setor da laranja da forma que ele irá fazer significa contribuir para mudar o perfil da economia brasileira”. Esse projeto, comentou o secretário, “me atrevo a dizer, até por sua metodologia cooperativa, de integração em larga escala de laboratórios, como só víamos em processos industriais, servirá de farol para outras pesquisas nas mais diferentes áreas do conhecimento”.

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