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PERÍODO REPUBLICANO

Uma luta sem trégua para criar ciência e tecnologia

A briga entre os que querem desenvolver CeT e a tradição imediatista atravessa todo o século 20

A República iniciava seus passos sob um novo signo – o signo da modernização. Tendo São Paulo à frente, esforçava-se para montar uma infra-estrutura capaz de enfrentar os desafios de uma nova era marcada pela Revolução Técnico-Científica, também chamada de Segunda Revolução Industrial. Após quatro séculos de maturação, a ciência atingira um nível alto capaz de responder as demandas técnicas com eficiência.

Em conseqüência, novos produtos de grande intensidade tecnológica como o automóvel, o avião, o rádio, o telefone, o telégrafo sem fio, a geladeira, entre muitos outros, subverteram a ordem econômica, propiciando o surgimento de grandes conglomerados como a General Motors, General Eletric, I.G. Farben, Siemens, Mitsubishi, Shell e outros. As competições dessas companhias entre si e as disputas entre as potências econômicas provocaram grandes tensões políticas e militares, tornando a primeira metade do século XX num período de extrema instabilidade, simbolizada pela duas guerras mundiais. E, nesse planeta tão perigoso, a sobrevivência dependia cada vez mais da CeT.

Isso porque essa segunda revolução industrial, mais do que a primeira, imiscuiu-se e tornou mais complexa a sociedade em geral. A capacidade produtiva não só aumentou de forma exponencial como começou a colocar a alcance de amplas camadas populacionais (mas não à sua maioria) novos produtos de origem industrial, fabricados em grande escala. Não eram apenas os produtos sofisticados como os citados acima, mas também os de uso mais doméstico: escova de dentes, dentifrício, papel higiênico, comidas enlatadas, cervejas engarrafadas, sabão em pó e quanto mais se possa imaginar e comprar.

O próprio trabalho adquiriu os foros de ciência, difundindo-se o taylorismo e o fordismo. A guerra tornou-se mais mortífera com os seus gases venenosos, os submarinos, as bombas aéreas e outros artefatos horríveis que não poupavam nem os civis. Todos esses fatos tiveram reflexos nos hábitos e nos comportamentos gerais, com desdobramentos planetários num processo de globalização.

No Brasil, as coisas não seriam diferentes. Para ajustar-se à nova situação global, libertaram-se os escravos, receberam-se os imigrantes, aumentou-se a classe média. Todavia, aqui, modernizar-se significava europeizar-se. Assim, tendo como modelos França, Inglaterra e Alemanha, esforçou-se em importar os modos de vida e as formas de pensamento daqueles países – civilizar-se, como diziam os intelectuais da época. E nas classes altas e médias, em pleno país tropical, seria difundido o uso de terno e gravata e adotar-se-iam teorias sociais de cunho cientificista, mormente do darwinismo de Spencer, do positivismo de Comte e do evolucionismo alemão de Haeckel.

Ainda no Império, na segunda metade dos oitocentos, formara-se uma geração de intelectuais brasileiros, fortemente influenciada pelas correntes mencionadas acima. Queriam entender e explicar as razões do seu país ser tão diferente em contraste com os da Europa. Esses intelectuais, entre os quais destacavam-se Sílvio Romero, Raimundo Nina Rodrigues e João Batista Lacerda, perguntavam-se se seria possível a nossa sociedade, colocada no ambiente desfavorável dos trópicos, atingir uma civilização capaz de equiparar-se à européia. Para eles, além do fator geográfico, a culpa maior cabia à raça brasileira, união infeliz do branco com a inferioridade racial do negro e do índio.

Estes intelectuais seguiam as teorias racistas de Lapouge, Gobineau, Buckle e Chamberlain, conseqüências previsíveis do darwinismo social e do evolucionismo. A solução encontrada foi a teoria do branqueamento, solução engenhosa, mas sem fundamento científico, embora os seus propositores pensassem o contrário. De acordo com essa visão, se não mais aumentasse o número de seres inferiores, a raça brasileira acabaria tornando-se branca, pois os caracteres genéticos desta sobrepor-se-iam aos das outras por serem mais fortes.

Apesar de não corresponderem à realidade, essas formulações sobre o branqueamento podem ser consideradas como as primeiras manifestações da investigação sociológica no Brasil, por combinarem a teoria com a coleta empírica de dados, como argumenta de maneira convincente o professor Oracy Nogueira. Outras obras de grande valor, porquanto revelavam a realidade social brasileira, publicadas na época, como aquelas de Euclides da Cunha e de Oliveira Vianna, continuavam a sustentar a tese da superioridade do branco em relação ao negro. Todavia, à medida que se consolidava a República, principiaram a aparecer trabalhos defendendo a igualdade das raças.

Só para ilustrar, citaremos, dessa corrente, os nomes de Manuel Bonfim, Alberto Torres e Edgar Roquette-Pinto.Entrementes, nas últimas décadas do século XIX, não foi apenas essa leva de intelectuais que surgiu. Políticos, administradores, militares, engenheiros, médicos e artistas, de forte convicção positivista, aliados aos ricos fazendeiros do oeste paulista, tiveram presença mais marcante ainda no cenário nacional. Conhecidos como geração de 70, por estarem fortemente vinculados à fundação do Partido Republicano em 1870, vão dominar o curso de acontecimentos políticos e econômicos dos anos seguintes. Proclamada a República em 1889, eles impõem os novos moldes inspirados na plataforma de modernização e industrialização.

Com esse objetivo, implantam, com mão de ferro, um projeto de remodelação tanto do ponto de vista econômico quanto urbanístico e sanitário. A despeito de não ter beneficiado uma grande parte da população e ter provocado um verdadeiro rebuliço no sistema financeiro com a balbúrdia de especulação desenfreada propiciada com o encilhamento, o projeto que ficou conhecido com o nome de regeneração foi bem-sucedido. Destarte, Rio de Janeiro, vitrine dessa plataforma, reconstruiu-se numa forma moderna, tornou-se salubre e ampliou o seu porto para dinamizar o comércio com o exterior. Era um grande avanço, sem dúvida. Mas, o país continuava essencialmente primário-exportador, porquanto a industrialização progredia a passos tardos, mal atendendo o mercado interno, somente nos bens mais rudimentares.

Mesmo um país primário-exportador, para ser moderno, precisava ter condições mínimas para realizar atividades científicase tecnológicas, mormente na área de agricultura e saúde. Assim, no fim do século XIX, fundou-seum bom número de escolas superiores e institutos de pesquisa, além da criação de várias comissões geográficas e geológicas. Entre as escolas superiores, pode-se citar, entre outras, a Escola Politécnica (1893), a Escola de Engenharia Mackenzie (1896), a Escola Livre de Farmácia (1898), todas em São Paulo, a Escola Superior de Agricultura e Medicina Veterinária (1898), no Rio de Janeiro, a Escola de Engenharia (1896), em Porto Alegre, e, já no século seguinte, a Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (ESALQ – 1901), em Piracicaba.

Ao examinar esse quadro, verifica-se a predominância de instituições paulistas. Como já foi dito, em São Paulo formara-se uma elite empreendedora bastante diferenciada daquelas de outras regiões brasileiras. Uma parte dela, imbuída de um espírito de capitalismo mais moderno, conhecia a importância da pesquisa e da competência tecnológica e esforçava-se em dar condições para isso.

Portanto, não foi por acaso que surgiram no estado paulista muitos institutos de pesquisa e desenvolvimento na área de saúde e de agricultura. São dessa época: o Vacinogênico (1892), o Bacteriológico (1893) e o Butantan (1899), além do Agronômico (1887) – fundado pelo Imperador D. Pedro II, mas que continuou suas atividades com o apoio do governo paulista. Também em outros estados, na esteira da modernização intentada pelo governo federal, iam surgindo instituições de pesquisa. No Rio de Janeiro, criou-se o Instituto de Manguinhos (1900) e, em Belém, fundou-se o Museu Paraense (1894), que passou a se chamar Museu Emílio Goeldi a partir de 1900.

As trajetórias históricas dessas instituições são muito semelhantes. Criados com propósitos utilitários, esses órgãos, pela sua eficiência, iam ganhando algum espaço para a realização de investigação científica. Para Manguinhos tornar-se um paradigma, foi necessário o carisma de Oswaldo Cruz e o sucesso retumbante do seu programa de saneamento.

Só que o cientista Oswaldo Cruz queria salvar o povo, mesmo que à força, invadindo residências e vacinando seus moradores contra a varíola. O povo enfrentou a polícia e os bombeiros, pois não queria ser vacinado. O cientista teve de enfrentar a hostilidade geral e até revolta militar, no episódio conhecido como a Revolta da Vacina – terrível sedição ocorrida em 1904 e só debelada pela determinação do Presidente, o paulista Rodrigues Alves. É evidente que a vacinação foi apenas o estopim para a eclosão da insatisfação da plebe excluída de quase todos os benefícios da modernização e vítima do autoritarismo governamental. O “despotismo sanitário do governo”, como se falou na época, queria tirar os pobres de suas casas e aumentar a repressão policial.

Deu-se uma tragédia: 23 pessoas morreram no confronto e, depois, em 1908, milhares de outras foram dizimadas pela varíola. Esses episódios mostram como a população não estava a par do significado da vacinação, servindo aos propósitos de políticos ardilosos ou de pessoas mal-intencionadas. Não era o caso de Oswaldo Cruz. De toda forma, Manguinhos soube aproveitar bem o seu espaço de pesquisa, comprovado por trabalhos brilhantes de seus integrantes, como Carlos Chagas, Rocha Lima, Figueiredo Vasconcellos, Alcides Godoy, Cardoso Fontes, Arthur Neiva, Ezequiel Dias, Beaurepaire de Aragão, Gomes de Faria e outros.

Rodrigues Alves encarnava exatamente o protótipo da elite paulista progressista. Quando governador de São Paulo já implementara um política modernizante, que levou para a esfera federal. Em conseqüência, o Rio de Janeiro foi remodelado nos moldes de uma Paris Tropical, sob abatuta do engenheiro Pereira Passos, enquanto Belo Horizonte era projetada pelo engenheiro Aarão Reis, no final do século XIX. São Paulo e outras cidades cresciam e exigiam medidas urbanísticas e sanitárias. Nesse cenário destacou-se a figura de Francisco Saturnino Rodrigues de Brito, iniciador da engenharia sanitária entre nós.

Contribuiu para o saneamento de diversas cidades como Campos (RJ), Vitória, Recife e, principalmente, Santos, onde trabalhou de 1903 a 1910. Além de projetar e executar as obras, introduziu uma série de melhoramentos nos aparelhos, tais como sifão fluxível, junção radial, peça de conexão radial, caixa de gordura e sifões autoventilados. Numa bonita atitude, não quis patentear nenhum deles, favorecendo assim as cidades onde estavam sendo realizadas as obras. Disse ainda que havendo necessidade de tirar as patentes as cederia às Ligas Contra à Tuberculose.

A construção e a melhoria dos portos tornaram-se obras prioritárias por força do aumento da produção agrícola e da eficiência de transporte terrestre com a implantação de ferrovias. Os portos de exportação já eram pequenos inclusive na fase monárquica, quando pouca coisa realizou-se de prático. Com grande probabilidade, a primeira grande obra pública concedida a uma empresa privada – a Companhia Melhoramentos do Porto de Santos – foi a construção, em 1892, de um cais capaz de permitir a atracação de vapores transatlânticos. Em 1909, esse cais já tinha 4.720 metros e embarcou naquele ano cerca de 13 milhões de sacas de café, uma cifra recorde.

Em seguida, foram sendo aumentados ou construídos os portos de Rio de Janeiro (1910), de Recife (1918), de Rio Grande (1919), de Salvador (1914) e outros. Nessas obras destacaram-se Lauro Müller, Guilherme Benjamim Weinschenk, Guilherme Guinle, Paulo Frontim, Alfredo Lisboa, Francisco de Paula Bicalho, Honório Bicalho, Charles Neate, entre outros. A maioria deles era de engenheiros formados pela Escola Politécnica do Rio de Janeiro, onde ministrava-se a disciplina portos do mar – portanto, a competência demostrada pelos tecnologistas mencionados acima não foi obra do acaso.

Aos poucos estabeleceu-se a indústria de construção civil, entendida como um conjunto de firmas organizadas com a finalidade de executar obras relacionadas com estradas de ferro e de rodagem, aeroportos, canais, portos, navegação interior, abastecimento de água, saneamento, obras hidrelétricas, edifícios, monumentos e pontes. No estado de São Paulo foi fundamental a criação da Escola Politécnica, em 1893, pela ação do político e engenheiro Antônio Francisco de Paula Souza, que tinha sido ministro do Presidente Floriano Peixoto.

Além de ter formado numerosos engenheiros, essa instituição abriu espaço para a pesquisa tecnológica, fundando um Gabinete de Resistência dos Materiais (1899), também por iniciativa de Paula Souza. De fato, à medida que as obras cresciam em tamanho e escala, evidenciava-se a necessidade da pesquisa tecnológica. O Gabinete, projetado pelo famoso professor suíço Ludwig von Tetmayer, começou suas atividades em 1903, sob a direção de Wilhelm Fischer. Este assistente de Tetmayer, auxiliado pelo então recém-formado Hippolyto Gustavo Pujol, supervisionou uma série de ensaios realizados por alunos politécnicos sobre resistência de materiais em uso corrente na construção civil.

De igual forma, não deixa de ser relevante o fato de a primeira organização industrial de construção civil dever-se ao professor de arquitetura da Escola Politécnica, Francisco de Paula Ramos de Azevedo, fundador do Escritório Técnico Ramos de Azevedo, em 1886. Esse escritório relacionava-sede modo orgânico comum a firma importadora de material de construção – Casa Ernesto de Costa e Cia. – e uma financiadora. Complementava-se esse conjunto com o Liceu de Artes e Ofícios, do qual Ramos de Azevedo foi um dos organizadores. Era não só uma escola para formação de mestres de construção, mas também oficina de fabricação de utensílios e mobiliários.

A indústria de construção civil deu um salto quando se tornou possível o uso do concreto armado. Esse fortaleceu a tendência da realização da investigação tecnológica, pois para a utilização melhor do concreto armado é precisou conhecer bem as propriedades de seus componentes, ou seja, o cimento e o aço, e controlar todo o processo da obra. O escritório de Samuel das Neves parece ter sido o primeiro a fazer cálculos de grandes estruturas de concreto armado em São Paulo. Contudo, os seus calculistas eram alemães, pois não se formara ainda uma competência nacional apreciável, seja para o cálculo, seja para a pesquisa tecnológica. O Gabinete de Resistência de Materiais não passava de uma exceção, confirmando a regra.

Não seria isso estranho, uma verdadeira contradição? Afinal, os promotores da República não tinham a CeT em alta conta? Tanto é que o governo brasileiro patrocinara o esforço de Alberto Santos Dumont em levantar vôo com o 14-Bis, em 1906, tornando-o herói nacional. À primeira vista, parece mesmo contradição. Mas é preciso ir além dessa compreensão simplória e algo deformada, fruto de uma cultura positivista e imediatista, de uma racionalidade rasteira. Senão, como explicar a falta de apoio sentida, quase no mesmo período, pelo Padre Roberto Landell de Moura, morto em 1928, completamente esquecido e abandonado? E não se diga que os seus inventos não fossem importantes, pois as suas patentes referem-se ao telégrafo e ao telefone sem fio, ao transmissor de ondas – base para o rádio e a televisão.

A década de 20 é considerada por muitos estudiosos como um divisor de águas da nossa história. Ela encerra em si uma inquietude transparente tanto na esfera cultural quanto na sócio-política, pressagiando grandes transformações. Na realidade, o mundo todo passava por momentos difíceis, com crises inauditas nas áreas econômica e política, e que iriam culminar com a espetacular queda da bolsa de Nova Iorque em 1929. Entretanto, numa curiosa dialética, o esforço cheio de energia para superar os momentos difíceis, quando canalizado de maneira construtiva frutificaria em ganhos espetaculares. Senão, como se poderia explicar o surgimento da mecânica quântica, talvez a maior revolução científica do século XX, naquele ano de 1927, em plena Europa devastada pela incerteza?

Também no Brasil as rodas da história nunca giraram tão agilmente, trazendo como reflexos eventos culturais como a Semana de Arte Moderna, movimentos educacionais como os da Associação Brasileira de Educação (ABE) e ações políticas como os levantes tenentistas – um aviso da insatisfação dos jovens militares contra a oligarquia cafeeira, impotente para fazer frente à crise. A própria comunidade científica procurava novos caminhos, transformando a Sociedade Brasileira de Ciências (1916) em Academia Brasileira de Ciências (ABC – 1921). A idéia era ganhar status, embora o alvo principal estivesse na introdução da ciência mais moderna no circuito educacional para fazer frente ao ideário positivista dominante na intelectualidade brasileira. Pois a ciência marcava passo no país, por causa dos preconceitos e dos obstáculos colocados pelo positivismo de segunda mão reinante na época.

O novo sopro na industrialização, injetado nos anos 20 e acentuado nos anos 30, não promoveu a pesquisa. Sob a égide da política de substituição de importações, não se tinha necessidade de técnicas sofisticadas nem de controle de qualidade. Movida por propósitos imediatistas, baseada em introdução de tecnologias forâneas e de técnicos estrangeiros, essa industrialização prestou escassa atenção em efetuar investigação em CeT ou formar recursos humanos. Estimulou-se a emigração de técnicos estrangeiros em vez de fortalecer a capacitação técnica local através da educação. O SENAI (Serviço Nacional de Aprendizagem dos Industriários, mais tarde Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial) apareceu somente em 1942, mesmo assim sob as pressões anormais da Segunda Guerra Mundial.

Liderança no campo
As condições não eram nada melhores na área científica. Com raras exceções, as poucas instituições que cultivavam alguma ciência pertenciam à área de pesquisa e desenvolvimento, principalmente nas áreas biomédica ou agrícola. Mesmo nesses casos, não escapavam de sobressaltos constantes, ao sabor da prepotência e da ignorância dos detentores eventuais do poder. Uma ilustração conveniente pode ser dada pelo Instituto Ezequiel Dias, de Minas Gerais, na ocasião importante centro de produção de soros antiescorpiônicos e antiofídicos, e reconhecido pelos seus diagnósticos de doenças transmissíveis. Bem relacionado com Manguinhos, o Instituto mantinha um bom padrão de pesquisa. Contudo, ao ser estatizado no governo de Benedito Valadares, no final dos anos 30, teve proibida a realização de qualquer tipo de investigação científica, transformando-se numa instituição meramente industrial.

Há uma exceção brilhante na área agronômica, relacionada sobretudo com as investigações sobre a cultura do café. A maioria dos historiadores não se preocupou muito em saber por que o Brasil mantém a hegemonia desse campo por mais de cem anos. É um feito notável. Além disso, a muitos passa despercebido um fato crucial – o sucesso da pesquisa agronômica em sustentar o bom andamento das coisas do café. Claro que se poderia alegar a existência de outras variáveis, e seria verdade. Todavia, não se pode esquecer que outros produtos agrícolas brasileiros como a borracha, o cacau, a cana-de-açúcar e outros já estiveram na liderança mundial e a perderam no decorrer do tempo.

No sentido contrário, o café, apesar de muitas ameaças, como as pragas e o esgotamento do solo, conseguiu manter a sua posição. O diferencial da superioridade dessa cultura em relação às outras está justamente na qualidade da sua investigação agronômica, que não fica a dever nada, mesmo em comparação com as dos melhores centros internacionais.

É verdade que ela começou de forma tímida e claudicante. Por exemplo, nos meados do século XIX, quando o surto da cafeicultura no Vale do Paraíba, no Rio de Janeiro, foi ameaçada por uma praga trazida por um inseto, o Ministério de Agricultura, Comércio e Obras Públicas formou várias comissões compostas de naturalistas conhecidos na época, como Frederico Burlamaqui, F. de Rocha Freire, F. Freire Alemão, Emílio Goeldi e outros para debelar a ameaça. Embora as comissões tenham conseguido identificar a doença como a ferrugem, já notada nas Antilhas em meados do século XIX, não conseguiram encontrar meios para curá-la. Parece que esse foi um dos fatores da decadência do café no Vale do Paraíba.

Mas a criação do Instituto Agronômico de Campinas (IAC), por D. Pedro II, no fim do século XIX, inaugurou uma nova fase para as investigações agrícolas com enfoque científico. Claro que o IAC teve enormes dificuldades para impor essa linha tecnológica, em função das demandas de uma sociedade demasiadamente pragmática e apressada. Ainda na década de 20, ele sofria as conseqüências da orientação imediatista imposta de fora, contra aquela de moldes científicos adotada pelo seu primeiro diretor, F. W. Dafert. De forma irônica, essa orientação imediatista estava fracassando na prática, aconselhando erradamente os fazendeiros.

Só depois da reforma concretizada por Theodureto de Camargo (1927), com a valorização novamente da pesquisa, é que a situação mudou. Assim, já na década de 30, o IAC pôde contribuir para a melhoria da produção agrícola, por meio de estudos sobre café, milho, fumo, trigo e batata, entre outros. Foram notáveis as investigações de genética agrícola, introduzidas pioneiramente por C. A. Krug e J. E. T. Mendes, e os trabalhos de Alcides Carvalho sobre o café. O Instituto Biológico constitui-se num dos casos mais bem-sucedidos nessa linha de pesquisa e desenvolvimento, dentro da associação da ciência básica com a aplicada. Fundado em 1927, graças ao empenho e habilidade política de Arthur Neiva, que soube capitalizar o sucesso de uma comissão chefiada por ele contra a broca-do-café, o Instituto tornou-se durante muito tempo num paradigma de pesquisa em moldes modernos.

Quem o levou nessa direção foi Henrique da Rocha Lima, seu diretor a partir de 1932. Tendo trabalhado por 20 anos na Alemanha, onde recebeu reconhecimento, Rocha Lima impôs um padrão invejável ao Biológico, que adquiriu rapidamente uma posição de liderança nas investigações fitopatológicas e bacteriológicas. Apesar de mais aberto e flexível que Manguinhos, prefigurando uma verdadeira universidade, o Instituto sofreu influência da entidade do Rio, que lhe forneceu vários pesquisadores, como Otto Bier, José Reis e Adolpho Martins Penha.

De toda forma, graças à atuação eficiente desses institutos de pesquisa agrícola, o Brasil saltou à linha de frente dos conhecimentos agronômicos, conseguindo manter a sua invejável posição mundial no campo da agricultura. Basta lembrar o triste exemplo dos planejadores americanos de Fordlândia e Belterra, no Pará. Eles sentiram amargamente o quanto os conhecimentos técnicos são vitais para um empreendimento agrícola. Interessada em concretizar a organização vertical da sua produção econômica, a Ford conseguiu uma concessão de um milhão de hectares na Amazônia, para a plantação de seringais e extração intensiva da borracha, em 1927.

Quatro anos antes, um grande grupo técnico brasileiro-americano percorrera a Amazônia estudando a possibilidade de uma produção em alta escala. Os extensos seringais da companhia americana iam bem, até que apareceram os fungos que atacavam a Hevea brasiliensis. Na verdade, esses fungos são naturais da Amazônia e já atacavam a seringueira havia muito tempo. Acontece que uma seringueira fica muito distante de outra seringueira. Separada por uma vegetação cerrada, a doença não podia alastrar-se. Retirada essa proteção natural, como aconteceu naquele caso da plantação intensiva da hevea, o fungo proliferou sem que nada pudesse detê-lo. Esse e outros motivos conspiraram contra o empreendimento. Fordlândia fracassou.

A industrialização em curso, não obstante as suas características retardatárias, impunha uma série de exigências, de novas atitudes e formas de pensamento. Assim, a questão das normas técnicas adquiriu um aspecto crucial para a expansão da indústria. Pela ação do INT (Instituto Nacional de Tecnologia) e do IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas) de São Paulo, propiciou-se a criação da ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas), em 1940, reunindo 130 laboratórios e entidades diversas. Formalizados nos meados dos anos 30, tanto o IPT (1934) quanto o INT (1933) tinham uma história mais antiga.

Como já foimencionado, o IPT surgira como o Gabinete de Resistência dos Materiais e passara por um estágio intermediário de Laboratório de Resistência de Materiais (1926), sob a direção de Ary Torres. O INT era originário da antiga Estação Experimental de Combustível e Minérios (1921), criada por E. L. Fonseca Costa. A estação desenvolvera um frutífero programa de aproveitamento energético de carvão, de outros combustíveis e de recursos minerais, e uma pesquisa sobre o motor a álcool, mostrando a sua viabilidade.

O surto industrial trouxe à tona a importância dos recursos minerais e energéticos. O novo Código de Minas foi promulgado em 1934, nacionalizando as riquezas do subsolo. No mesmo ano criou-se o DNPM (Departamento Nacional de Produção Mineral), para executar a política governamental de minérios e fazer pesquisas. Contudo, o DNPM sofreu desde início todas as agruras de um órgão político e técnico de um país subdesenvolvido. Quase sempre a sua dotação orçamentária era insuficiente, além de ressentir-se de falta crônica de pesquisadores e de técnicos capacitados. Por isso, teve de recorrer muitas vezes à ajuda de especialistas estrangeiros, nem sempre bem-intencionados, como na célebre polêmica em que se envolveu o famoso escritor Monteiro Lobato, sobre a existência ou não de petróleo no solo brasileiro. Lobato achava que existia e escreveu um livro de combate defendendo suas convicções, Escândalo do Ferro e do Petróleo.

A formação de elites
Em todo caso, o próprio Governo Federal não pôde ficar imune à chegada dos novos tempos. Através da Reforma Francisco Campos (1931), ele explicitou a sua posição em relação à educação. Na Reforma, realçava-se a importância de criar universidades modernas, dentro de uma unidade administrativa e didática. Até então, as universidades existentes, como as do Paraná (1912), Rio de Janeiro (1920) e Minas Gerais, não passavam de aglomerados de escolas profissionais, sem uma integração mais orgânica.

Acatando algumas idéias do movimento da ABE (Associação Brasileira de Educação), a Reforma preconizava, pelo menos teoricamente, a formação de elites, tanto na área profissional como na científica, a execução de pesquisas e a criação de órgãos de investigação científica. No entanto, na prática, alegando a imaturidade e o atraso do meio, impunha uma tutela forte do Estado. E postergava a pesquisa para o futuro, considerando-a como um luxo dispensável.

Foram tomadas, porém, duas iniciativas discordantes dessa orientação. Uma delas, de duração efêmera, refere-se à criação da Universidade do Distrito Federal (UDF – 1935), em virtude, principalmente, do esforço de Anísio Teixeira. Em torno da sua Escola de Ciências, reuniram-se pesquisadores conhecidos como Lélio Gama, Bernhard Gross, Victor Leinz, Lauro Travassos, Herman Lent e outros, dispostos a inaugurar uma nova fase para a investigação científica no Rio de Janeiro. Nenhum deles pertencia ao circuito universitário. Apesar de confirmar no início essa expectativa, revelando inclusive jovens talentos como Joaquim Costa Ribeiro, descobridor do efeito termodiéletrico, a UDF sucumbiu ante os acontecimentos políticos e as vicissitudes administrativas, cerrando as suas portas em 1939.

A outra iniciativa, esta bem-sucedida, deve-se a Armando de Salles Oliveira, instituindo a Universidade de São Paulo (USP), em 1934, concretizando o empenho de um grupo de intelectuais paulistas liderado por Júlio de Mesquita Filho, Fernando de Azevedo e Paulo Duarte. Ao que parece, a USP surgia sobo signo da contradição. Enquanto o país marchava sob uma ideologia autoritáriae centralizadora,com enfoque imediatista, ela surgia sob a égide liberal da chamada Comunhão Paulista – um grupo de ideólogos reunido em torno de Mesquita Filho – com a intenção de formar a sua elite dirigente por intermédio de ensino superior de qualidade e da pesquisa desinteressada.

Ela significava uma opção política de São Paulo, após a sua derrota na Revolução Constitucionalista de 1932, para manter a sua hegemonia, apostando na ciência e na cultura. Hoje, não há mais dúvida de que a estratégia deu certo. Ao opor-se à visão vigente do imediatismo, com um investimento pesado na formação de recursos humanos, acreditando na potencialidade deles para resolver problemas, quebrava-se em parte o círculo vicioso do subdesenvolvimento. O governo paulista daquele período já compreendia que para resolver problemas necessitava-se de homens qualificados e competentes e não de fórmulas mágicas e receitas.

No projeto inicial da USP, os seus idealizadores atribuíam um papel central e aglutinador à Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (FFCL). Isso não se concretizou na prática devido a resistência das escolas profissionais, mas a FFCL tornou-se o centro irradiador de pesquisas de nível internacional. Para isso contribuiu muito a escolha criteriosa feita, sobretudo, por Teodoro Ramos, na contratação de professores estrangeiros para dirigirem os trabalhos de docência e pesquisa. Com esforço e dedicação, esses professores foram felizes em implantar um ensino de alto nível e instaurar um clima salutar de investigação na jovem universidade. Há muitos exemplos disso.

No campo da física, Gleb Wataghin introduziu a pesquisa em raios cósmicos, abrindo caminho para Mário Schenberg, Marcelo Damy de Souza Santos, Cesare G. M. Lattes, Oscar Sala, José Goldemberg e outros. Na química, Heinrich Rheinboldt desenvolveu os estudos sobre os compostos orgânicos de enxofre, formando discípulos como Simão Mathias, Paschoal Senise, Ernesto Giesbrecht e Giuseppe Cilento, entre outros. Luigi Fantappié, na área de matemática, ao lado de suas aulas tão elogiadas, criou um clima de investigação de onde emergiram Omar Catunda, Cândido L. da S. Dias, Edison Farah e outros.

A vinda de Theodosius Dobzhansky, uma das maiores autoridades no campo, iniciou a linhagem de geneticistas relacionados com a evolução biológica, a começar com Crodowaldo Pavan, Antônio Brito da Cunha, Newton Freire Maia e Rosina de Barros. Mesmo na botânica, de longa tradição no Brasil, a vinda de Felix Rawitscher deu novo padrão à pesquisa, dando destaque a Mário Guimarães Ferri, Mercedes Rachid, Ailton B. Joly, Berta L. Morretes e outros. Na história, a presença do jovem Fernand Braudel serviu de inspiração para Eurípedes Simões de Paula, Eduardo d’Oliveira França e Sérgio Buarque de Holanda, entre outros. Nas ciências sociais, Roger Bastide formou uma geração brilhante encabeçada por Florestan Fernandes. A lista completa seria numerosa demais, embora muitos nomes significativos tenham ficado de fora.

Outra contribuição da USP, menos conhecida, mas não menos importante, refere-se à área tecnológica. No campo agronômico, estima-se que, até 1977, a Escola Superior de Agricultura Luís de Queiroz (ESALQ), incorporada à USP em 1934, foi responsável por 41% das pesquisas agrícolas no Estado de São Paulo. Desde a chegada do geneticista alemão F. G. Brieger, em 1936, inaugurou-se uma linha fecunda em investigação de melhoramento do milho, junto com o estudo de orquídeas como teste de problema da evolução biológica nos trópicos.

Da sua parte, Marcílio de Souza Dias conduziu, a partir de 1945, importante programa de melhoramento de hortaliças. O surto de pesquisa nesse campo, tanto na ESALQ quanto em outras instituições de São Paulo e de outros estados, introduzindo a cotonicultura em terras paulistas, o combate à tristeza de citros e à ferrugem do café, a introdução de novas variedades de cana e de frutas, teve um grande peso na manutenção da pujança econômica da agricultura no país.

Na área industrial, a USP e o IPT, na ocasião uma autarquia ligada a essa universidade, também deram contribuições marcantes, sobretudo onde não era possível fazer transferências horizontais de tecnologia. Por isso não foi por acaso que a sua atividade fez-se sentir mais profundamente na construção civil, no qual as características regionais e peculiaridades locais são importantes. Quando começaram as obras da Usina Siderúrgica de Volta Redonda, em 1941, o know-how desenvolvido pela investigações sobre solo e fundações, inauguradas em 1938 por Odair Grillo, no IPT, teve papel fundamental.

Desde então, a tecnologia dos solos e a pesquisa geotécnica foram divulgadas por todo país, garantindo a segurança de fundações de edifícios altos no Rio de Janeiro e em São Paulo. Isso também aconteceu na resolução de problemas geotécnicos surgidos na construção das primeiras auto-estradas do Brasil, como a Via Anchieta, a Via Anhanguera e a Variante Rio-Petrópolis.

A era da bomba atômica
O sucesso da USP nesse período poderia dar a enganosa impressão de que a CeT alcançara a sua maioridade no país. Ela havia nascido contra a tendência imediatista vigente, fruto de política de ciência e de educação avançada das elites paulistas. Mesmo num país de industrialização tardia, como o Brasil, essa política de formação de recursos humanos altamente qualificados associada à pesquisa rendera dividendos suficientes para pagar com juros o investimento feito. No entanto, esse fato não era muito bem compreendido, mesmo em São Paulo.

Volta e meia, a tradição prático-imediatista fazia-se presente, tentando eliminar a investigação científica em nome de uma economia e de uma praticidade mais do que discutíveis. Isso aconteceu nos fins da década de 40 com o Instituto Butantan, quase transformado em mera fábrica de soros e vacinas, vítima da política pragmatista do governo paulista de então. Diante disso, a pequena comunidade científica mobilizou-se, criando a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) em 1948, pelos esforços de Maurício da Rocha e Silva, José Reis, Paulo Sawaya e outros.

No Rio, a Universidade do Brasil continuava refratária à investigação científica. Uma das poucas exceções, na década de 40, era o Laboratório de Biofísica, onde a chama da pesquisa continuava acesa por causa do ativismo e idealismo de Carlos Chagas Filho. O Laboratório passou a ser o ponto de encontro e de trabalho de investigadores promissores como Antônio Couceiro, Aristides P. Leão e José Moura Gonçalves. Em parte, a projeção alcançada pela instituição deve-se à benemerência de Guilherme Guinle, que patrocinou muitas pesquisas. Na área de física, desiludidos com a possibilidade de introduzir a investigação na Universidade do Brasil, pesquisadores talentosos como Cesare Lattes, José Leite Lopes, Jaime Tiomno e Roberto Salmeron constituíram o Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF), de caráter privado, em 1949.

De certo modo, a criação do CBPF só se tornou possível graças ao clima de euforia instaurado naquela época em torno de uma ciência cada vez mais poderosa e prestigiada devido ao sucesso na Segunda Guerra Mundial. As razões de tanto poder e prestígio sãoclaras. A bomba atômica e a energia nuclear simbolizavam de forma dramática a força da ciência, seduzindo segmentos importantes da sociedade, principalmente o militar. Nessas circunstâncias, não se deve atribuir ao acaso a criação do Centro Técnico da Aeronáutica (1945), em São José dos Campos, e logo em seguida do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA – 1950).

Dentro desse fluxo de pós-guerra, de valorização da pesquisa científica, devem ser colocados dois acontecimentos de suma importância para a institucionalização da ciência no Brasil. O primeiro refere-se à inserção na Constituição do Estado de São Paulo, de 1947, do preceito de destinar pelo menos 0,5% da arrecadação estadual para o amparo à pesquisa. Isso resultou da ação de tecnologistas e cientistas paulistas, entusiasmados com os sucessos dos seus esforços de guerra, sobre os deputados constituintes.

O sucesso desses pesquisadores congregados em torno dos Fundos Universitários de Pesquisa, concebidos pelo professor Jorge Americano, então reitor da USP, tinha sido, ao seu modo, espetacular. Eles foram felizes em desenvolver aparelhos como sonar e gasogênio, além de outras contribuições, e estavam confiantes na importância do que faziam. Entretanto, atestando a instabilidade dessa compreensão pela sociedade da importância da CeT, a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) prevista por essa lei só se concretizaria 15 anos depois, em 1962.

O segundo acontecimento é a instituição do Conselho Nacional de Pesquisas (CNPq) em 1951. Velho sonho da comunidade científica, a idéia do CNPq vinha sendo acalentada desde 1919. Tendo a ABC como quartel-general, as diversas tentativas anteriores haviam sido frustradas pela incompreensão governamental ou da própria sociedade. Todavia, as condições excepcionais de pós-guerra e o ensejo de participar nas articulações políticas relativas à energia nuclear na ONU, como um dos países possuidores de matérias físseis, estabeleceram a oportunidade histórica da criação do CNPq. Nesse processo, foi fundamental a atuação do contra-almirante Álvaro Alberto da Motta e Silva, nomeado posteriormente primeiro presidente do CNPq, em conjunto com a ação da ABC.

Os problemas enfrentados pelo órgão, na gestão de Álvaro Alberto (1951-1955), mostram com clareza as dificuldades de tentar implantar a CeT num país subdesenvolvido. O Conselho não conseguiu impor a sua política autonomista sobre a energia nuclear nem implementar, na medida desejada, a sua política formulada junto com a comunidade científica. Esse insucesso representava, de igual modo, o fracasso e a limitação da política do segundo governo Vargas na tentativa de promover uma industrialização em bases nacionais, frustrada diante da intrincada rede internacional de interesses político-econômicos em jogo.

De toda forma, mesmo nesse período, a contribuição do CNPq, vista a médio e longo prazo, pode ser considerada positiva, pois iniciou uma política relativamente bem-sucedida de formação de recursos humanos. Ainda nessa linha, deve-se registrar a fundação da Campanha de Aperfeiçoamento de Pessoal de Ensino Superior (CAPES), em 1951, por iniciativa de Anísio Teixeira.

O período do Governo Juscelino Kubitschek, de um desenvolvimento apressado, de abertura a capitais estrangeiros e de transferência de tecnologia como caixas-pretas, não se desenvolveu sob uma boa estrela no concernente à CeT. Uma prova está no fato de os mecanismos do BNDE (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico) terem sido acionados raríssimas vezes quando referentes à pesquisa tecnológica. Outro indicador está no debilitamento visível do CNPq. A sua dotação caía de 0,28% do orçamento da União em 1956 para 0,11em 1961. É verdade que, em parte, essedecréscimo deve-se à transferência das suas atividades em energia nuclear para a Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), provocando o seu esvaziamento político.

Mas também esse descaso com o CNPq provinha de uma visão deformada e apressada sobre a CeT, como demonstra o aporte de recursos para a Comissão Supervisora dos Institutos (COSUPI) que tinha a finalidade de financiar pesquisas práticas. Não é preciso dizer que a COSUPI foi um completo fiasco. Por outro lado, curiosamente, promoviam-se estudos sobre o desenvolvimento, sobretudo no Instituto Superior de Estudos Brasileiros (ISEB), no qual se destacaram intelectuais como Hélio Jaguaribe, A. Guerreiro Ramos e Álvaro Vieira Pinto, entre outros. De qualquer forma, a ciência estava desprestigiada no país, em contraste com as potências centrais, empenhadas em melhorar as condições de pesquisa e da educação científica em virtude do impacto do suptnik russo em 1957.

Um clima de desconfiança
A indefinição continuou na década de 60, alternando iniciativas positivas e negativas. No entanto, como tendência geral, o aparelho estatal começou a mostrar mais interesse pela CeT. Daí ocorreram fatos de fundamental importância, como a fundação da Universidade de Brasília (UnB) em 1961, a concretização da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) em 1962, o início do primeiro curso da COPPE (Coordenação de Programas de Pós-Graduação em Engenharia) em 1963 e a criação do FUNTEC (Fundo de Desenvolvimento Técnico-Científico), em 1964, no seio do BNDE.

A UnB nasceu do idealismo de Darcy Ribeiro e de Anísio Teixeira, iniciando uma trajetória brilhante com a cooperação de professores e cientistas notáveis. Mas sua trajetória foi prematuramente interrompida em 1965 pelo Regime Militar, mostrando mais uma vez que a voz da incompreensão era mais alta que a da ciência. Enquanto isso, a longa via-crúcis dos pesquisadores paulistas para a viabilização da FAPESP terminou no Governo Carvalho Pinto, quando se deu a sua criação. Ela começou suas atividades em 1962, quando foram aprovados os estatutos.

A partir de então, graças a uma administração modelar, a FAPESP vem prestando um serviço inestimável à investigação científica e tecnológica, a ponto de servir de inspiração para o surgimento de órgãos congêneres em outros estados. Louve-se ainda a clarividência do Governo Carvalho Pinto, que, segundo o testemunho insuspeito do micologista Oswaldo Fidalgo, ex-diretor do Instituto de Botânica, deu as melhores condições para a atuação dos institutos de pesquisa do Estado de São Paulo em toda a sua história.

Mas as medidas contraditórias continuaram na segunda metade dos anos 60, refletindo as lutas cruentas entre as forças realmente interessadas no desenvolvimento da CeT e as suas oponentes. De um lado, em 1967, criava-se um cargo de Ministro Extraordinário, sem pasta, para assuntos científicos e tecnológicos; de outro lado, em 1969, procurou-se esvaziá-lo, porque o cargo perdeu a identidade, sendo incluído no rol de ministros que poderiam ser nomeados ou não. Efetivamente, a função nunca foi preenchida. Já no Governo Costa e Silva, de modo auspicioso, a CeT ganhava uma seção própria no Programa Estratégico de Desenvolvimento (PED), dentro do seu Plano Trienal, inaugurando um comportamento sistemático mantido nos Planos Nacionais de Desenvolvimento (PND) dos anos 70.

A partir de 1967, tendo como centro o Ministério das Relações Exteriores, foi colocada em práticaa  Operação Retorno para trazer de volta os cientistas brasileiros que estavam trabalhando no exterior. Para isso foram tomadas várias medidas procurando melhorar as condições de trabalho e de remuneração dos pesquisadores. Em 1969, foi instituído o Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT), para financiar os programas e projetos prioritários do setor.

Contudo, todas essas boas intenções governamentais eram quase anuladas na prática com as cassações e aposentadorias compulsórias dos cientistas e intelectuais mais representativos – intensificadas no período 1969-1970, com base no AI-5. Instaurou-se então um clima de desconfiança mútua entre a comunidade científica e setores governamentais, que teve reflexos negativos na implantação da Reforma Universitária em curso na ocasião, com o objetivo de modernizar as universidades.

De toda forma, a idéia da ciência como força produtiva e da educação como meio de formar recursos humanos qualificados continuava a seduzir influentes segmentos governamentais na década de 70. Assim, já em Metas e Bases para a Ação do Governo (1970), o aproveitamento do progresso científico e tecnológico foi colocado como uma das doze conquistas essenciais a serem alcançadas. Implantou-se também o Plano Básico do Desenvolvimento Científico e Tecnológico (PBDCT) com a utilização do FNDCT sob a gerência da FINEP (Financiadora de Estudos e Projetos), nomeada Secretaria Executiva do Fundo (1971).

Essa tendência foi reforçada no Governo Geisel, quando a própria Secretaria de Planejamento (ex-Ministério de Planejamento) se encarregou de assessorar o Presidente da República em assuntos de CeT. Para alcançar as metas expostas no II e no III PBDCT, constantes no II PND, válido para o período 1975-1979, o CNPq transformou-se, no final de 1974, numa fundação com o nome de Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, embora conservasse a mesma sigla. Logo em seguida, no início de 1975, criou-se o Sistema Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (SNDCT). Para completar o quadro, foi aprovado, no mesmo ano, o Plano Nacional de Pós-Graduação (PNPG), para institucionalizar essa modalidade de ensino.

Portanto, houve todo um esforço do Governo Federal em relação à CeT nos anos 70. Se ele não alcançou os resultados esperados, apesar do sucesso em algumas áreas, como telecomunicações, foi porque a correlação das forças envolvidas sempre foi instável, provocando medidas contraditórias no fluxo nem sempre definido da história. Mas também, não há que esconder a persistência de um clima de desconfiança mútua, agravada muitas vezes pela compreensão falha do papel social da ciência. É o que se depreende, por exemplo, dos acontecimentos relacionados com o Acordo Nuclear celebrado em 1975 entre o Brasil e Alemanha, com a marginalização da comunidade científica nacional. De qualquer modo, nessa década que viu a ascensão da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), sob a direção de Zeferino Vaz, consubstanciada na filosofia de integração indústria-pesquisa-universidade, a política científica e tecnológica esteve sempre presente nas ações governamentais.

Mas na primeira metade dos anos 80 a situação voltou a piorar. Diminuíram sensivelmente os investimentos em CeT e as universidades passaram por momentos difíceis. A estagnação econômica e a inflação reacenderam o vezo imediatista, que se refletiu negativamente na educação e na pesquisa. Mesmo circunscrevendo-se ao Estado de São Paulo, maior centro econômico do país, as universidades estavam esvaziadas, os institutos de pesquisa falidos e a própria FAPESP vivia uma situação de penúria, porquanto não conseguia sequer receber o 0,5% da receita estadual a que tinha direito, vítima de expedientes fiscais de administradores ardilosos.

Felizmente, a sociedade civil se mobilizava contra o descalabro geral do país e a aguerrida comunidade científica lutava para recuperar o status da CeT. As duas forças puderam unir-se, trazendo ganhos significativos para ambas. No caso específico da pesquisa e da educação universitária, os esforços congregaram-se em torno da ADUSP (Associação de Docentes da USP), da APqC (Associação de Pesquisadores Científicos) e, sobretudo, da SBPC e da Assembléia Legislativa do Estado de São Paulo. Um dos resultados mais marcantes foi a atualização dos recursos da FAPESP, por intermédio da Emenda Leça, de 1983.

O sentido do futuro
Com o advento da Nova República, em 1985, abriram-se novas perspectivas em relação à CeT, com a criação do Ministério de Ciência e Tecnologia. Durante a gestão do ministro Renato B. Archer, o CNPq fortaleceu-se, restabelecendo um clima de confiança à comunidade científica. Na Constituinte Estadual de 1989, os pesquisadores paulistas conseguiram aumentar a dotação da FAPESP para 1% da arrecadação do Estado. Nos outros estados, foram também criadas fundações de amparo à pesquisa. Dessa forma, tudo parecia pronto para uma fase de grande desenvolvimento na área científica e tecnológica. Contudo, nos anos 90, os acontecimentos não se deram nessa direção. Os fortes ventos da globalização acarretaram mudanças substanciais na sociedade brasileira e com certeza não beneficiaram nem a pesquisa nem o desenvolvimento.

Uma das poucas exceções parece ser a FAPESP. Amparada pela estabilidade financeira propiciada pelo governo estadual, está em pleno processo de implantação de ambiciosos programas, como o Genoma, o Biota, o de Inovação Tecnológica, entre outros, capazes de capitanear o desenvolvimento científico e tecnológico dos novos tempos. Não é aqui o lugar para fazer uma análise aprofundada da questão, mesmo porque faltam ainda dados para a compreensão da complexa situação em que se encontra o país. Mas uma dúvida surge diante da longa incursão histórica que fizemos até agora: a despeito de tantas evidências das nossas potencialidades científicas e tecnológicas, não estariam os detentores do poder, mais uma vez, seduzidos pela canção enganosa do imediatismo e da dependência?

Brasil, 500 anos: ciência e tecnologia.Valeu a pena? Sim, em História tudo vale a pena se se pode enxergar o sentido do futuro.

Paula Souza, pondo o progresso nos trilhos

Um engenheiro ferroviário, Antônio Francisco de Paula Souza (1843-1917), não por acaso ajudou a colocar o progresso brasileiro nos trilhos. Paulista de Itu, mas com vistosa formação internacional, ele se formou na Escola Politécnica de Zurique e na Karlhsue, na Alemanha, além de ter trabalhado dois anos na construção de estradas de ferro nos Estados Unidos. De volta ao Brasil, continuou na engenharia ferroviária. Mas com uma experiência que lhe deu condições para se tornar professor, escritor de livros sobre CeT e, mais tarde, organizador de políticas para essas áreas.

Nesse papel, foi o primeiro diretor da Superintendência de Obras Públicas do Estado de São Paulo e ministro das Relações Exteriores, da Agricultura e Viação no governo Floriano Peixoto. Uma de suas constribuições mais importantes para a CeT se deu quando era deputado estadual. Foi autor do projeto que criou a Escola Politécnica de São Paulo (1894), que dirigiu até sua morte. Professor das cadeiras de Resistência dos Materiais e Estabilidade das Construções, introduziu pela primeira vez no Brasil, no início do século XX, o ensino do concreto armado. Sua grandeza, como a de outros, foi integrar a CeT a uma visão mais ampla da realidade social.

Oswaldo Cruz, um salvador incompreendido

O médico e sanitarista Oswaldo Cruz (São Luís do Paraitinga, SP, 1872 – Petrópolis, RJ, 1917) é um dos tótens da ciência. Foi um exterminador de doenças desde que se formou na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro com a tese “Veiculação Microbiana pelas Águas”. Em 1896 já estava em Paris, especializando-se em bacteriologia e estagiando no Serviço de Vias Urinárias do Instituto Pasteur. De volta ao Brasil, combateu a peste bubônica que assolava a cidade de Santos e a febre amarela, a malária e a varíola no Rio de Janeiro.Como diretor de Saúde Pública ligou seu nome ao combate dessas doenças, mas pagou um preço altíssimo.

As autoridades achavam que tinham o direito de impor a profilaxia à força, invadindo domicílios em busca de pessoas para serem vacinadas. A cidade se revoltou, alegando que a invasão aumentava a repressão policial. Em 1904, quando saiu a lei tornando obrigatória a vacina contra a varíola, milhares de pessoas saíram às ruas e 23 morreram na luta. Quase mil prisões foram feitas e alguns manifestantes acabaram deportados para a Amazônia. Nos anos seguintes, milhares de pessoas morreram por não terem sido vacinadas.Cruz publicou centenas de trabalhos de pesquisa, foi eleito para a Academia Brasileira de Letras e morreu como político, no cargo de prefeito de Petrópolis.

Roberto Landell de Moura, o inventor do rádio

O religioso Roberto Landell de Moura (Porto Alegre, 1861-1928) foi um grande comunicador, muito antes que padres se tornassem fenômenos de comunicação. De família tradicional, ordenou-se em Roma, onde foi estudar por influência de um irmão, Guilherme, que aspirava ao sacerdócio. Teólogo formado, voltou para desenvolver trabalhos pastorais em várias cidades brasileiras. Interessava-se também pelas ciências, especialmente por física e química, que estudou na Universidade Gregoriana. Foi um pioneiro no estudo e prática da comunicação eletrônica sem fio.

Suas primeiras experiências em transmissão e recepção sem fio foram feitas com êxito em 1893 e 1894, entre a Avenida Paulista e o alto de Santana, em São Paulo, a uma distância de cerca de oito quilômetros. Antes, portanto, de Marconi, que usou apenas radiotelegrafia, enquanto o padre brasileiro fez contatos em radiotelegrafia e radiotelefonia sem fio. Mas só mais tarde (entre 1901 e 1904, nos Estados Unidos, tratando de assuntos como transmissor de ondas, telégrafo sem fio e telefone sem fio) patenteou seus inventos. Criou as válvulas de três pólos (tríodo), patenteadas por Lee De Forest em 1906 e que seriam fundamentais depois para o desenvolvimento do rádio e da televisão. Já em 1901 recomendava o emprego das ondas curtas para aumentar o alcance das transmissões. O grande Marconi considerou que era coisa inútil, mas em 1924 admitiu que estava enganado.

Landell de Moura morreu incompreendido pelas autoridades e cientistas do seu tempo, mesmo depois de ter descoberto também a utilidade do arco voltaico para a transmissão de sinais de intensidade variada, o que resultou no desenvolvimento do laser e da fibra ótica. Seus inventos, depois, como ele vislumbrava, serviriam até para comunicações interplanetárias.

Alberto Santos Dumont, pai da aviação

Moço rico, descendente de franceses que chegaram ao Brasil para comerciar com pedras preciosas, Alberto Santos Dumont (1873-1932) nasceu em Palmira, um lugarejo de Minas Gerais que hoje se chama Santos Dumont, em sua homenagem, a maior que já teve. Estudou em Campinas, São Paulo e depois em Paris. Lá, antes de esculpir sua imagem sombria, de ternos escuros e chapéu enterrado na cabeça, foi desportista. Gostava de carros, motocicletas e principalmente balões. E tinha os olhos voltados para as nuvens.

Projetou balões antes de tentar o que seria sua grande façanha, o dirigível 14-Bis. Em 23 de outubro de 1906 planou a uma altura de dois metros num percurso de sessenta metros. O “pai da aviação”, como é conhecido no Brasil, não foi reconhecido em vida. Um engenheiro francês, Clément Ader, e dois mecânicos norte-americanos, os irmãos Wilbur e Orville Wright, reivindicaram a autoria do invento, embora não tivessem feito nenhuma demonstração pública, como a de Dumont em Paris.

Ele matou-se com um tiro, no Guarujá (SP), num ataque de depressão ao ver seu invento usado como artefato de guerra na Revolução Constitucionalista.

Álvaro Alberto, um cientista político

Mais que vice-almirante da Marinha e engenheiro geógrafo, Álvaro Alberto da Motta e Silva (Rio de Janeiro, 1889-1976) foi um criador multifacetado. Entrou para a Escola Naval em 1906 e graduou-se pela Escola Politécnica do Rio de Janeiro. Operou em muitas áreas – militar, industrial, científica, filosófica e de política de CeT – para as quais voltava seus interesses intelectuais e práticos. Químico e empresário, autor de numerosos artigos acadêmicos, passou a explorar industrialmente, a partir de 1917, o explosivo Rupturita (seu pai e seu avô já haviam trabalhado nesse ramo), de sua invenção. Sua percepção da História fez com que deixasse documentados aspectos cruciais dos acontecimentos de sua época. Estudioso também das ciências, produziu trabalhos significativos no campo da história e filosofia das ciências.

Seu nome se liga também ao começo da política nuclear brasileira, assim como ao Conselho Nacional de Pesquisas (CNPq), do qual foi o primeiro presidente, de 1951 a 1955. Motta e Silva foi ainda um pioneiro da campanha para o desenvolvimento científico e tecnológico nacional para o uso pacífico da energia atômica. No CNPq, defendeu seu papel como fomentador e coordenador das atividades científicas e tecnológicas. Teve atuação fecunda nos cenários nacional e internacional.

Gilberto Freyre, um intérprete do Brasil

De Gilberto de Mello Freyre (Recife, 1900-1987) já se disse de tudo, sempre de maneira superlativa. De gênio a mentecapto. No primeiro caso, por ter iluminado a compreensão do Brasil. No segundo, pelo seu fascínio por regimes autoritários como o salazarismo português (cunhou a expressão luso-tropicalismo, que nos uniria ao universo português na época fascista).

Com uma atuação intelectual difícil de classificar no amplo espectro das ciências sociais, Gilberto Freyre é um ponto de referência. É dele o livro que nove entre dez historiadores consideram o melhor retrato da vida brasileira, o clássico Casa Grande e Senzala (1933). Seus temas, neste e em outros livros, como Sobrados e Mocambos (1936), são a escravidão, relações sociais entre senhores e servos, cultura e sociedade. Foi deputado constituinte em 1946, representou o Brasil na Assembléia Geral das Nações Unidas em 1949 e recebeu distinções de diversas universidades do mundo.

Costa Ribeiro, atento aos materiais nativos

Todo mundo sabe quem foi Albert Einstein, o gênio da física, mas ignora-se o que significa um prêmio que leva o nome Einstein. Ele foi dado ao engenheiro mecânico-eletricista Joaquim Costa Ribeiro (Rio de Janeiro, 1906-1960) pela Academia Brasileira de Ciências, pela sua descoberta sobre o “efeito termodielétrico”, além de outros trabalhos. Esse efeito se refere ao estudo de uma série de materiais ligados a estados sólidos. Ele começou suas pesquisas com um material muito brasileiro, a cera de carnaúba.

Costa Ribeiro, aluno do externato Santo Inácio e formado pela antiga Escola Politécnica do Rio de Janeiro, teve uma carreira brilhante dentro e fora do Brasil. Foi professor catedrático de física geral e experimental da Faculdade Nacional de Filosofia e nos anos 40 deu aulas na Sorbonne, em Paris, e no Instituto de Física da Universidade de Estrasburgo. Pelo conjunto de sua obra, recebeu o prêmio Álvaro Osório de Almeida, do Conselho Nacional de Pesquisas.

Rocha e Silva, revelando a bradicinina

Quando se aposentou do trabalho científico, em meados dos anos 70, o carioca Maurício da Rocha e Silva (1910-1983) se pôs a escrever e a pintar. Gostava de filosofia e arte. Professor catedrático de farmacologia da USP em Ribeirão Preto (SP), era médico, farmacêutico e químico famoso e sobre essas especialidades já publicara centenas de trabalhos em revistas especializadas e livros sobre farmacologia e filosofia da ciência.

Entre esses seus escritos, destaca-se a memória de uma contribuição pioneira. Rocha e Silva, já instalado em São Paulo desde 1933 no Instituto Biológico, teve ampla atuação como assistente de química biológica do professor Quintino Mingoya e como assistente científico do professor André Dreyfus, na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP. Mas marcou seu nome entre os grandes cientistas em 1948. Foi quando descobriu a bradicinina, junto com Wilson T. Beraldo e Gastão Rosenfeld. Com a posterior colaboração de Sérgio Ferreira, essa descoberta foi a base dos medicamentos anti-hipertensivos desenvolvidos por laboratórios norte-americanos, hoje usados em larga escala em todo o mundo.

Hoje, muito mais que na época das pesquisas de Rocha e Silva, a hipertensão atinge vinte pessoas em cada grupo de cem. É muita coisa e se o quadro geral não está pior é por causa, com certeza, da contribuição do cientista brasileiro.Um dos criadores e, por três vezes, presidente da Sociedade Brasileira Para o Progresso da Ciência (SBPC), Rocha e Silva estagiou em universidades americanas e européias e ganhou o Prêmio Nacional de Ciência e Tecnologia do CNPq, em 1982. Sua vocação científica não será esquecida. Os hipertensos que o digam e lhe agradeçam.

Mário Schenberg, um cientista cheio de artes

O pernambucano Mário Schenberg (1914-1990) foi eleito deputado estadual de São Paulo pelo Partido Comunista Brasileiro, em 1946 e pelo Partido Trabalhista Brasileiro, em 1962. Foi também crítico de artes plásticas e tinha sólida formação humanística, numa visão integrada da CeT a outras atividades do espírito. Mas se tornou notável sobretudo como físico, depois de se formar em engenharia elétrica e matemática pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo. Depois, teve vasta atuação internacional em universidades americanas, européias e asiáticas, onde trabalhou com os grandes cientistas do século – Einstein, Fermi e Pauli, entre outros. Entre suas importantes contribuições à física, incluem-se trabalhos sobre a teoria do elétron-punctiforme e uma nova concepção do modelo dos octetos.

Ele já era diretor do departamento de física da USP quando viajou para os Estados Unidos, em 1940, para estudar com professor o Gamow a questão das estrelas supernovas. Desta parceria nasceu uma descoberta singular, sobre a atuação do neutrino num mecanismo que chamaram de Processo Urca. Estudou a evolução do Sol e teve um trabalho importante, que ele considera sua maior contribuição à física nuclear, sobre a possibilidade da existência de forças físicas que não conservassem a paridade, apresentado em 1941. Como aconteceu com outros criadores brasileiros, não foi reconhecido. Anos depois, e num contexto diferente, os físicos chineses Yang e Lee receberam o prêmio Nobel usando a descoberta de Schenberg.

Florestan Fernandes, entre a reflexão e o debate

Filho de imigrantes espanhóis pobres, engraxate e auxiliar de escritório na juventude, Florestan Fernandes (São Paulo, 1920-1996) tornou-se um marco do pensamento sociológico e político brasileiro. Não era homem de conciliação, mas de debate. “Ele foi um dos poucos nomes que realmente romperam a carapaça do sistema ideológico reinante”, observa o historiador Carlos Guilherme Mota.Em dez anos, a partir de 1943, desde que bachalerou-se em ciências sociais na USP, Florestan conquistou todos os títulos da carreira universitária.

Seus trabalhos se tornaram clássicos no pensamento sócio-histórico do Brasil. Entre esses, destacam-se A Organização Social dos Tupinambá (dissertação de mestrado, 1949) e A Função Social da Guerra na Sociedade Tupinambá (tese de doutorado, 1952), além de dezenas de livros e artigos em jornais e revistas científicas.

Professor de sociologia na USP de 1945 a 1969, quando foi aposentado compulsoriamente pelo AI-5, ele lecionou depois nos Estados Unidos (universidades de Columbia e Yale) e Canadá (Universidade de Toronto). De volta ao Brasil, elegeu-se deputado constituinte pelo Partido dos Trabalhadores. É considerado um dos maiores sociólogos do século.

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