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Carta do editor | 51

Uma senhora homenagem

Governo do Estado ofereceu uma bela festa aos cientistas da Xylella

A matéria de capa desta edição de Pesquisa FAPESP é singular. Pelo nosso padrão usual, tais matérias referem-se a resultados de pesquisas de porte significativo, financiadas pela FAPESP em qualquer área do conhecimento – daí porque projetos temáticos e projetos apoiados por programas especiais têm sido nossa fonte mais freqüente de matéria prima jornalística para as capas. Mas desta vez as pesquisas cederam lugar a uma festa – uma grande festa promovida pelo governo do Estado de São Paulo para os cientistas que concluíram, em janeiro deste ano, o seqüenciamento do genoma da bactéria Xylella fastidiosa, o projeto pioneiro do programa Genoma montado por esta Fundação.

Pode até parecer um tanto estranho uma revista de divulgação científica dedicar várias páginas a uma cobertura jornalística que guarda certo parentesco com as colunas sociais (sem qualquer crítica aqui, registre-se, às muito informativas colunas sociais, e apenas ressaltando a diferença de natureza das coisas). Mas quando uma festa atesta o reconhecimento público do governo estadual – que se estendeu também ao governo federal – à excelência e ao caráter paradigmático de uma pesquisa, ela merece ser comentada numa revista desse tipo. Quando uma festa marca uma atitude de respeito e aplauso caloroso, por parte de um governo, a duas centenas de pesquisadores que durante dois anos se dedicaram entusiasticamente a decifrar uma questão que, além das implicações sobre o porte da produção científica nacional, promete repercussões econômicas e sociais de peso, essa festa conquista o direito de pertencer à história social da ciência brasileira. E nesse caso, conceder-lhe a capa e um bom espaço em Pesquisa FAPESP é apenas bom senso editorial.

A genômica, de qualquer sorte, não é tratada nesta edição apenas em seu ângulo festivo. No encarte especial da revista ganham corpo tanto revelações sobre como foi fazer, em São Paulo, a travessia do desconhecimento à competência nessa área nova e altamente estratégica da ciência contemporânea quanto as definições e especulações sobre os próximos passos da pesquisa genômica no Brasil. Passado e futuro se entrelaçam nas falas de pessoas que têm indiscutível autoridade para abordar esse tema. E, para que se possa também observar olhares sobre a pesquisa científica de quem a vê de outro ângulo – o do universo político e administrativo – estão no encarte as íntegras dos discursos do governador Mário Covas e do ministro Ronaldo Sardemberg, proferidos na festa da Xylella.

Apesar da insistência, aqui, na bactéria já famosa, esta edição de Pesquisa FAPESP é muito diversificada. Entre os destaques, um novo software desenvolvido em parceria Petrobras/Unicamp, que dinamiza e agiliza o processamento de informações nas operações de extração e na caracterização dos reservatórios de petróleo. Mas a uma incomensurável distância dos campos petrolíferos e da tecnologia de uso concreto, imediato, vale a pena conferir informações novas sobre a evolução das galáxias e a formação de estrelas na Via Láctea obtidas por pesquisadores do IAG/USP.

Os resultados promissores de uma pesquisa relacionada simultaneamente à saúde humana e ao meio ambiente estão em matéria que conta sobre plantas com ação antitumoral e antifúngica encontradas na Mata Atlântica e no Cerrado paulista. E, para concluir, as ciências humanas comparecem nesta edição com temas muito instigantes: de um lado, novos conhecimentos sobre nossas populações pré-históricas, obtidos a partir de estudos dos sambaquis do litoral de Santa Catarina; de outro, informações promissoras sobre mudanças sensíveis na relação homem-mulher e pai-filhos, apesar (ainda) da relutância masculina em aceitar um modelo igualitário de distribuição das responsabilidades do casal na estruturação da família.

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