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Revolução Genômica

Uma vasta reflexão estimulada pela revolução genômica

Este suplemento especial de Pesquisa FAPESP é o resultado de uma experiência nova, vivida pela equipe da revista entre abril e agosto de 2008 – ou melhor, entre janeiro e agosto deste ano, se considerarmos também os primeiros passos, as primeiras conversas, as primeiras discussões que transformaram sonhos e planos em eventos reais. Uma experiência que foi desafiadora e, não raro, apaixonante, empolgante, porque são essas disposições emocionais que são convocadas ante depoimentos que falam com intensidade da paixão da descoberta no curso de uma investigação científica. E que dizem do prazer – estético, até – que há no desvendamento longa e ansiosamente buscado de um determinado fenômeno. Sabe bem disso quem viu, por exemplo, o premiado Oliver Smithies, Nobel de Fisiologia e Medicina de 2007, transitar à vontade por entre a razão e os sentimentos, no final de uma manhã de domingo, 12 de março, no Parque do Ibirapuera, no relato de suas infatigáveis buscas, anos a fio, por evidências de que seria possível alterar um gene através da introdução de um DNA exterior. Uma perseguição científica que não respeitava horários tardios, fins de semana ou feriados tão consagrados quanto o de 1º de janeiro. Bem-sucedida, como se sabe.

Smithies foi um dos convidados da revista para a programação cultural paralela da bela exposição Revolução genômica, organizada pelo Instituto Sangari, que ocupou o Pavilhão Armando Arruda Pereira, no Ibirapuera, de 29 de fevereiro a 13 de julho. Originalmente, essa exposição foi montada em 2001 pelo Museu de História Natural de Nova York e chegou ao Brasil depois de ter sido vista por 800 mil pessoas nos Estados Unidos, China e Nova Zelândia. Mas a experiência nova a que me refiro aqui é precisamente a estruturação e realização da série de palestras que integrou a programação paralela, a cargo da Pesquisa FAPESP. Foi a primeira vez que a equipe da revista atuou nessa frente de colocar renomados pesquisadores em contato direto com o público, sem a intermediação do texto escrito, seja o das reportagens da publicação impressa ou o das notícias da versão on-line, e sem o apoio das ondas radiofônicas do Pesquisa Brasil. É claro que num segundo momento, a partir de abril, todo o rico material produzido pelos 31 palestrantes que a revista mobilizou, dos quais dez cientistas vindos do exterior, passou a ser sistematicamente difundido em encartes especiais da revista impressa, e também pela internet e pelo rádio. E aparece agora consolidado nesta publicação especial.

A rigor, esta publicação reúne os textos veiculados nos encartes especiais, nos quais procuramos pôr em cena a fala dos palestrantes, na forma mais próxima possível de sua emissão original. Afinal, foram palavras de quem tem algo significativo a dizer quando o que está em questão são as fronteiras do conhecimento e o lugar da ciência e da tecnologia – ou da tecnociên­cia contemporânea, se preferirem – na construção das culturas e das sociedades nas quais já estamos imersos ou que estamos projetando para um lugar chamado futuro. Foram palavras sensíveis e bem fundamentadas de pensadores num tempo em que ante nossos olhos se põem delicadas questões éticas e espinhosas questões filosóficas, abertas, às vezes, por um cientificismo absoluto, por um “biologismo” excessivo ou um tanto reducionista. Como dissemos no editorial do primeiro encarte, eles trataram de abrir espaço para a palavra que se refere diretamente aos avanços do conhecimento científico, proferida por seus protagonistas, e para a palavra que põe em debate a natureza, os limites e o caráter relativo desse conhecimento, dita por seus analistas.

Podemos destacar aqui, aleatoriamente, entre outros, o norte-americano Alan Templeton, que mostrou como conhecer o genoma ajuda a reconstruir a (pré-) história humana e a entender algumas doenças. Ou os especialistas de diferentes áreas que voltaram a tempos remotos e mostraram por onde andam e aonde vão as realizações da ciência, como a arqueóloga Niède Guidon, que voltou 100 mil anos em busca dos primeiros grupos de Homo sapiens na América do Sul, e o parasitologista Luiz Hildebrando Pereira, que revisitou a descoberta das vacinas e alertou para as promessas ainda não realizadas da revolução genômica.

Para além da ciência, a programação montada por Pesquisa FAPESP foi também palco para se discutir os caminhos que a levam a produzir um impacto real na sociedade. Foi o caso do debate entre o físico Carlos Henrique de Brito Cruz e o político Roberto Freire, entre a geneticista Mayana Zatz e a jornalista Cristiane Segatto, e entre algumas das responsáveis pela realização da Revolução genômica no Brasil: Eliana Dessen, Mônica Teixeira e Juliana Estefano.

Nosso desafio foi, como antecipamos no primeiro encarte, muito mais do que dar notícia das palestras e dos debates, deixar vazar o pensamento, as idéias, a reflexão que cada um apresentou. Não era desafio pequeno, e essa edição especial permite ao leitor julgar se ele foi em larga medida vencido – ou não.

De qualquer sorte, os leitores podem contar com a íntegra de todas as falas transcritas no site da revista, assim como têm ali pequenas amostras visuais de como eles falaram, nos vídeos de 2 a 4 minutos já disponibilizados. Reportagens especiais em áudio também estão no site dentro das edições passadas do programa Pesquisa Brasil, fruto de parceria entre a Pesquisa FAPESP e a Rede Eldorado, que já entrou no quarto ano de vigência.

A primeira experiência de organização de palestras pela Pesquisa FAPESP será certamente repetida, com alguma freqüência. Trata-se de um front novo de atuação proposto pelo diretor científico da Fundação, Carlos Henrique de Brito Cruz, e que se revelou uma fonte preciosa de aprendizado sobre as muitas vias possíveis de circulação e difusão social da informação a respeito da ciência. E é notável, nesse sentido, a disposição dos pesquisadores convidados para o encontro direto com o público, sua visível vontade de cooperar com um projeto de difusão científica, a despeito das agendas apertadas. Assim, queremos agradecer uma vez mais a todos os pesquisadores que aceitaram nosso convite, às vezes driblando até mesmo problemas de visto, para debater com platéias brasileiras. E, sem dúvida, queremos agradecer ao público que gastou tardes de sábado e manhãs de domingo para refletir junto com cientistas sobre quão profunda pode ser a intervenção do conhecimento científico em nosso cotidiano e em nossa visão mais vasta de mundo. Aproveitamos para convocá-los a outras empreitadas semelhantes que virão.

Para encerrar: as palestras e debates que constituíram a programação paralela da Revolução genômica se ordenam aqui por três eixos: genômica; bases científicas no século XX e novas fronteiras do conhecimento no século XXI; e os desafios da divulgação da ciência.


Mariluce Moura é Diretora de Redação licenciada e coordenadora executiva do projeto Revolução genômica

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