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Resenha

Uma vida dedicada à ciência

Jayme Tiomno: A life for science, a life for Brazil | William Dean Brewer e Alfredo Tiomno Tolmasquim | Springer | 412 páginas | € 72,79

William Dean Brewer e Alfredo Tiomno Tolmasquim produziram um texto agradável, muito bem documentado, com trechos fascinantes sobre a formação, a obra científica e a carreira universitária de um dos físicos brasileiros de maior prestígio. O título, Jayme Tiomno: A life for science, a life for Brazil, é justo: Tiomno (1920-2011) se dedicou à pesquisa em física sempre com muita qualidade e com empenho na educação científica de seus alunos. Brewer foi professor de física na Universidade Livre de Berlim e manteve colaborações científicas no Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF) no Rio de Janeiro. Tolmasquim, atualmente no Museu do Amanhã, tem carreira estabelecida em história da ciência e divulgação científica. Essa é uma primorosa edição, com análises, extratos de depoimentos, a relação completa de seus artigos publicados e belíssimas ilustrações. Talvez seja a biografia mais completa de um cientista brasileiro.

Na obra, os autores percorrem a carreira de Tiomno desde os tempos de formação no recém-criado departamento da Universidade de São Paulo (USP), passando logo em seguida pela Universidade de Princeton, nos Estados Unidos. Há um relato primoroso sobre os problemas da física da época, com texto acessível a público amplo. De volta ao Brasil, Tiomno se engaja nas tarefas de fundação do CBPF, primeiro polo de estudo e pesquisa da física contemporânea no Rio. Mais tarde, participa do projeto modernizador da Universidade de Brasília. Com a ascensão do governo militar e a interrupção da experiência em Brasília, o físico voltou à USP, mas acabou aposentado pelo AI-5. Insistiu em permanecer no Brasil, encontrando abrigo na Pontifícia Universidade Católica do Rio. Em toda sua trajetória, Tiomno desenvolveu trabalhos científicos de alta qualidade, publicando seus resultados, principalmente sobre as novas partículas elementares, e orientando seus alunos.

O físico nasceu no Rio, numa família de judeus de origem russa, comerciantes que davam valor à educação dos filhos. Completou os estudos no Colégio Pedro II, iniciou o curso de medicina na antiga Universidade do Brasil, mas acabou se encantando pelas aulas da seção de física da efêmera Universidade do Distrito Federal. Entre seus colegas de faculdade estavam José Leite Lopes (1918-2006), que se tornaria físico teórico reconhecido, e Elisa Frota Pessoa (1921-2018), física experimental, que mais tarde se tornaria sua companheira da vida inteira. Por sugestão do físico Mário Schenberg (1914-1990), Tiomno estudou mecânica quântica e gravitação relativística, mas também se informou sobre raios cósmicos e sobre a descoberta das novas partículas que tinham sido previstas pelos cálculos iniciais da mecânica quântica relativística.

No ambiente da USP havia estímulo para estágios em centros no exterior – naquela época não havia uma pós-graduação formal nem se dava ênfase ao doutoramento. Em Princeton, Tiomno foi aluno de John A. Wheeler (1911-2008), que já caminhava para se tornar um dos físicos teóricos mais eminentes do Estados Unidos. Inicialmente trabalhou em gravitação, tema que retomaria na sua maturidade, mas logo mudou para a física de partículas, certamente influenciado pelas descobertas de César Lattes (1924-2005), que se tornaria mais tarde seu parceiro com Leite Lopes na fundação do CBPF. Tiomno e Wheeler propuseram uma forma unificada da teoria de Fermi das interações fracas, trabalho precursor das modernas teorias das interações fortes. Essas ideias também foram utilizadas por Tiomno com o jovem físico Chen Ning Yang, que mais adiante ganharia o prêmio Nobel pela proposta de quebra da paridade nas interações fracas. Todos esses desenvolvimentos, com digressões detalhadas sobre a física da época, estão bem descritos no livro.

Em síntese, trata-se de um texto muito bem articulado, com relatos sobre toda a trajetória de vida de Tiomno, incluindo os pontos altos, como a fundação do CBPF, o anúncio da previsão de nova partícula ou o plano de uma universidade inovadora no país. Mas também incluindo as tragédias, como os problemas administrativos do CBPF, as disputas no Rio, que resultaram em seu rompimento com Lattes, e a cassação pelo ato institucional, com Elisa e Leite Lopes, produto direto do atraso acadêmico aliado ao regime militar.

Silvio R. A. Salinas é professor do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (IF-USP).

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