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IMUNOLOGIA

Uma vitória contra os fungos

Caminhos novos para o tratamento de uma micose tipicamente tropical

imagem_03O verão, quando o calor e a umidade aumentam, é a época própria das micoses. Se localizadas nas mãos ou nos pés, podem ser tratadas mais facilmente. Às vezes formam manchas brancas na pele ou até coçam, numa preciosa indicação de sua gravidade. Pior é quando não têm tempo certo para aparecer, espalham-se pelo organismo e permanecem silenciosas durante anos. É o caso de uma micose de nome longo, que num primeiro momento causa certo estranhamento, ainda que tipicamente tropical – a paracoccidioidomicose ou, simplesmente, PCM. Causada pelo fungo Paracoccidioides brasiliensis, é difícil de ser detectada, até se manifestar em colônias que se formam normalmente nos pulmões.

A busca por detalhes da origem e do comportamento desse fungo tem frustrado pesquisadores do Brasil, Argentina, Venezuela e Colômbia, os países mais atingidos. Mesmo assim, por meio da biologia molecular, a PCM pode estar sendo derrotada. Um trabalho realizado na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp, antiga Escola Paulista de Medicina) levou ao isolamento e ao estudo da ação biológica de um componente molecular do fungo e agora abre caminho para a detecção da infecção, antes que ela se manifeste clinicamente, e para uma vacina contra a PCM. É a glicoproteína gp43 (a abreviação gp refere-se à estrutura de uma glicoproteína: além dos aminoácidos formadores da proteína, há uma cadeia de caboidratos).

Já se sabe que essa molécula permanece frouxamente ligada à parede que reveste a membrana celular do fungo e é desprendida para o meio externo, mas suas funções, em relação ao próprio fungo, permanecem pouco conhecidas.”Ao longo da evolução do fungo, a gp43 pode ter sido uma enzima responsável pela degradação de açúcares da parede celular, embora atualmente não tenha mais essa função”, conta a biomédica Rosana Puccia, uma das pesquisadores que estuda essa molécula desde os anos 80.

Como resultado do seu mestrado e doutoramento, concluído em 1990, Rosana identificou a gp43 como uma molécula protéica do P. brasiliensis que inicia as reações imunológicas no organismo humano contra a PCM, um marco em sua carreira científica, registrado em 1986 com a publicação de artigo na revista Infection and Immunity. No papel de antígeno, como são chamados os elementos estranhos ao corpo, a gp43 aciona a produção de anticorpos, como ela demonstrou.

Rosana não parou. Tornou-se professora da disciplina de Biologia Celular da Unifesp em 1993 e uma das pesquisadoras do grupo reunido por Luiz Rodolpho Raja Gabaglia Travassos, seu orientador no mestrado e doutorado. Foi Travassos quem coordenou durante três anos o projeto temático Biologia Molecular e Imunobiologia de Componentes Exocelulares Purificados de Paracoccidioides Brasiliensis –Relação entre Estrutura e Função . O trabalho contou com recursos da FAPESP da ordem de R$ 250 mil, empregados principalmente em equipamentos e reagentes para a purificação e análise de proteínas.

Os epitopos
Nesse estudo, os pesquisadores da equipe de Travassos aprofundaram as descobertas de Rosana. Numa busca mais detalhada, verificaram que o mecanismo básico envolvido na origem e prevenção da PCM envolve um trecho específico da gp43, ou epitopo, contido em uma seqüência de apenas 15 aminoácidos. Quase perdido entre os 416 aminoácidos da gp43, é esse trecho que será reconhecido pelas células do sangue chamadas linfócitos T, que a partir desse momento vão entrar em ação para proteger o organismo. Há outros epitopos, de tamanhos variados, que acionam a produção de anticorpos ou de outras células de defesa, mas é esse, de 15 aminoácidos, o único cuja localização e efeito encontram-se mais conhecidos.

Essa descoberta foi o resultado da tese de doutoramento, concluída no ano passado, de Carlos Pelleschi Taborda, hoje fazendo pós-doutoramento no Albert Einstein Medical School, em Nova York, nos Estados Unidos. Sua rotina, durante meses, consistia em injetar uma solução da gp43 ou de seus fragmentos de peptídios em centenas de camundongos de linhagens especiais, chamados isogênicos. Sintetizados no Departamento de Biofísica da Unifesp, os fragmentos de 15 a 18 aminoácidos, P1, P2, P3…, representavam toda a cadeia protéica da gp43. O peptídio que deu mais certo, como se verificaria, foi o P10, justamente o tal epitopo de 15 aminoácidos.

O efeito da molécula inteira e dos fragmentos foi avaliado em células crescidas no laboratório e em camundongos. Os animais imunizados com a gp43 ou com o P10 desenvolveram uma infecção pulmonar cerca de 200 vezes menos intensa que os animais controle não imunizados. Também se verificou que a infecção provocada pelo fungo não chegou a outros órgãos nos animais protegidos. Esse efeito era o resultado do estímulo de uma espécie de linfócitos T, os CD4+ Th-1, que produzem substâncias protetoras chamadas interleucinas. Essas células são responsáveis pelas reações intradérmicas positivas quando se injeta a gp43 ou o P10 na pele de pacientes com PCM ou em animais infectados pelo fungo.

Na etapa das experiências realizadas no laboratório em placas de plástico, ou in vitro , os pesquisadores compararam o comportamento de linfócitos T de dois tipos. Um era proveniente de indivíduos infectados, de pacientes com PCM instalada na forma aguda ou crônica, de animais imunizados ou igualmente infectados pelo fungo. Outra eram células T normais, usadas como controle. Travassos conta que somente os linfócitos T provenientes de pessoas ou de animais infectados pelo fungo eram capazes de proliferar em presença da gp43 ou do P10. Do mesmo modo, a produção de anticorpos contra a gp43 era alta nos indivíduos infectados. Segundo o pesquisador, esses resultados atestam que a gp43, além de ser um bom antígeno para diagnóstico, aciona uma resposta proliferativa de linfócitos T protetora contra a micose.

Vez ou outra, a equipe de Travassos – de 17 pesquisadores, incluindo estudantes da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) – parava para compartilhar as novidades, já que a pesquisa dividia-se em três subprojetos. Um deles consistia na clonagem e no seqüenciamento completo do gene da gp43. Foi esse trabalho – resultante da tese de doutoramento de Patricia Cisalpino – que possibilitou toda a pesquisa subseqüente para o mapeamento do epitopo de células T.Surgiam outras razões para festejar à medida que se conhecia melhor o comportamento bioquímico do fungo.

Ao encerrar o doutoramento, Rosana Puccia ficou com a impressão de que a gp43 poderia ter uma atividade enzimática, por meio da qual poderia quebrar proteínas. Como verificou posteriormente, não era bem assim. Rosana, em colaboração com Adriana Carmona, do Departamento de Biofísica da Unifesp, encontrou outra molécula, uma serino-tiol protease, esta sim uma enzima do fungo que faz o que a gp43 não poderia fazer. Não parece estar associada diretamente a reações do sistema imunológico, mas se constitui provavelmente em um fator de virulência do P. brasiliensis. “É possível que essa enzima tenha uma ação degradando compostos da matriz extracelular e ajude desta forma o fungo a invadir os tecidos”, diz a pesquisadora.

Isolamento difícil
Ainda há muito por saber sobre a PCM. O próprio fungo exibe um comportamento bastante discreto. Numa região endêmica de São Paulo (Botucatu, Manduri, Pardinho e Pratânea), pesquisadores da área de microbiologia e imunologia do Instituto de Biocências da Universidade Estadual Paulista (Unesp), em Botucatu, tiveram de coletar e examinar cerca de 40 animais – morcegos, capivaras, serpentes e tatus – até descobrir em apenas um deles, o tatu-galinha (Dasypus novemcinctus), especialmente no pâncreas, o reservatório natural do fungo.

Mesmo assim, o fungo não tem sido encontrado mais facilmente em ambientes quentes, úmidos e sombreados, os preferidos dos tatus. Com base em um estudo que reuniu a Unifesp e a Universidade Estadual de Londrina, foi sugerido que o uso de fungicidas agrícolas pode estar interferindo na dificuldade de se encontrar o P. brasiliensis em ambiente natural. Ensaios realizados em laboratório demonstraram que um pesticida de uso comum, o Benlate, em concentrações de 25 a 100 vezes menores que produtos similares, elimina até 98,3% dos fungos em amostras infectadas de células de animais.

O trabalho evolui agora para a determinação da variabilidade genética de moléculas-chave como a gp43 e para o desenvolvimento de vacinas de plasmídeos contendo gene da gp43, para imunização experimental de animais. Travassos confia que métodos mais precisos de diagnóstico podem melhorar o conhecimento epidemiológico da PCM, cuja notificação não é obrigatória. Há poucos casos de internamento hospitalar (entre 50 e 75 casos por ano em São Paulo), mas a alta reatividade dos testes de sensibilidade, a chamada reação intradérmica, entre jovens em áreas endêmicas (62% em São Paulo, 52% na Venezuela e 41% no Equador) indica que a PCM pode estar se propagando numa velocidade maior do que se consegue detectar.

Efeito do desequilíbrio ambiental

O VII Encontro Internacional sobre Paracoccidioidomicose, realizado em abril de 1999, em Campos de Jordão, mostrou a dimensão atual da PCM, descrita pela primeira vez em 1908 pelo médico carioca Adolfo Lutz (1855-1940). O pesquisador Bodo Wanke, do Hospital Evandro Chagas, no Rio de Janeiro, expôs um trabalho demonstrando que o Brasil tem mais de 80% dos registros de PCM na América Latina.

Não há registro de surtos epidêmicos, mas a doença ameaça alastrar-se em áreas de ocupação recente, em Rondônia, Tocantins, Pará, Mato Grosso e Acre, onde era desconhecida. Wanke atribui essa expansão ao desequilíbrio ambiental. O desmatamento acelerado e o revolvimento do solo para plantio deixam o fungo em suspensão na atmosfera, facilitando a contaminação humana.

Outro estudo, feito em conjunto por pesquisadores da Unifesp e da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), do Rio de Janeiro, com base em 3.181 mortes, entre 1980 e 1995, aponta a PCM como a oitava causa de mortalidade entre as doenças infecciosas e parasitárias. É comparada às grandes endemias, como a doença de Chagas, tuberculose, malária, esquistossomose, sífilis e hanseníase. Com uma taxa de mortalidade média anual de 1,48 por milhão de habitantes, predomina entre a população masculina (84,75% dos casos na faixa entre 30 e 59 anos).

A infecção ocorre pela aspiração de formas arredondadas do P. brasiliensis que penetram nos alvéolos pulmonares. No organismo humano, o fungo se reproduz no pulmão como leveduras capazes de brotamento múltiplo, dando origem a figuras características em roda de leme ou mickey mouse – quando se formam apenas duas gêmulas, semelhantes às orelhas do famoso rato.Podendo permanecer incubada por 10 a 20 anos, a PCM manifesta-se na sua forma aguda pela formação de gânglios e intenso comprometimento do sistema linfático regional. Se as células fúngicas não são contidas, podem espalhar-se pelo organismo e afetar o sistema nervoso central, na forma mais grave e rara da PCM.

Perfil :
Luiz Rodolpho Raja Gabaglia Travassos, 61 anos, graduou-se em Medicina na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), onde desenvolveu o doutorado e lecionou entre 1963 e 1980. É professor titular da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) desde 1980.

Projeto temático :Biologia Molecular e Imunobiologia de Componentes Exocelulares Purificados de Paracoccidioides Brasiliensis – Relação entre Estrutura e Função
Investimento : R$ 249.090,00

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