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Carta do editor | 26

Vale a pena investir em P&D no Brasil?

O investimento que uma sociedade faz em Educação e em Pesquisa e Desenvolvimento é altamente rentável – pouquíssimas pessoas bem formadas, neste país, ousariam discordar dessa afirmação genérica, pelo menos abertamente. No mínimo, porque seria politicamente incorreto. Mas quanto, em que medida, esse investimento é efetivamente rentável?

Questão intrigante. Na verdade, o retorno de boa parte desse investimento é de difícil, para não dizer impossível, mensuração. Certamente ninguém conseguirá traduzir em termos monetários, com rigor científico, uma profunda mudança cultural acionada por um novo e às vezes revolucionário conhecimento (e podemos ficar apenas no domínio da microeletrônica e das telecomunicações para percebermos isso). Nem se pode atribuir valor exato aos benefícios de uma nova metodologia, por exemplo, de ensino ou de administração empresarial estruturada a partir de um belo projeto de pesquisa. É também muito improvável que alguém chegue a estabelecer quanto vale, em reais (quem sabe, em dólares) uma mudança na legislação, fundamentada em novos conhecimentos, e quase sempre capaz de disparar novos comportamentos ou uma nova sistemática de ação numa sociedade. Para o bem ou para o mal, nem tudo é redutível a números.

Mas há uma indiscutível dimensão mensurável no retorno dos investimentos em Educação e, principalmente, em P&D, e é esta, mesmo tomada isoladamente, que permite afirmar que se trata de investimento altamente rentável – inclusive no setor privado.

Dados interessantes nesse sentido são fornecidos pela Science and Engineering Indicators de 1996, da National Science Foundation. Ali estão relacionados os estudos de cerca de 30 pesquisadores da área econômica, reportando taxas de retorno anual do investimento privado em P&D da ordem de 10% a 50%, na década de 80, e de 50% a 100%, em alguns casos específicos, na década de 90.

E no Brasil, como estão essas medições/ Temos citado na FAPESP, com freqüência, o exemplo clássico dos investimentos na pesquisa para controle do cancro cítrico. Da parte desta Fundação foram investidos diretamente, entre 1963 e 1995, US$ 617 mil, em benefício da saúde de uma atividade econômica, a citricultura, que hoje gera uma receeita de quase US$ 2 bilhões no Estado de São Paulo (US$ 1,6 bilhão de exportações), garante 400 mil empregos e envolve mais de 200 municípios.

Temos também publicado regularmente, no Notícias FAPESP, o resultado de projetos temáticos apoiados pela Fundação, pelos quais é fácil comprovar as duas assertivas aqui feitas: 1. Existe alta rentabilidade do investimento em P&D; 2. Há resultados indiretos desses investimentos de difícil mensuração mas que amplificam extraordinariamente a afirmação anterior. Isso, contudo, ainda nos parece pouco para dar fundamento mais sólido à afirmativa facilmente aceita, mas nem sempre verdadeiramente entendida, de que o investimento em Educação e P&D é altamente rentável. E precisamente por isso, a FAPESP está desenvolvendo, internamente, um projeto para identificar o impacto que seus investimentos têm tido sobre o desenvolvimento econômico e social do Estado de São Paulo e do Brasil. Queremos oferecer uma resposta às seguintes indagações:

– Vale a pena investir em P&D num país tão carente de investimentos em todos os setores?

– O que é feito do dinheiro público que é aplicado no Sistema de Ciência e Tecnologia do Estado?

Nós mesmos precisamos dar respostas a essas questões antes que elas nos sejam cobradas pela sociedade.

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