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Virologia

Variedade do novo coronavírus hoje predominante parece mais contagiosa do que a original

Identificada no fim de janeiro, a cepa apresenta uma mutação que pode facilitar a entrada nas células

Partícula viral de Sars-CoV-2 isolada de paciente com Covid-19: as espículas aparecem como um halo

NIAID/Flickr

A variedade do novo coronavírus hoje predominante no mundo é ligeiramente diferente daquela identificada em dezembro em Wuhan, na China, e possivelmente capaz de infectar as pessoas com mais facilidade. Essas conclusões foram apresentadas por um grupo de pesquisadores dos Estados Unidos e do Reino Unido em um manuscrito depositado em 30 de abril no repositório de artigos científicos bioRxiv. No trabalho, ainda não publicado em revista científica nem avaliado por especialistas, a equipe coordenada pela bióloga Bette Korber, do Laboratório Nacional de Los Alamos (LANL), nos Estados Unidos, analisou 6.346 genomas do vírus Sars-CoV-2 provenientes do mundo todo, armazenados em uma base de dados genéticos alemã. Confrontando o material genético das diferentes variedades do novo coronavírus que surgiram desde o início da pandemia, os pesquisadores identificaram 14 alterações no gene que codifica a proteína S das espículas, estruturas pontiagudas que recobrem o vírus e o ajudam a aderir às células das vias respiratórias e invadi-las.

Uma alteração em especial chamou a atenção dos pesquisadores: a D614G. Ela identifica uma cepa do Sars-CoV-2 que surgiu no final de janeiro e sofreu a troca de apenas uma de suas quase 30 mil bases nitrogenadas, as unidades formadoras do material genético do vírus. Em um trecho específico do gene da proteína S, a base nitrogenada adenina (A) substituiu a guanina (G) original da variedade do vírus identificada em Wuhan em dezembro de 2019. Ainda não é possível saber se a cepa D614G surgiu na China ou na Europa, mas, segundo os autores do estudo, foi a partir do continente europeu que ela rapidamente ganhou o mundo. Ela foi identificada na China e na Alemanha quase simultaneamente nas últimas semanas de janeiro. Logo depois estava na Itália e na costa leste dos Estados Unidos. No final de março, a cepa D614G já teria se tornado a mais comum no mundo: era a variedade dominante em 13 dos 14 países dos quais vinham os genomas virais analisados.

Os pesquisadores suspeitam que ela seja mais contagiosa do que as outras porque, em todos os locais em que apareceu, ela logo se sobrepôs às cepas iniciais e em semanas tornou-se a mais comum. Por ora, não há indícios de que a cepa D614G cause uma doença mais grave do que as outras variedades do Sars-CoV-2 nem que seja mais difícil de combater. Os pesquisadores também não sabem se essa mutação seria a única responsável por tornar o vírus mais contagioso – algumas vezes, ela era acompanhada de duas outras alterações, em genes codificadores de outras proteínas virais.

A mutação D614G, no entanto, preocupa os autores do estudo porque a proteína S está sendo usada na produção de compostos candidatos a vacina contra o novo coronavírus. Também é contra essa proteína que agem alguns anticorpos que pesquisadores buscam para neutralizar o vírus. Caso as vacinas em desenvolvimento tenham sido produzidas apenas a partir das cepas iniciais do vírus, é possível que não gerem a proteção desejada em um cenário em que a variedade D614G seja predominante. A proteína S das primeiras variedades pode ser muito diferente da encontrada na D614G, e as vacinas podem estimular a produção de anticorpos que não a reconhecem. O mesmo pode acontecer com os anticorpos que alguns pesquisadores tentam gerar em laboratório contra o Sars-CoV-2. Se tiverem sido produzidos contra o vírus das cepas antigas, podem não ser capazes de inativar o da D614G.

Em outro estudo, publicado em 5 de maio na revista Infection, Genetics and Evolution, pesquisadores da França e do Reino Unido compararam 7.666 genomas do novo coronavírus e encontraram ao menos 198 mutações que apareceram de modo recorrente. Segundo o trabalho, coordenado pelo biólogo François Balloux, da University College London, cerca de 80% das alterações induziam à troca de aminoácidos, a unidade formadora das proteínas – a mudança de um aminoácido pode alterar a estrutura tridimensional de uma proteína e modificar sua função. Na opinião dos pesquisadores, isso sugere “uma possível adaptação em curso do Sars-CoV-2” aos hospedeiros humanos. Quatro genes, três que codificam proteínas internas e um com a receita da proteína da espícula, sofreram um número elevado de mutações (mais de 15).  “Monitorar o acúmulo de mutações e os padrões de diversidade genética do Sars-CoV-2 tem o potencial de informar alvos para o desenvolvimento de medicamentos e vacinas”, escreveram os autores.

Artigos científicos
KORBER, B. et al. Spike mutation pipeline reveals the emergence of a more transmissible form of SARS-CoV-2. bioRxiv. 30 abr. 2020.
VAN DORP, L. et al. Emergence of genomic diversity and recurrent mutations in Sars-CoV-2. Infection, Genetics and Evolution. 5 mai. 2020.

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