guia do novo coronavirus
Imprimir PDF Republish

medicina

Vírus herdados pelos filhos

Ainda é alta a contaminação dos recém-nascidos

O risco de contaminação de recém-nascidos por doenças transmitidas intra-útero, no momento do parto ou pelo leite materno pode ser minimizado quando se descobre a infecção no início da gravidez. Contudo, uma pesquisa conduzida pela médica pediatra Maria Teresa Zulini da Costa, na região do Butantã, na capital paulista, mostra que muitas gestantes, em número bem maior que o esperado, chegam infectadas aos hospitais públicos na hora do parto. Seu estudo, feito com financiamento da FAPESP, reforça a necessidade de uma triagem sorológica de rotina em gestantes na rede pública de saúde.

Chefe da Unidade Neonatal da Divisão de Clínica Pediátrica do Hospital Universitário da Universidade de São Paulo (USP), Maria Teresa aponta as infecções perinatais, ocorridas intra-útero ou próximas ao parto – sobretudo as doenças de transmissão sexual (DST) ou por meio de sangue e secreções contaminados -, como causas crescentes de mortalidade infantil. Para ela, a rede básica de saúde da cidade não faz o acompanhamento devido das gestantes para detectar essas doenças. Sua pesquisa buscou a prevalência nas gestantes dos vírus HIV (da Aids), HTLV tipos I e II (associado a leucemia, linfoma e alterações neurológicas), HBV (da hepatite B) e HCV (da hepatite C). Também se fez análise clínica e sorológica dos recém-nascidos das mães contaminadas, para indicar a taxa de transmissão vertical (da mãe para o filho).

O número de casos superou o esperado, já que a região do Butantã não é considerada endêmica para as doenças estudadas. O vírus HIV foi detectado em 0,26% das gestantes analisadas; o HTLV I-II teve 0,13% de prevalência; 0,32% apresentavam infecção ativa pelo HBV e 3,5% apresentavam marcadores sorológicos de infecção pregressa; para o HCV, 0,64% eram soropositivas embora assintomáticas. Segundo a pesquisadora, como nenhuma mãe sabia previamente que era portadora de uma dessas infecções, as com HIV, no momento do parto, não receberam tratamento com ziduvidine (AZT) para diminuir o risco de contaminação do recém-nascido. Uma criança morreu aos 2 meses de idade com diagnóstico de septicemia (infecção generalizada) em provável decorrência da infecção por HIV. Sua mãe era portadora do vírus e não fez tratamento durante o pré-natal.

A transmissão vertical foi zero para o HTLV e o HBV, segundo a pesquisadora. O resultado pode ser atribuído à prestação imediata da prevenção necessária no hospital, como aplicação da vacina para o HBV e suspensão do aleitamento materno nos casos de HTLV I-II. Nos demais casos, a transmissão foi alta: 10% para o HCV e 25% para o HIV.

A possibilidade de contágio do bebê varia. É alta para o HIV, se não descoberto no início da gestação e se a gestante não receber a dose certa de AZT. Se o HIV estiver no leite, a mãe não pode amamentar diretamente, mas já se comprovou que a pasteurização elimina o vírus. Para o HTLV, estudos sugerem que o contágio ocorre principalmente pelo leite e que a pasteurização também poderá eliminar esse vírus. Quanto ao HBV, há risco de contaminação neonatal entre 40% e 90% dos casos. A transmissão pelo leite também é possível, mas a aplicação imediata de imunoglobina e vacina pode evitar o contágio. A transmissão vertical do HCV ainda é incerta, mas há cuidados recomendados, como “um parto vaginal, que expõe menos o bebê ao contato com o sangue da mãe”, alerta Maria Teresa.

A pesquisa abrangeu 1.540 gestantes da região do Butantã e requereu dez meses para a coleta das amostras de sangue e mais 18 meses para acompanhar os bebês das mães infectadas. As amostras das mães foram colhidas no momento do parto e as dos filhos das infectadas no 3º, 6º, 12º e 18º ou 24º meses de vida. Colheram-se 10 ml de sangue de cada gestante. Para cada amostra positiva, houve ao menos dois testes confirmatórios, por pesquisa do DNA ou RNA viral.

Caso houvesse triagem sorológica de rotina em gestantes na rede pública de saúde, como sugere o estudo, se poderia adotar terapêutica específica e precoce para as soropositivas e seus bebês, com interrupção do aleitamento em casos de risco. Isso e “a priorização da rede básica de saúde poderiam”, diz a pesquisadora, “contribuir muito para a diminuição da alta mortalidade infantil em nosso meio”.

PERFIL
Maria Teresa Zulini da Costa é graduada, com mestrado e doutorado na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP). É professora da USP desde 1981 e chefe da Unidade Neonatal da Divisão de Clínica Pediátrica do Hospital Universitário desde 1992.

Projeto: Prevalência de HIV, HTLV I-II, HBV e HCV em Gestantes da Região do Butantã e Avaliação Clínica e Sorológica dos Recém-Nascidos de Gestantes Soropositivas.
Investimento: R$ 28.822,40

Republish