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Primórdios da rede

A história dos primeiros momentos da internet no Brasil

Guilherme LepcaEla chegou sem pompas, banda de música ou discurso. Em um dia incerto de janeiro de 1991, no início do período tradicional de férias da FAPESP, de 20 dias, começaram a entrar em um dos computadores da Fun­dação os primeiros sinais da internet no Brasil. Há 20 anos começava a nascer ali tudo o que se conhece hoje da grande rede mundial de computadores no país. “Para nós a chegada da internet não foi surpresa, estávamos esperando, porque ela estava crescendo nos Estados Unidos e sabíamos que seria mais fácil fazer um computador da marca Digital conversar com outro IBM, por exemplo”, diz Demi Getschko, o então superintendente do Centro de Processamento de Dados da FAPESP e atual diretor presidente do Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR (NIC.br), entidade que é o braço executivo do Comitê Gestor da Internet (CGI) e coordena os serviços da rede no Brasil. A entrada da internet na Fundação se deu porque havia uma conexão direta com o Fermilab, o laboratório de física de altas energias especializado no estudo de partículas atômicas, com sede na cidade de Batavia, em Illinois, nos Estados Unidos. Essa linha conectada em 1989 dava acesso aos pesquisadores brasileiros às informações e a contatos com seus pares naquela instituição norte-americana e em outras daquele país e da Europa por meio de uma das predecessoras da internet, a Bitnet. A conexão funcionava via linha telefônica ponto a ponto sem necessidade de discagem, por um fio de cobre dentro de um cabo submarino, porque ainda não havia fibra óptica para esse tipo de serviço. Ela era operada pela Academic Network at São Paulo, a Ansp, a rede acadêmica de São Paulo, criada e mantida financeiramente pela FAPESP desde 1988 para suprir a comunicação eletrônica entre as principais instituições de ensino e pesquisa paulistas.

A Bitnet, sigla de Because It’s Time Network, era muito usada por pesquisadores no exterior. Ela utilizava uma linguagem de computação criada pela empresa IBM. A Ansp operava com a rede Decnet, própria dos computadores da empresa Digital. Soft­wares especiais de conversão faziam uma máquina se comunicar com outra. Como a internet crescia no meio acadêmico norte-americano e o Fermilab também resolveu entrar nessa rede sem desligar as conexões Bitnet ou Decnet, a FAPESP, por meio da rede Ansp, foi junto. A partir desse início até 1994, quando começou a internet comercial no país, a conexão com o Fermilab provia todas as transmissões via internet do Brasil com o exterior.

Não há registro dos conteúdos das primeiras mensagens da internet que chegaram ao Brasil. Getschko e sua equipe não registraram e não lembram o que diziam os primeiros e-mails. Para eles, naquele momento tratava-se de mais uma rede a administrar e fazê-la funcionar, e evidentemente todos, inclusive nos Estados Unidos, não tinham noção do sucesso que ela alcançaria dentro de poucos anos. Mas, para receber a internet, a equipe de Getschko se preparou. Ela começou a ser planejada em 1990, quando Alberto Gomide, engenheiro e analista de sistemas da Ansp, esteve no Fermilab para conhecer a nova tecnologia. “Lá eles adiantaram que iriam migrar para a internet, com TCP/IP, e que a rede iria se chamar Energy Science Network (ESNet)”, conta Getschko. “Ficou decidido que, quando o Fermilab mudasse para a internet, nós iríamos junto”, lembra. O Transmission Control Protocol/Internet Protocol (TCP/IP) é o principal protocolo, ou linguagem, usado pela internet. O software para receber a internet no Brasil era chamado Multinet, comprado da empresa TGV norte-americana e que Joseph Moussa, especialista em software da rede Ansp na época, instalou no computador VAX da marca Digital na FAPESP. O Multinet tinha características comuns aos computadores da Digital e podia substituir o roteador na conexão com a nova rede.

Linha do tempo da internet (continua…)

“O jeito certo de conectar a internet teria sido usar uma caixinha externa, um roteador, que só conseguimos um ano depois”, diz Getschko. O software Multinet instalado por Moussa foi especificado por Gomide e conseguia estabelecer a conexão usando uma interface comum dos computadores Digital. “Quando o Multinet chegou, no meio das férias do Gomide, o Moussa desempacotou aquilo, pegou as fitas, que eram dectapes [fitas magnéticas para armazenar dados e softwares da Digital], instalou no VAX e conseguiu rodar o software e testar os primeiros pacotinhos [pacotes são a forma de identificar os sinais eletrônicos de dados com informação na internet]”, lembra Getschko.

Gomide disse que na época não viu muita diferença entre as duas tecnologias. “A Decnet era tão completa quanto a própria internet. Considerando que não existia nem ao menos a ideia do www, todas as possibilidades de conexão com outras máquinas eram praticamente as mesmas que tínhamos com a Decnet. A única mudança foi a efetivação do domínio.br para os e-mails”, disse Gomide em entrevista para um livro que a FAPESP está preparando sobre o assunto (os autores são Claudia Izique, Marcos de Oliveira, e Roberto Tanaka). Naquela altura do desenvolvimento de redes, a troca de mensagens servia como correspondência e troca de dados, e não existia a possibilidade de enviar e receber fotos, por exemplo. A conexão com o Fermilab era então de 9.600 kilobits (Kbps) – até setembro de 1990 ela não passava de 4.800 Kbps –, algo muito inferior, por exemplo, a uma conexão doméstica atual de 1 megabit por segundo (Mbps) ou com a atual conexão da Ansp com os Estados Unidos, de 10 Gigabits por segundo (Gbps).

Aberto e simples
No final de 1990, a Bitnet e a Decnet, entre outras redes proprietárias, estavam em decadência e a internet crescia e disseminava o TCP/IP, um protocolo aberto e não de um fabricante como os outros. “Até a década de 1990 não existia tecnologia para fazer as redes crescerem em TCP/IP em grande escala. Nos anos 1980, a tecnologia de fibra óptica e de modems sobre fios de cobre já estava dominada, mas ainda era preciso resolver o problema dos protocolos para permitir que os computadores conversassem. Isso limitava a expansão da internet”, analisa Luís Fernandez Lopez, professor de informática médica da Faculdade de Medicina da USP e coor­denador da rede Ansp. “A grande vantagem do TCP/IP é ele ser um protocolo aberto e simples. Por isso, todo mundo saiu fazendo programas, placas, softwares e hardwares”, diz. “O importante da internet é a retirada dos computadores do sistema porque a comunicação não ocorre diretamente entre eles [grandes computadores ou mainframes], mas sim por meio de roteadores [que procuram a melhor rota para a transferência de pacotes eletrônicos em que são transformadas as mensagens]. A rede tornou-se extremamente flexível e fácil de crescer”, explica Getschko.

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A experiência adquirida pela equipe da Ansp permitiu que a FAPESP, além de se tornar a conexão brasileira com a internet, se transformasse no centro técnico do início da internet brasileira, inclusive servindo à Rede Nacional de Ensino e Pesquisa (RNP) criada pelo Ministério da Ciência e Tecnologia. A RNP se formou em 1989 e já se preparava para se ligar à internet em 1990, o que aconteceu em 1992, proporcionando o acesso a várias instituições de pesquisa do país. O grupo do CPD da FAPESP foi formado quando a Fundação decidiu criar uma rede para entrar na Bitnet, que havia começado a funcionar em 1981, desenvolvida por pesquisadores da Universidade da Cidade de Nova York e da Universidade Yale, no estado de Connecticut. Ela interligava grandes computadores em que as pessoas podiam se comunicar usando terminais (monitor mais teclado) conectados a essas máquinas, principalmente para trocar e-mails. O objetivo era conectar instituições acadêmicas. Em 1988 eram mais de 1.400 universidades e agências governamentais interligadas em 49 países, inclusive o Brasil. Na Europa, em 1982, a Bitnet estabeleceu uma conexão com a Rede de Pesquisa Acadêmica Europeia, lançada e mantida pela IBM, que reuniu 19 países e mais de 500 computadores. A Bitnet foi a primeira conexão brasileira com uma rede internacional. Era uma linha direta entre o Laboratório Nacional de Computação Científica (LNCC), no Rio de Janeiro, conectada em setembro de1988, e a Universidade de Maryland, nos Estados Unidos. A Ansp entrou na Bitnet em abril de1989.

De forma diferente da conexão pioneira do LNCC no Rio, em São Paulo foi necessário formar uma rede com as universidades de São Paulo (USP), Estadual de Campinas (Unicamp) e a Estadual Paulista (Unesp), mais o Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT). A necessidade de entrar na Bitnet surgiu entre os pesquisadores e bolsistas que voltavam de estudos nos Estados Unidos e na Europa e sentiam falta das mensagens eletrônicas comuns nos ambientes acadêmicos que haviam frequentado. Aqueles que mais solicitavam os correios eletrônicos eram os  pesquisadores do Instituto de Física (IF) da USP. O atual professor do mesmo IF, Philippe Gouffon, em 1987 estava concluindo uma bolsa de estudos de pós-doutorado no Fermilab e já sabia que a instituição norte-americana estava disposta a se conectar com a universidade brasileira por meio de sua rede, a HEPNet (High Energy Physics Network). Ele trouxe a ideia para o professor Carlos Escobar, do IF, que integrava a coor­denação da área de física da FAPESP. “Apresentei a proposta ao Oscar Sala, que era o presidente da Fundação”, contou Escobar. Tanto Sala, que era físico do mesmo instituto da USP, como o professor Alberto Carvalho da Silva, médico–fisiologista, professor da Faculdade de Medicina da USP e diretor presidente do Conselho Técnico Administrativo da Fundação, acataram o projeto, antevendo que a conexão entre o Laboratório de Física de Altas Energias da USP e o Fermilab permitiria o desenvolvimento de estudos em parceria.

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Quando estava sendo elaborada, em 1987, a rede ganhou a sigla Span, acrônimo de São Paulo Academic Network, mas antes de entrar em operação mudou de nome. “Descobrimos que Span era uma rede da Nasa, a agência espacial norte-americana, com o nome de Space Physics Analysis Network. Aí trocamos para Ansp, que consistiu em inverter o Span”, lembra Getschko. Depois de aprovada pelo Conselho Superior da Fundação, a Ansp pôde se conectar à Bitnet em 1988. Logo foi reconhecida como uma das redes mundiais de computadores. Ela consta no livro com nome estranho e cheio de símbolos, os mesmos usados para endereçamento das várias tecnologias utilizadas até aquele momento: !%@:: A directory of electronic mail addressing & networks, de Donallyn Frey e Rick Adams, da editora O’Reilly, editado em 1989. “Era uma espécie de lista telefônica mundial onde existiam todas as máquinas como mainframes, PCs”, lembra Getschko. Além do reconhecimento da Ansp, feito com menos de um ano de conexão, o LNCC também estava listado representando o Brasil. O livro relacionava a Bitnet e as demais redes de computadores e usuários. Percorrendo suas páginas é fácil identificar que as destinadas à internet ainda continham poucos endereços, restritos a algumas universidades norte-americanas. Outro dado interessante é a proliferação de formas de endereçamento. Nem todos usavam @, alguns utilizavam % ou !. “Nós tínhamos e-mails bem estranhos na época, juntando essas diversas redes”, lembra Getschko. Um exemplo é o da Hepnet concebido assim: usuário%fpsp.hepnet@lbl.gov, sendo fpsp, FAPESP, e o LBL (Lawrence Berkeley National Laboratory), o ponto de interconexão das redes nos Estados Unidos.

A história ou a sorte da internet certamente dá uma guinada positiva com a possibilidade de acesso global a vários tipos de informação que se abriram com a world wide web, a www, a partir de 1991 nos Estados Unidos. A internet cresceu e logo, em 1994, começou a sair do âmbito acadêmico e tornar-se também comercial. No Brasil, em 1995, o Ministério de Ciência e Tecnologia e o Ministério das Comunicações criam o Comitê Gestor da Internet (CGI), formado por representantes da academia, das empresas envolvidas nas conexões, provedores e usuários. Uma das tarefas do CGI era cuidar do registro de nomes de domínio.br, mas essa tarefa foi atribuída pelo comitê à FAPESP, que já registrava os nomes dos usuários e fazia a distribuição dos números IP, que identificam cada computador. Ele é uma associação de nome com um número que pode ser acessado pela rede. “Em 1989 nós já tínhamos o ‘.br’ registrado para o Brasil antes da internet”, diz Getschko. Ele foi designado para a FAPESP em 18 de abril de 1989 por Paul Mockapetris e Jonathan Postel, da Autoridade para Administração de Números Internet (Iana, na sigla em inglês). Em relação aos nomes dos registros da internet, Getschko e sua equipe não lembram qual foi o primeiro a se inscrever para ter o nome na web. Entre os primeiros .com certamente estavam UOL, BOL e Estadão. “Os pedidos chegavam à FAPESP e o Gomide olhava um por um e dizia: Quem é você? É provedor? Então não pode ser acadêmico, vai ser .com.br. No exterior, o procedimento era idêntico e também gratuito. Os primeiros registros .com.br foram realizados por Gomide à mão. “Não precisava de um software. Ele examinava caso a caso e fornecia o número IP [Protocolo Internet que identifica cada computador].” Certamente essa forma de registro logo mudou para um software e começou a ser pago devido aos custos envolvidos.

Linha do tempo da internet

A FAPESP teve uma grande participação no início da internet também como o único ponto de troca de tráfego (PTT) até 1998, quando vários provedores trocavam o tráfego no terceiro andar do prédio da FAPESP, no bairro do Alto da Lapa, em São Paulo. O PTT significa um local onde estão os roteadores que fazem a comutação entre os sistemas autônomos da internet. Por exemplo, é um local onde um e-mail emitido pelo provedor Terra endereçado ao provedor Gmail encontra a rota de destinatário. “A Ansp era um território livre e neutro, onde se podia trocar tráfego à vontade. Todo mundo conseguia chegar com um cabo de telefone ou uma fibra óptica no terceiro andar do prédio da Fundação, que virou um PTT”, diz Lopez. “Mas, precisa ficar claro, não passava tráfego comercial na linha internacional dentro da rede Ansp, as empresas simplesmente usavam o local para troca de tráfego”, diz. Com a ampliação da rede, PTTs privados foram instalados, além de a FAPESP deixar totalmente as atribuições relativas à internet para o CGI. Com a separação total, a Ansp voltou a ser uma rede acadêmica como muitas existentes no mundo. Para suprir a internet acadêmica, ela mantém um PTTA, ponto de troca de tráfego acadêmico na cidade de Barueri, onde ocorre a troca de tráfego entre as universidades e institutos de pesquisa, além de possuir uma conexão para a internet comercial.