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Uma dupla do Triássico gaúcho

Dinossauro e “primo mais velho” dividiam o mesmo ambiente há mais de 230 milhões de anos

MARCOS PIVETTA | Edição Online 14:45 11 de novembro de 2016

 

Revista Pesquisa FAPESP
Podcast: Max Langer
Uma equipe de paleontólogos brasileiros descreveu ontem (10/11) na versão eletrônica da revista científica Current Biology uma associação rara de fósseis: um novo gênero e espécie de um dinossauro muito primitivo e antigo, o Buriolestes schultzi, e também um novo gênero e espécie de um lagerpetídeo, o Lxalerpeton polesinensis, um pequeno réptil em forma de lagarto, cujo grupo é considerado precursor dos dinossauros. Os ancestrais diretos dos dinossauros podem ter se originado a partir de formas de lagerpetídeos. Os vestígios de ambas as espécies foram encontrados em rochas do período Triássico Superior, com idade entre 238 e 227 milhões de anos, em um sítio paleontológico em São João do Polêsine, no centro do Rio Grande do Sul.

Alguns fósseis das duas espécies foram achados lado a lado, incrustados na mesmo afloramento. Outros estavam separados apenas por um ou dois metros. “Não temos dúvida em afirmar que o dinossauro e o lagerpetídeo foram contemporâneos e viveram juntos”, explica Sérgio Furtado Cabreira, paleontólogo da Universidade Luterana do Brasil (Ulbra), campus de Canoas (RS) e descobridor dos fósseis ao lado de Lúcio Roberto da Silva, seu colega de universidade. O achado é considerado importante para entender como surgiram os primeiros dinossauros e como era sua relação com os répteis aparentados de seu tempo.

Antes do resgate desse material em solo gaúcho, havia evidências apenas em outros dois lugares de que dinossauros e lagerpetídeos dividiram o mesmo ambiente. “Nossos fósseis são mais velhos do que os dos Estados Unidos e mais preservados do que os da Argentina”, comenta Max Langer, paleontólogo da Universidade de São Paulo (USP), campus de Ribeirão Preto, coautor do trabalho. O principal fóssil de lagerpetídeo achado no Sul é considerado o mais completo desse grupo e inclui um inédito crânio do animal. O paleontólogo Alex Kellner, do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (MN-UFRJ), outro autor do estudo, pretende estudar o crânio em detalhes por meio da técnica de microtomografia computadorizada.

Esqueleto do Buriolestes schultzi

Esqueleto do Buriolestes schultzi

O dinossauro e seu parente próximo eram répteis de pequeno porte. O B. schultzi devia medir 1,5 metro de altura, exibir uns 50 centímetros (cm) de comprimento e pesar por volta de 7 quilos. Devia ser bípede. Seus dentes eram pontudos, recurvados para trás, com bordas serrilhadas. Era carnívoro – a rigor, o primeiro e único comedor de carne conhecido a fazer parte do grupo dos saurópodes, constituído por dinossauros enormes, de pescoço longo, quadrúpedes e herbívoros.

O lagerpetídeo era ainda menor. Tinha 15 cm de altura por 40 cm de comprimento. “Devia pesar uns 150 gramas e ser animal um veloz”, afirma Cabreira. Ele devia ser carnívoro e insetívoro. Embora não haja evidência, é possível que o L. polesinensis fosse caçado pela espécie de dinossauro com que dividia o ambiente do Triássico.

Artigo científico
CABREIRA, S. F. et al. A Unique Late Triassic Dinosauromorph Assemblage Reveals Dinosaur Ancestral Anatomy and Diet. Current Biology. 10 de nov. 2016


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