Guia Covid-19
Imprimir Republicar

Covid-19

3,5 milhões de paulistanos já foram expostos ao novo coronavírus

Estudo sugere que 41% da população adulta da capital paulista possui anticorpos contra o patógeno; número é 3,5 vezes superior ao dado oficial de infectados

Passageiros aguardam para embarcar em trem em estação no centro de São Paulo

Léo Ramos Chaves

A sexta rodada do inquérito epidemiológico domiciliar SoroEPI MSP, coordenado pelo Grupo Fleury, Instituto Semear, Ipec – Inteligência em Pesquisa e Consultoria e pela organização não governamental Todos pela Educação, sugere que pelo menos 3,5 milhões de moradores da capital paulista com mais de 18 anos já foram infectados pelo novo coronavírus, o causador da Covid-19. O número corresponde a 41,6% da população adulta da cidade de São Paulo e é cerca de 3,5 vezes superior ao que mostram as estatísticas oficiais – em 1o de maio, último dia de coleta de dados do estudo, a prefeitura de São Paulo contabilizava 1 milhão de infectados.

Realizada a partir da análise laboratorial de amostras de sangue de 1.187 participantes, a pesquisa indica que a pandemia acelerou na maior cidade do país nos primeiros meses do ano. A soroprevalência – frequência de indivíduos com a presença de anticorpos contra o novo coronavírus no soro sanguíneo – aumentou 11,7 pontos percentuais em comparação à etapa anterior do inquérito, ocorrida entre 14 e 23 de janeiro. Naquela ocasião, 29,9% da população adulta havia tido contato com o vírus. No período entre os dois levantamentos, cerca de 1 milhão de moradores testou positivo para anticorpos contra o Sars-CoV-2, segundo o estudo.

“Houve um tremendo salto na positividade, o maior entre todas as fases do estudo, iniciado em maio do ano passado”, declarou a Pesquisa FAPESP o infectologista Celso Granato, diretor clínico do Grupo Fleury e um dos coordenadores do trabalho. “Temos realizado esse inquérito, em média, a cada dois meses. Grosseiramente, a prevalência de anticorpos na população de São Paulo passou de 5% para 11%, depois para 18% e em seguida para 26%. Em janeiro chegou a praticamente 30% e agora superamos 41% da população.” (ver infográfico abaixo)

De acordo com Granato, a expressiva alta na soroprevalência verificada agora se deu porque o estudo de campo foi executado no fim da chamada segunda onda da pandemia no país, quando houve um repique e o novo coronavírus se disseminou fortemente entre a população.

Outro aspecto revelado pelo levantamento foi um alastramento do vírus entre a população mais jovem. Na faixa etária entre 35 e 44 anos, o índice de prevalência atingiu 51,3%, 1,4 vez maior do que o observado na parcela composta por indivíduos com 60 anos ou mais (36,2%). “Esse resultado reflete o que estamos vendo diariamente nos hospitais. Cada vez gente mais jovem está sendo internada e indo para as UTIs [Unidades de Terapia Intensiva]”, afirma o diretor clínico do Fleury.

Ele destaca outra novidade captada pelo inquérito. Pela primeira vez, constatou-se uma maior soroprevalência em residências com mais de cinco moradores quando comparada com a verificada em moradias de até dois habitantes – 48,2% versus 34,3%. A possível explicação para esse fenômeno, segundo o infectologista, é o alastramento da variante P1 do vírus em São Paulo. “Essa cepa, de acordo com vários estudos, já representa 80% a 90% dos casos no estado de São Paulo. E sabemos que ela é mais transmissível”, explica Granato. “Com a chegada da cepa P1 à cidade, morar em domicílios com mais gente provavelmente aumente o risco de ser infectado.”

Duas epidemias
A mais recente rodada do inquérito epidemiológico SoroEPI MSP confirma o que já vem sendo identificado desde a segunda etapa do estudo, realizada em junho de 2020: a capital paulista convive com duas pandemias, que evoluem paralelamente e em ritmos diferentes. A população mais instruída, branca, de renda superior e que mora em regiões centrais parece ser menos afetada pelo vírus do que a parcela mais carente, menos escolarizada e residente em bairros periféricos.

Nos distritos mais ricos, a taxa de prevalência de anticorpos é de 35,9% – 5,7 pontos percentuais abaixo da média municipal –, enquanto nos bairros mais pobres e distantes do centro é de 47% – 5,4 pontos percentuais acima da média. A diferença na positividade entre as duas regiões é de 11,1 pontos percentuais. O novo coronavírus também faz mais vítimas entre os moradores autodeclarados pretos ou pardos. Quase metade desse grupo (48,4%) aparentemente já teve contato com o vírus, enquanto entre os indivíduos brancos o percentual cai para 35%.

O levantamento aponta, ainda, que quanto menos instruída é a pessoa maior o risco de entrar em contato com o patógeno. A soroprevalência entre quem tem até o ensino médio incompleto (45,2%) é 1,8 vez maior do que entre aqueles com nível superior completo (24,7%).

Metodologia do estudo
O município de São Paulo tem uma população total de 12,3 milhões de habitantes. Destes, 8,4 milhões têm 18 anos ou mais. A fim de mensurar a soroprevalência do Sars-CoV-2 nessa parcela de moradores, os participantes, selecionados aleatoriamente de forma a representar o conjunto de moradores da cidade, responderam a um questionário e tiveram amostras de sangue colhidas por punção venosa. A presença de anticorpos para o novo coronavírus sugere que a pessoa esteve previamente infectada pelo vírus.

A quantidade de anticorpos anti-Sars-CoV-2 encontrada no sangue foi medida empregando um teste de quimioluminescência, que revela os anticorpos IgG e IgM separadamente, e outro de eletroquimioluminescência, que detecta anticorpos totais. Os dois métodos são similares e baseiam-se na emissão de luz como consequência de reações químicas. A aplicação de uma corrente elétrica no exame de eletroquimioluminescência gera reações mais amplificadas e maiores faixas de leitura.

O trabalho de campo para monitorar a prevalência da infecção por Sars-CoV-2 na população aconteceu entre 23 de abril e 1o de maio. Para feitos estatísticos, a cidade foi dividida em duas regiões, uma delas agrupando os distritos com maior renda média e a outra com os de menor renda média. Cada uma delas equivale a cerca de metade da população adulta residente.

Os resultados das etapas anteriores e outros dados sobre o estudo SoroEpi MSP, cujo objetivo é subsidiar a formulação de políticas públicas de prevenção e controle da pandemia, podem ser acessados no site do projeto.

Republicar