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Arqueologia

A cidade e o campo

Estudos destacam a importância das áreas rurais nas antigas pólis gregas do Mediterrâneo

Vestígios do Templo de Héracles (Hércules) em Agrigento: monumento da parte urbana, a ásty, de uma antiga pólis grega na Sicília

pjt56 / wikimedia commonsVestígios do Templo de Héracles (Hércules) em Agrigento: monumento da parte urbana, a ásty, de uma antiga pólisgrega na Sicíliapjt56 / wikimedia commons

Pesquisadores do Laboratório de Estudos sobre a Cidade Antiga (Labeca) do Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo (MAE-USP) estão tentando entender melhor como as pólis, as antigas cidades gregas, utilizavam todo o território sob sua esfera de influência durante os períodos Arcaico e Clássico, entre os séculos VIII e III a.C. Do ponto de vista da ocupação espacial, as pólis, uma forma inovadora e autônoma de organização social não submetida a um poder centralizado, eram divididas em duas áreas: a ásty, mais adensada, “urbana” e menor, que abrangia seu núcleo fundador, onde os cidadãos, habitantes livres do sexo masculino ali nascidos, exerciam a atividade política; e a khóra, setor rural, de maior extensão, dedicado à prática da agricultura, pecuária e extração de madeiras. As fronteiras de uma pólis eram definidas pelos limites de sua khóra.

O papel da khóra, área disputada pelas pólis nas guerras em razão de sua importância estratégica como fonte de alimentos e expressão de poder político, é o eixo central que articula as pesquisas da equipe do Labeca nos últimos quatros anos. Para tanto, os arqueólogos do MAE realizaram viagens de campo a sítios gregos da Europa mediterrânea e pesquisa na literatura especializada. “Boa parte dos trabalhos feitos desde o século XIX prioriza a área ‘urbana’ das antigas cidades gregas como se ela representasse toda a pólis”, diz a arqueóloga Maria Beatriz Borba Florenzano, coordenadora do Labeca e de um projeto temático sobre as relações entre a ásty e a khóra das an-ti-gas cidades gregas.

O foco prioritário dos trabalhos do Labeca não tem sido Atenas, Esparta ou Tebas, as mais conhecidas e estudadas cidades da Grécia Antiga balcânica, mas conjuntos de pólis situadas dentro e fora da Hélade continental, em especial as da Magna Grécia, como os helenos denominavam o sul da Itália, da Sicília, do norte da África e da Argolida, região norte-oriental do Peloponeso. As primeiras fundações gregas na Sicília datam do século VIII a.C., época em que, na área balcânica, Atenas, Corinto e Argos estavam ainda em fase de construção. O processo de ocupação da Sicília se estende pelos séculos VIII e VII a.C. Os dados das fontes textuais nem sempre coincidem com as informações obtidas pelas escavações e trabalhos arqueológicos, mas atualmente se considera que Naxos, Mégara Hibleia e Siracusa surgiram entre 750 e 730 a.C. Gela foi fundada em 680 a.C. e Selinonte, criada por antigos moradores de Mégara Hibleia, possivelmente por volta de 650 a.C. No século VI a.C., os habitantes de Gela fincaram o núcleo central de outra importante pólis na ilha, Agrigento. Na península itálica, a cronologia não é muito distinta. Na década de 1990, os vestígios de Pitecusa, uma cidade grega do início do século VIII a.C., talvez a mais antiga da Magna Grécia, foram descobertos em Ísquia, uma ilha do golfo de Nápoles.

1.500 pólis, uma língua e religião
Assim as primeiras pólis erigidas na orla ocidental do Mediterrâneo foram contemporâneas à criação das principais cidades da própria Grécia continental. Seu desenvolvimento se deu de forma autônoma e em paralelo ao de Atenas e das demais pólis dos Bálcãs. Nessa época ainda não havia um modelo acabado de uso da ásty ou da khóra que pudesse ser copiado e as questões locais e regionais definiam modos específicos de apropriação do espaço. “A Grécia Antiga deve ser tratada como o mundo grego no Mediterrâneo”, afirma Beatriz. “Ela inclui os assentamentos gregos na península balcânica, onde se encontra a Grécia atual, na Turquia, na Itália, na França, na Espanha, no norte da África e no mar Negro.” No período estudado, a área vista como grega era muito maior do que os limites atuais da Grécia. Fundada há 2.500 anos, a pólis grega de Quersoneso, por exemplo, estava assentada sobre parte do território da atual Sebastopol, importante porto do sul da Crimeia, região hoje em disputa entre a Ucrânia e a Rússia.

Os levantamentos mais recentes indicam a existência de cerca de 1.500 pólis estabelecidas pelos antigos helenos, quase todas em áreas próximas ao litoral mediterrâneo. Embora o número de pólis conhecidas seja elevado, a maioria dos estudos históricos e arqueológicos se concentra sobre Atenas, vista durante muito tempo como o modelo do que era uma cidade grega antiga, a pólis por excelência. No entanto, essa visão, segundo os pesquisadores do Labeca, é extremamente parcial e deve ser relativizada. Como parte de um esforço para superar essa abordagem reducionista do antigo mundo grego, o laboratório do MAE criou o Nausitoo, um banco de dados com informações, fotos e plantas da ocupação do espaço urbano e rural de quase 200 pólis espalhadas pelo Mediterrâneo. “Os habitantes das pólis gregas, independentemente de sua localização geográfica, falavam uma língua comum e adotavam a mesma religião e costumes”, explica a arqueóloga Elaine Hirata, outra pesquisadora do Labeca. “Havia um mundo interligado no Mediterrâneo. O banco de dados permite fazermos estudos comparativos entre as cidades.”

Siracusa, a mais poderosa pólis da Sicília, é talvez o caso mais extremo des-sas antigas conexões. Entre as pólis gregas, não existia uma relação assimétrica de metrópole e colônia, embora as mais fortes tivessem influência sobre as mais fracas. De acordo com as circunstâncias, alianças eram feitas para combater outras cidades gregas ou enfrentar inimigos externos, como os persas, fenícios ou cartagineses. Siracusa chegou a ser a segunda maior pólis grega no século V a.C. e derrotou Atenas em guerras.

Ruínas dos séculos V e IV a.C. de Siracusa: castelo e muralha protegiam a khóra, a parte rural da antiga cidade na Sicília

Giovanni Dall’Orto / wikimedia commons Ruínas dos séculos V e IV a.C. de Siracusa: castelo e muralha protegiam a khóra, a parte rural da antiga cidade na SicíliaGiovanni Dall’Orto / wikimedia commons 

A ocupação de seu território apresentava peculiaridades em relação a outras pólis, segundo os pesquisadores do Labeca. Em torno da ásty, do núcleo central, de Atenas e da maior parte das pólis gregas, havia uma muralha de proteção. Essa é a regra geral. Em seu apogeu, no entanto, Siracusa exibia uma muralha muito maior, que englobava, inclusive, parte de sua khóra. Algumas novidades referentes à organização do espaço mais “urbano” também parecem ter chegado antes na cidade siciliana do que em outras partes do antigo mundo grego. Siracusa nasceu na ilhota de Ortígia, quase contígua à área de terra firme. As vias da localidade se distribuem em um plano ortogonal, um desenho da malha “urbana” que seria utilizado mais tarde do outro lado do Mediterrâneo. “Atenas reconstruiu a área no entorno do porto de Pireu adotando a ortogonalidade como princípio urbanístico de organização do espaço”, afirma Elaine.

Campo como zona de contato
Durante muito tempo, os principais estudos históricos ou arqueológicos descreviam a khóra como uma parte menos importante das pólis gregas. Isso porque as edificações de caráter político, como as que abrigavam as assembleias e conselhos, os espaços de convívio dos cidadãos, como a ágora, e o santuário da divindade protetora situavam-se na ásty. A porção mais afastada do território de uma pólis teria importância menor, vista apenas como área de trabalho agrícola, realizado pelos escravos que cultivavam a terra para os homens livres da ásty, o centro cívico onde estava o poder. Nas últimas décadas, especialmente por conta das escavações arqueológicas realizadas fora do núcleo “urbano”, essa visão tem sido reformulada, de acordo com os pesquisadores do Labeca.

A khóra aparece hoje como uma área de grande dinamismo econômico, com ocupação muito mais densa do que os textos faziam crer. Também é vista como um espaço com construções monumentais, como templos de divindades importantes que atuavam como “fronteiras simbólicas” entre uma pólis e outra. “A grande atenção que os antigos gregos davam à interação ásty-khóra está presente nos calendários dos festivais religiosos das cidades em que estavam previstos rituais, como procissões, que conduziam a população do núcleo mais propriamente político da pólis aos santuários espalhados pela khóra”, diz Beatriz. “A pólis se autorrepresentava nesses rituais como uma unidade constituída de espaços especializados que compartilhavam os mesmos valores, cultuavam os mesmos deuses e que, de forma coesa, defenderiam o seu território.”

Os confins da parte rural de uma pólis também eram uma zona de contato intenso com gregos de outras cidades e povos não gregos, sobretudo nas áreas fora da península balcânica. As interações com outras culturas promoviam mudanças recíprocas entre os grupos envolvidos e são um tema estudado pela arqueologia mediterrânea contemporânea. “Há relatos de coabitação de gregos e fenícios no oeste da Sicília e na Sardenha, área de domínio exclusivo cartaginês. Temos também evidências de muitas trocas materiais entre a Sicília fenícia e a grega”, afirma a arqueóloga Cristina Kormikiari, professora do MAE e outra pesquisadora do projeto, que estuda as cidades criadas pelos fenícios, povo dedicado ao comércio marítimo.

Projeto
A organização da khóra: a cidade grega diante de sua hinterlândia (nº 2009/54583-1); Modalidade Projeto Temático; Pesquisadora responsável Maria Beatriz Borba Florenzano (MAE-USP); Investimento R$ 419.833,30 e US$ 17.780,00 (FAPESP).

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