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Arqueologia

A origem e a longa história de uma estátua de pedra da Amazônia

Antropólogos atribuem a povos indígenas da divisa com a Colômbia a rara peça levada para a França em 1848

Stéphen Rostain/CNRS A estátua de pedra da Amazônia, guardada no Museu Quai Branly – Jacques Chirac, de ParisStéphen Rostain/CNRS

Uma rara estátua de pedra de 1,3 metro de altura que representa um híbrido de ser humano e macaco, com as mãos sobre o peito, viajou de Manaus para Paris no século XIX, inspirou visões fantasiosas sobre os índios da Amazônia, foi vista como mera obra de um pedreiro e deixada de lado por décadas até ser identificada como uma peça indígena autêntica.

A peça em basalto provavelmente fazia parte de rituais de povos indígenas do Alto Solimões. “Um deles são os Uitoto, que ainda hoje fazem grandes estátuas de madeira”, comenta a arqueóloga Cristiana Barreto, do Museu Paraense Emílio Goeldi, e uma das autoras de um artigo publicado em julho na revista Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi – Ciências Humanas, que examina a estátua e sua história. Os Uitoto vivem em três países: cerca de 6 mil estão hoje na Colômbia, quase 2 mil no Peru e 100 no estado brasileiro do Amazonas.

Encontrado durante a pesquisa sobre a origem da estátua, o livro La estatuaria Murui-Muinane: Simbolismo de la gente “Huitoto” de la Amazonía colombiana, do antropólogo Benjamín Yépez Chamorro, da Universidade Nacional da Colômbia (Fundación de Investigaciones Arqueológicas Nacionales, 1982), mostra uma peça em madeira de porte semelhante, com as mãos sobre o peito, usada em rituais religiosos. “No passado , os Uitoto podem ter feito também esculturas em pedra”, diz Barreto. O arqueólogo Stéphen Rostain, do Centro Nacional de Pesquisa Científica (CNRS), que participou da pesquisa, reitera: “Como a escultura vem do Alto Amazonas, próximo aos Andes, é provável que o acesso aos recursos rochosos tenha sido mais fácil”.

Em 2018, o antropólogo André Delpuech, diretor do Museu do Homem, também na capital da França, convidou Barreto, que estava em Paris, e Rostain para elucidar a origem da estátua, que ele pretendia incluir em uma exposição. Eles trabalharam com outros dois especialistas – a conservadora Caroline Hamon, do CNRS, e a estudiosa de coleções amazônicas Magdalena Ruiz-Marmolejo, do Museu Nacional de História Natural.

As análises indicaram que se tratava de um legítimo artefato indígena e não de uma imitação ou uma obra de pedreiro, como se aventou. “Quando vi a estátua pela primeira vez, concluí que ela tinha todas as características de uma escultura típica da Amazônia”, conta Rostain. “Minha reação instintiva foi que era muito feia para ser uma farsa. Depois de tantos anos morando na América do Sul, aprendi com museólogos que os falsificadores costumam seguir padrões clássicos para que sua produção seja avaliada como verdadeira.” A pesquisadora do Museu Goeldi acrescenta: “A ambiguidade entre ser humano e animal, nesse caso um macaco, era comum nas peças arqueológicas da Amazônia desde tempos pré-coloniais”.

A arqueóloga brasileira encontrou a estátua pela primeira vez em um canto pouco iluminado da reserva técnica do Museu do Homem em 2000, ao integrar uma equipe do Museu Britânico que procurava peças relevantes sobre a Amazônia em museus da Europa. Ela não gostou da estátua, não a incluiu entre as peças selecionadas para expor em Londres e a esqueceu. Reencontrou-a em 2005 ao organizar uma exposição sobre arte indígena amazônica em Paris e novamente a deixou de lado.

Preconceitos
Barreto argumenta que a estátua de pedra expõe os preconceitos dos europeus sobre a Amazônia. O naturalista e conde francês Francis de Castelnau (1810-1880) levou a peça de Barra, um dos nomes antigos da atual cidade de Manaus, para Paris em 1848. Em um de seus relatórios, ele associou-a com as lendárias mulheres guerreiras, as amazonas, “para mostrar uma estética exótica e grotesca, de acordo com a atitude colonialista”, observa. “Os europeus achavam que a Amazônia era uma floresta intocada e despovoada”, comenta. “Não sabiam que tinha um passado de grande diversidade cultural, ainda que os povos indígenas tivessem sido dizimados e a floresta recoberto os vestígios arqueológicos.”

Logo após a chegada da estátua a Paris, o Museu do Louvre a expôs como representante de culturas antigas da Amazônia, incomodando autoridades e intelectuais do Brasil. Administrador do Teatro da Paz, em Belém, e membro do Instituto Histórico e Geográfico do Pará, o militar, geógrafo e historiador português Antônio Baena (1833-1898) foi o primeiro a reagir, relatam os autores do artigo na revista do Museu Goeldi. Em uma carta ao presidente da província do Pará, Baena contestava as conclusões do explorador que viajava em nome da França. Os relatos de Castelnau, que criticava as dificuldades de navegação da região, colidiam com os interesses de Baena de intensificar as rotas fluviais para promover o comércio.

A carta do português radicado em Belém inspirou o político e jornalista Manoel de Araújo Porto-Alegre (1806-1879) a escrever a peça de teatro A estátua amazônica – Comédia arqueológica, publicada em 1851, ridicularizando os franceses. Na peça, o conde Sarcophagin de Saint Crypte, que havia levado para Paris uma escultura em pedra encontrada em uma casa da região do rio Negro, comenta: “Esta estátua revela um mundo inteiramente novo, um mundo civilizado que apareceu e desapareceu (…) é a relíquia de um grande império”. Doutor Fóssil contesta: “Essa estátua não é mais que uma múmia petrificada. Pelos caracteres externos, e sem a ação de reagentes químicos, vê-se que essa múmia é antediluviana; e que é um animal de espécie perdida, a que chamarei, desde já, Pithechiosauro”.

“Se não fosse o escândalo do século XIX entre o Brasil e a França em torno da escultura, ninguém teria duvidado de sua autenticidade quando ela chegou ao Museu do Louvre”, diz Rostain. Exibida também no Museu de Etnografia do Trocadéro, entre as obras-primas do Museu de Artes Decorativas e no Museu do Homem, a estátua está agora à mostra no Museu do Quai Branly ‒ Jacques Chirac, todos em Paris. “Os franceses indagaram sobre o interesse de museus brasileiros em repatriá-la”, informa Barreto.

Segundo ela, é uma estátua tosca, embora seja interessante por causa das histórias que a cercam. “Não tem sentido usar esse objeto para representar as culturas amazônicas, porque temos poucas informações sobre ele e seus usos”, comenta. “Existe uma diversidade enorme de peças arqueológicas muito elaboradas, que mostram melhor o rico universo dos povos que as criaram.”

O arqueólogo Paulo DeBlasis, diretor do Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo (MAE-USP), que não participou do estudo, comenta: “O trabalho sobre a estátua mostra que ainda há muitos mistérios a serem compreendidos na arqueologia e etnografia da Amazônia, inclusive sobre a circulação de bens como artefatos de pedra, que podem eventualmente chegar bem longe de onde foram produzidos”.

Artigo científico
ROSTAIN, S. et al. A estátua amazônica. Biografia de um famoso e polêmico artefato vindo do Brasil. Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências Humanas. v. 16, n. 6, e20200038, p. 1-16. 2 jul. 2021.

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