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Resenha

Rumo à frátia racial brasileira

A utopia brasileira e os movimentos negros

É escancaradamente polêmico, pensado para produzir debates, o novo livro do antropólogo e poeta Antonio Risério, A utopia brasileira e os movimentos negros. E é ao mesmo tempo denso, erudito, refinado nas construções de um pensamento que faz um percurso fecundo do reconhecimento, da reafirmação, da mestiçagem no Brasil – em sua existência real e cultural – à postulação da efetiva possibilidade de montagem de uma democracia racial verdadeira neste país. Aí estaria a utopia a que se refere o título do livro, numa dimensão que ultrapassa de muito a questão racial propriamente para se apresentar como pilar fundamental de um projeto de civilização brasileira. “Muitos acreditaram que aqui existia, de fato, uma democracia racial. Outros, não. Entre um extremo e outro, a sociedade brasileira, de um modo geral, passou a querer ser essa democracia exemplar, radicalmente oposta ao cruel e vergonhoso apartheid norte-americano. E assim a democracia racial acabou se convertendo numa espécie de desejo coletivo ou de sonho central da mitologia nacional brasileira”, diz Risério no “toque final” que nos oferece (p. 422). Tudo indica, acrescenta ele, que “é possível caminhar para sua realização mais plena. Para a passagem da ‘democracia racial’ à democracia racial”, mesmo que de forma lenta e gradual e atravessando ainda muitas batalhas. “Utopia?”, interroga-se, para responder imediatamente: “Sim. Mas utopia realista”.

Não há ingenuidade intelectual nessa afirmação. Ela enfatiza uma idéia sofisticada que só se apresenta por inteiro depois que o autor completou sua bem embasada investida, em termos teóricos e práticos, contra o rígido binarismo importado nas últimas décadas do padrão norte-americano, aquele da one drop rule que transforma em negro todo mundo que não seja totalmente branco, que tenha uma gota que seja de “sangue negro” correndo em suas veias. Nessa investida com perspectiva histórica, Risério examina por dentro e com rara riqueza de informação em relação aos ensaios brasileiros que examinam o tema, como se construiu o apartheid nos Estados Unidos e como os deuses africanos, digamos assim, “morreram” em terras norte-americanas, abrindo um espaço descampado para que sua população negra construísse ali seu próprio cristianismo protestante. Toma as indicações de outros autores de que os escravos negros nos EUA encontraram em Jesus uma identificação, antes de dizer que “podemos falar da releitura da Bíblia a partir de uma perspectiva negro-escrava”, e concluir que “logo procedimentos de extração africana vieram à luz. No canto, na dança, no transe. Nas palmas, na cadência marcada com os pés, nos movimentos corporais. Na veemência expressiva do culto” (p. 142). É assim que “negros e negromestiços norte-americanos foram extraordinariamente inventivos, sim – mas na criação de uma variante religiosa do cristianismo: o cristianismo protestante negro dos EUA” (p.144).

Totalmente diversa é a experiência brasileira, a prática da construção religiosa e cultural, para falar de forma mais ampla, dos escravos negros no Brasil. E Risério devassa essa experiência, vai às fundações dos terreiros de candomblé, para encontrar, entre muitas outras, as evidências de que o panteão de seus orixás é uma construção inteiramente brasileira, sincrética e, em larga medida, mestiça. Os deuses africanos não se encontravam reunidos lá, a priori. Em seu percurso rumo à utopia que vislumbra, manejando transdisciplinarmente noções de ciência política, lingüística, semiótica, antropologia, estética e o que mais lhe pareça necessário para chegar ao fim do caminho, Risério reexamina os movimentos negros mais remotos da experiência brasileira, da resistência dos escravos pela fuga, pelo suicídio, revoltas organizadas e formação de quilombos às lutas abolicionistas. Detém-se a seguir nos traços dos movimentos negros mais recentes, reconstituindo como eles se desdobram desde a década de 1920 até os nossos dias, com o largo interregno dos anos mais duros da ditadura militar. Em todo esse percurso, ele não cessa de insistir que “somos uma gente mestiça sim. Mas fruto de uma mestiçagem entre desiguais. O negro foi recuperado no plano do pensar brasileiro. Mas não no plano da prática. Enquanto tais planos não se corresponderem, haverá razão para a crítica, a condenação e o protesto” (p. 387). Uso do regime de cotas? Talvez, mas sem essa do binarismo do preto e branco. De qualquer sorte, Risério pensa que já nos encontramos na estrada, “rumo à frátria racial brasileira”.

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