Em Salvador, o crânio de um africano muçulmano nagô, retirado da Bahia no século XIX e levado para os Estados Unidos, está no centro de uma articulação internacional por repatriação. Em São Paulo, antigos espaços de repressão política e isolamento sanitário começam a ser protegidos não por seu valor arquitetônico, mas pelo que revelam sobre violência de Estado, exclusão e resistência. Esses casos, distintos entre si, apontam para uma mesma mudança: o patrimônio cultural deixou de ser entendido apenas como monumento, edifício ou obra de arte e passou a incluir práticas sociais, memórias traumáticas, territórios, saberes, corpos e reivindicações de grupos historicamente silenciados.
Para mapear essas novas formas de pensar o patrimônio, o historiador Rodrigo Christofoletti, da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), coordenou a publicação do Atlas do patrimônio latino-americano, que reúne análises de 40 pesquisadores de 13 países da região. Composto por 29 verbetes, o livro foi publicado em dezembro de 2025 para discutir os significados contemporâneos do tema no continente. “A América Latina desenvolveu, ao longo do tempo, uma visão própria e crítica sobre seu patrimônio cultural e natural”, sustenta o pesquisador. Assim, os verbetes da obra articulam debates conceituais e apresentam experiências ligadas a memórias ancestrais, paisagens culturais e práticas cotidianas, especialmente aquelas de povos indígenas, frequentemente impactados por processos de urbanização e pela crise climática.
Na visão de Christofoletti, um gesto primordial dessa mudança de perspectiva aconteceu em 1943, quando o artista uruguaio Joaquín Torres-García (1874-1949) fez o desenho América invertida, que propõe uma ruptura com a cartografia tradicional ao colocar o Sul no topo do mapa do mundo. “Mais do que uma inversão estética, trata-se de um posicionamento político e epistemológico: olhar o continente a partir de si mesmo, deslocando hierarquias do pensamento eurocêntrico”, comenta o pesquisador. Isso significa que, na América Latina, essa ampliação conceitual vem sendo acompanhada por uma disputa sobre o lugar da região na produção de conhecimento.
Especialista em diplomacia cultural que atua na Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), em Paris, na França, a boliviana Yoselin Rodríguez explica que, hoje, o patrimônio cultural latino-americano deixou de ser compreendido apenas como objeto estático e é visto mais como prática viva. “Na região, o patrimônio está nos monumentos, mas também nas relações entre as pessoas, nos mercados, nas danças, músicas e na comida”, defende Rodríguez, que coordenou o Atlas em parceria com Christofoletti.

Felipe Goifman / Getty Images | Bruna Quevedo / Wikimedia Commons | IPHANA cidade de Congonhas (MG),samba de roda do Recôncavo Baiano e frevo pernambucano revelam como patrimônio, música e memória coletiva ajudam a contar a história do paísFelipe Goifman / Getty Images | Bruna Quevedo / Wikimedia Commons | IPHAN
Ela diz que, historicamente, na Europa, o patrimônio cultural costuma estar associado a edificações históricas e ser entendido como um elemento do passado a ser conservado. Na América Latina, por outro lado, prevalece a ideia de uma memória viva, em que natureza, cultura e comunidade são dimensões inseparáveis. Um marco dessa perspectiva foi o Fórum Internacional de Folclore, realizado em 1960, em Buenos Aires, na Argentina. Na ocasião, países latino-americanos passaram a discutir a proteção de músicas, danças e expressões populares, ampliando o debate para além de monumentos e edifícios históricos. Segundo Rodríguez, essa agenda começou a ganhar projeção internacional a partir dos anos 1970, embora a consolidação de um marco normativo abrangente tenha levado décadas.
Foi somente em 2003 que a Unesco instituiu a Convenção para a Salvaguarda do Patrimônio Cultural Imaterial, o tratado internacional voltado à proteção de expressões culturais vivas, como tradições, línguas, artes performáticas, rituais e técnicas artesanais, entre elas o samba de roda e o frevo. “Países da América Latina como Bolívia, Brasil, Peru e México tiveram papel central na elaboração do documento, ao defenderem a inclusão dessas manifestações em um sistema internacional de proteção e promoverem uma visão mais integrada entre comunidade, cultura, natureza e práticas vivas”, relata a pesquisadora.
Segundo Rodríguez, a convenção representou uma mudança de paradigma ao reconhecer que patrimônio cultural não se restringe a objetos materiais. Vale lembrar que, no Brasil, o escritor e musicólogo Mário de Andrade (1894-1945) começou a pensar em como salvaguardar o patrimônio imaterial do país na década de 1930.
De qualquer forma, durante boa parte do século XX, o patrimônio cultural latino-americano esteve associado, sobretudo, a bens materiais ligados à formação dos Estados nacionais. No Brasil, isso significou privilegiar igrejas, centros históricos e edificações coloniais, como o conjunto arquitetônico da cidade de Congonhas (MG).
A historiadora Cristina Meneguello, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), explica que essa concepção se institucionalizou com a criação, em 1937, do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Sphan), rebatizado em 1994 como Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Segundo a instituição, patrimônio cultural corresponde ao conjunto de bens materiais e imateriais que, por seu valor histórico, artístico, paisagístico ou etnográfico, é considerado fundamental para a identidade e memória coletiva brasileira.
Remanescentes humanos são entendidos como patrimônio sensível e não mais como objetos científicos
Com mais de três décadas de atuação no campo patrimonial, o arquiteto e urbanista Marcelo Brito, que atuou no Iphan de 1987 a 2022, iniciou sua trajetória na administração municipal na década de 1980. Após o reconhecimento da cidade de Olinda (PE) como patrimônio mundial pela Unesco, em 1982, ele participou do desenvolvimento de um projeto que buscou articular a revitalização do centro histórico e garantir a presença de moradores locais na região, não apenas fomentando seu potencial turístico. Além de reconhecer avanços na ampliação do conceito de patrimônio cultural, Brito destaca que a política patrimonial brasileira teve papel decisivo na preservação de monumentos e centros históricos ameaçados, como ocorreu em Olinda. “Se não fosse por ela, provavelmente teríamos perdido muitos desses bens”, comenta o pesquisador, que também assina um capítulo do Atlas.
O historiador Raul Lanari, da Universidade Federal de Goiás (UFG), explica que o patrimônio material costuma ser associado à preservação da originalidade, enquanto o imaterial reconhece o dinamismo da cultura. Em festas religiosas, por exemplo, a substituição de lamparinas por iluminação elétrica não significa perda de autenticidade, mas sim uma adaptação ao mundo contemporâneo. “Querer reproduzir exatamente uma prática como ocorria no século XIX é uma forma de fetichizar o passado”, analisa. Nesse sentido, ele cita as cavalgadas rurais, reconhecidas como patrimônio cultural imaterial e histórico em diversas regiões do Brasil desde os anos 2000. “Muitas passaram a contar com a presença de motocicletas ao lado de cavalos, refletindo mudanças em padrões de consumo e no acesso a crédito no campo. A cultura se transforma junto com a vida social”, reforça Lanari, outro coautor do Atlas.
O pesquisador lembra que essa mudança de entendimento permitiu reinterpretar manifestações historicamente marginalizadas, como a capoeira, criminalizada durante décadas e reconhecida, em 2014, como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade pela Unesco. De acordo com Lanari, processo semelhante ocorreu, de forma mais lenta, com religiões de matriz africana. Os primeiros terreiros começaram a ser tombados apenas na década de 1980, após décadas de políticas patrimoniais voltadas a referências europeias.
O tombamento é um ato administrativo do Iphan, de estados ou municípios, que protege bens materiais de valor histórico, cultural, arquitetônico ou paisagístico. A medida impede a destruição ou descaracterização de imóveis, monumentos e objetos, com a finalidade de preservar a memória coletiva (ver glossário abaixo). O museólogo Saulo Moreno Rocha, do Museu de Arte da Universidade Federal do Ceará (UFC), considera que um marco desse processo foi o tombamento do terreiro da Casa Branca, em Salvador, o primeiro terreiro de candomblé reconhecido oficialmente como patrimônio no país, em 1981. Em um primeiro momento, a decisão gerou controvérsias por romper com a tradição de valorizar somente projetos arquitetônicos, especialmente igrejas coloniais.
Como desdobramento desse cenário, Meneguello observa que, nos últimos 15 anos, novas categorias entraram no debate. Entre elas, a dark heritage, ou patrimônio difícil, expressão usada para designar lugares associados a experiências traumáticas, como prisões, manicômios, leprosários, espaços ligados à escravidão e centros de repressão de ditaduras militares. “São lugares que, muitas vezes, têm pouca relevância arquitetônica. O que importa é o que aconteceu ali”, justifica.
Na cidade de São Paulo, o Destacamento de Operações de Informação – Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-Codi) foi tombado pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico Arqueológico, Artístico e Turístico (Condephaat) do estado de São Paulo, em 2014. Trata-se do principal órgão de repressão, tortura e assassinato da ditadura militar brasileira no estado, ativo entre 1969 e 1983. Já o antigo prédio do Departamento de Ordem Política e Social (Dops), no centro do Rio de Janeiro, tornou-se patrimônio federal em 2025.
Em sentido oposto, a historiadora lembra do episódio da Casa de Detenção de São Paulo, conhecida como Carandiru, implodida após o massacre de presidiários pela Polícia Militar, ocorrido em 1992. “O apagamento desses lugares também é uma forma de política pública”, contrapõe Meneguello, que, ao lado da historiadora Aline Carvalho, da Unicamp, organizou o Dicionário temático de patrimônio: Debates contemporâneos (Editora da Unicamp, 2020). A obra reúne verbetes sobre patrimônio material, imaterial, arqueológico, turístico, industrial, funerário, indígena, LGBT+ e os chamados patrimônios difíceis.
Em sua pesquisa de livre-docência, concluída em 2024, Meneguello investigou um caso emblemático de disputa entre memória e apagamento: o antigo supermercado Ycuá Bolaños, em Assunção, no Paraguai. Em agosto de 2004, um incêndio no local matou mais de 400 pessoas, a maioria mulheres e crianças, após o proprietário ordenar o fechamento das portas para impedir que clientes saíssem sem pagar. O episódio é considerado a maior tragédia civil do país desde a Guerra do Paraguai (1864-1870). “Familiares das vítimas e movimentos sociais lutaram para impedir que o local fosse convertido em empreendimento comercial e defenderam sua transformação no Memorial 1-A, inaugurado em 2022”, explica a pesquisadora.

Reprodução | Wikimedia CommonsAntiga fábrica da Olivetti (no alto), em Guarulhos, e Sesc Pompeia, em São Paulo: preservação de memórias do mundo do trabalhoReprodução | Wikimedia Commons
Outro campo em expansão é o do patrimônio industrial, que abarca edificações como o Sesc Pompeia, em São Paulo, e a antiga fábrica da Olivetti, em Guarulhos (SP). Na Europa, o debate sobre o reconhecimento de fábricas e ferrovias começou nos anos 1970, mas no Brasil ganhou força apenas a partir dos anos 2000. “Aqui, edifícios industriais costumam ser vistos como estorvo ou algo a ser demolido”, afirma Meneguello, uma das coautoras do Atlas. A fábrica de biscoitos Duchen, às margens da rodovia Presidente Dutra, em Guarulhos (SP), ilustra esse problema. Fundada em 1903, a empresa transferiu sua produção para uma nova unidade nos anos 1950, projetada pelo arquiteto Oscar Niemeyer (1908-2012). O edifício original, longo, estreito e sinuoso, foi premiado na 1ª Bienal de Arquitetura de São Paulo, em 1951, na categoria Construção Industrial.
Após o fechamento da fábrica, na década de 1980, o imóvel acabou sendo abandonado e, mesmo em processo de tombamento pelo Condephaat de São Paulo, terminou demolido. Assim, não restaram vestígios da única obra industrial de Niemeyer. “O próprio arquiteto foi contra o tombamento do edifício, por não considerá-lo um patrimônio a ser preservado”, conta a historiadora.
Na perspectiva de Meneguello, a preservação de fábricas não se limita à compreensão dos sistemas produtivos do passado, mas envolve também a salvaguarda da história social do trabalho no país. “Esses espaços guardam memórias de greves e formas de organização operária. Isso se torna ainda mais importante no contexto atual de precarização do trabalho”, defende.
Em relação aos patrimônios difíceis, um caso ganhou repercussão internacional em 2022, por meio do jornal estudantil The Harvard Crimson, editado por alunos da Universidade Harvard, nos Estados Unidos. A publicação vazou partes do “Relatório do comitê diretor sobre restos humanos nas coleções dos museus da Universidade Harvard”, que tornou pública a existência do crânio de um indivíduo malê mantido nas coleções da instituição. O documento teve como objetivo examinar criticamente o legado da escravidão e do colonialismo, investigando a procedência de 22 mil conjuntos de remanescentes humanos sob custódia da universidade.
Segundo o relatório, o indivíduo foi ferido durante a Revolta dos Malês, levante organizado por africanos muçulmanos escravizados e libertos em Salvador, em 1835 (ver Pesquisa FAPESP nº 357), e morreu posteriormente em um hospital da cidade. Em 1847, seus restos cranianos foram enviados por um diplomata norte-americano para a coleção da Sociedade de Boston para o Aperfeiçoamento Médico, nos Estados Unidos. Mais tarde, em 1889, passaram a integrar o Museu Anatômico Warren e, em 1959, seguiram para o Museu Peabody, ligado à Harvard e localizado na cidade de Cambridge. “O relatório evidenciou o envolvimento histórico da universidade com práticas associadas ao racismo científico”, afirma a socióloga Hannah Romã Bellini Sarno, que fez pós-doutorado na Universidade Federal da Bahia (UFBA), concluído em 2023. Estudiosa da presença do islã no estado, ela integra o grupo de pesquisadores e representantes da comunidade islâmica do estado que reivindica a repatriação do crânio.
O debate contemporâneo incorpora memórias e violências antes excluídas das narrativas oficiais
Sarno explica que, na época da Revolta dos Malês, cerca de 20% dos africanos escravizados em Salvador eram muçulmanos. Após a repressão e perseguição que se seguiram à rebelião, a presença islâmica praticamente desapareceu da cidade. Esse quadro começou a mudar apenas em 1993, com a fundação do Centro Cultural Islâmico da Bahia, liderado por um muçulmano nigeriano que imigrou ao Brasil. Nesse contexto, o processo de repatriação do crânio adquire um novo significado. “Esse tipo de material era tratado como objeto da ciência. Hoje, há uma mudança de paradigma: passa a ser reconhecido como restos de uma pessoa falecida que precisa passar por ritos funerários de acordo com os costumes de sua comunidade”, observa a socióloga.
O historiador Bruno R. Véras, professor na Universidade de Toronto, no Canadá, explica que, durante o século XIX e parte do XX, remanescentes humanos foram compreendidos como material anatômico ou evidência racial. Essa lógica começou a ser questionada na segunda metade do século XX, impulsionada por debates sobre direitos humanos, memória e reparação histórica. Um marco desse processo foi a aprovação nos Estados Unidos, em 1990, de uma lei que estabeleceu regras para a devolução de restos humanos, objetos funerários e itens sagrados de povos indígenas. Paralelamente, códigos de ética estabelecidos pelo Conselho Internacional de Museus (Icom) passaram a exigir a consulta às comunidades de origem sobre a guarda e o destino desses materiais. “Hoje, remanescentes humanos são entendidos como patrimônio sensível”, afirma Véras, que integra o grupo mobilizado pela repatriação.
Para o pesquisador, o caso do crânio malê é exemplar para mostrar como práticas museológicas vêm sendo revistas nas últimas décadas. “Em vez de a universidade estrangeira decidir sozinha, o processo passa a ser orientado pela comunidade historicamente vinculada a esses remanescentes”, detalha. Ao mesmo tempo, ele avalia que museus universitários ainda reproduzem estruturas coloniais ao manter controle exclusivo sobre acervos humanos e tratar a devolução como exceção. “Durante muito tempo, o valor científico serviu para encobrir a forma como esses corpos foram obtidos”, observa.
De acordo com Sarno, o caso reflete transformações no campo do patrimônio impulsionadas nos anos 1990 sobretudo pela participação de comunidades indígenas em debates museológicos realizados em países como Estados Unidos, Canadá e Austrália. A partir de então, esses grupos passaram a questionar a exposição de restos humanos em museus e reivindicar maior participação nas decisões sobre seus destinos. Para a socióloga, a repatriação do crânio malê possui um significado que ultrapassa a dimensão religiosa. “Ela mobiliza não apenas a comunidade islâmica, mas também a população negra em geral, ao recolocar em evidência uma herança que foi apagada”, afirma.
A mobilização pela repatriação do crânio malê ganhou dimensão institucional em 2024, quando o governo do Brasil integrou as negociações com Harvard. A expectativa é de que a peça retorne ao país ainda neste ano. Para um diplomata brasileiro entrevistado para esta reportagem que pediu para não ser identificado, o cenário internacional atual é favorável ao debate sobre a repatriação de objetos e remanescentes humanos. Ainda assim, o país enfrenta desafios estruturais. Um deles é a ausência de mapeamento sistemático de bens culturais mantidos no exterior. “É impossível mapear tudo o que saiu do país”, reforça o diplomata. A discussão sobre o retorno de bens extraviados se dá, também, em relação a peças indígenas, como foi o caso do Manto Tupinambá, devolvido ao Brasil em 2024 pelo Museu Nacional da Dinamarca.

Karime Xavier / Folhapress | Ane SouzaAxé Ilê Obá, primeiro terreiro de candomblé tombado em São Paulo, e Ecomuseu Morro da Queimada, em Ouro Preto (MG)Karime Xavier / Folhapress | Ane Souza
Além da dimensão do problema, há divergências sobre o que deve de fato ser repatriado. “Nem tudo precisa necessariamente ser trazido de volta. Em alguns casos, pode ser importante que peças brasileiras estejam em museus estrangeiros, desde que se saiba como estão sendo expostas e haja consentimento das comunidades envolvidas”, defende. Para lidar com essas questões, o governo federal está estruturando um comitê interministerial, ainda em fase de consolidação, que deverá estabelecer critérios sobre o que solicitar, em que circunstâncias e de que maneira
A redefinição do conceito de patrimônio também tem ampliado o reconhecimento de novos objetos e práticas culturais. O museólogo Carlos Jotta, da UFG, lembra que coleções e peças museológicas deixaram de ter sentidos fixos, passando a ser entendidas a partir dos usos e significados atribuídos pelas comunidades. Como desdobramento desse movimento especialmente na última década, foram criados os chamados ecomuseus, modelo museológico centrado no território, na comunidade e em seu patrimônio cultural e natural, em que os moradores assumem papel ativo na gestão e preservação do ambiente. “Ao contrário de museus tradicionais, eles não se limitam a coleções fechadas, mas interpretam o local onde estão inseridos. Podem abranger os registros de uma comunidade inteira ou se dedicar à preservação de um saber específico”, esclarece o pesquisador.
Exemplo de instituições com essa proposta é o Ecomuseu do Quarteirão Cultural do Matadouro de Santa Cruz, que abrange o bairro de Santa Cruz, na zona oeste do Rio de Janeiro, em uma área de 125 quilômetros quadrados. Criado em 1995 e vinculado à Secretaria Municipal de Cultura, o espaço tem como objetivo central preservar e valorizar o patrimônio cultural e natural da região. Já em Ouro Preto (MG), o Ecomuseu Morro da Queimada foi instituído em 2014. Instalado em um sítio arqueológico e comunitário, busca preservar vestígios dos primórdios da mineração no século XVIII, incluindo fornos e ruínas de moradias.
Para o físico Diego Vaz Bevilaqua, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e presidente do Icom Brasil, consolidou-se nos últimos anos a percepção de que o patrimônio é resultado de escolhas sociais e não deve funcionar apenas como instrumento de celebração. “O patrimônio cultural tornou-se um campo menos estável, mais plural e conflitivo. Já não se limita a conservar objetos do passado, mas envolve disputas sobre quem tem direito à memória e quais histórias devem ser contadas”, sintetiza o pesquisador.
A reportagem acima foi publicada com o título “Memória em disputa” na edição impressa nº 364 de junho de 2026.
Artigos científicos
JOTTA, C. A. R. Notas sobre a criação de uma “Escola de Mineiros” no final do século XIX: Surgimento da Escola de Minas de Ouro Preto e o ensino das ciências mínero-metalúrgicas. Código 31: Revista de informação, comunicação e interfaces. v. 2, n. 2, p. 4. 2024.
MENEGUELLO, C. Douleurs à la dérive: Mémoriaux en marge des initiatives officielles. Brésil(s), n. 26, p. 1. 2024.
Livros
CARVALHO, A. e MENEGUELLO, C. (Orgs.). Dicionário temático de patrimônio: Debates contemporâneos. Editora da Unicamp, 2020.
CHRISTOFOLETTI, R. International heritage: New approaches, old concerns. Springer, 2024.
RODRÍGUEZ, Y. e CHRISTOFOLETTI, R. (Orgs.). Atlas do patrimônio latino-americano. Unesco, 2025.
Relatório
Human remains in university museum collections. Harvard University, 2022.
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