Léo Ramos Chaves / Pesquisa Revista FAPESP“Olha aqui. Você notou esse detalhe?”, indagou o arquiteto e professor emérito da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e de Design da Universidade de São Paulo (FAU-USP) Nestor Goulart Reis Filho à historiadora Beatriz Piccoloto Siqueira Bueno, sua colega naquela instituição de ensino. Na ocasião, os dois selecionavam fotografias de construções arquitetônicas erguidas em Salvador (BA), no século XVIII, para a capa do próximo livro do arquiteto, Quadro da urbanização e do urbanismo no Brasil, previsto para ser lançado em 2026, pela Edusp. “Foi em março deste ano. Ao olhar a fotografia, notou um canal não documentado, possivelmente uma obra que não chegou a ser realizada”, conta a pesquisadora. “Ele permaneceu atento a novas descobertas até o fim.”
Morto em 18 de abril, aos 95 anos, Reis Filho deixa um legado intelectual e institucional construído ao longo de sete décadas. “Seu nome é indissociável do campo disciplinar da História da Urbanização e do Urbanismo no Brasil, área que ajudou a criar ao incorporar a contextualização histórica ao entendimento da arquitetura”, afirma Bueno, parceira acadêmica do pesquisador desde 1989. “Outras marcas de sua trajetória são a relação umbilical com a FAU, onde foi aluno, docente e diretor, bem como a preocupação com a preservação do patrimônio histórico brasileiro.”
Nascido na capital paulista, Reis Filho ingressou no curso de arquitetura em 1951, quando a FAU estava localizada na rua Maranhão, no bairro de Higienópolis, e graduou-se em 1955. Um ano depois foi convidado para ser assistente do professor Eduardo Kneese de Mello (1906-1994) na cadeira de Arquitetura do Brasil, na mesma faculdade. Entre 1956 e 1962, cursou ciências sociais, também na USP. “Logo que me formei, constatei que havia pouca base teórica entre os arquitetos. Então resolvi estudar ciências sociais, e fui aluno de Florestan Fernandes [1920-1995], Fernando Henrique Cardoso, Egon Schaden [1913-1991]. Tenho dupla formação porque queria aperfeiçoar meu trabalho de pesquisa em história da arquitetura e do urbanismo”, contou em entrevista concedida a Pesquisa FAPESP em 2014.
Na reforma curricular da FAU, implantada em 1962 pelo então diretor, o sociólogo e historiador da arte Lourival Gomes Machado (1917-1967), Reis Filho organizou e foi o primeiro responsável pela cátedra História da Arquitetura Contemporânea e Evolução Urbana, uma novidade no país. De 1972 a 1976, dirigiu a faculdade, que em 1968 havia se transferido para o campus do Butantã, em um prédio desenhado pelo arquiteto João Batista Vilanova Artigas (1915-1985), docente da instituição.
“Até então não havia pós-graduação na FAU; durante a gestão de Nestor é que foi criado, em 1972, o programa de mestrado”, conta o arquiteto Lúcio Gomes Machado, filho de Lourival e professor da faculdade. “Ele não apenas consolidou o campo de pesquisa e modernizou a estrutura acadêmica da faculdade, como era também preocupado com a infraestrutura do prédio.” Ao longo de sua trajetória na FAU, o arquiteto ajudaria a instituir laboratórios de pesquisa. É o caso do LAP – Laboratório de Pesquisas de Estudos sobre Urbanização, Arquitetura e Preservação, que criou em 1992 e permanece ativo.
Em 1973, Reis Filho participou da fundação da então Associação Brasileira de Escolas de Arquitetura (Abea), que presidiu entre 1975 e 1978. Nessa época, comandou a Empresa Municipal de Urbanização de São Paulo (Emurb), de 1975 a 1979, e o Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico (Condephaat), de São Paulo, de 1975 a 1980, órgão que ajudou a criar em 1968. Quando esteve à frente da Emurb, convenceu o então prefeito Olavo Setúbal (1923-2008) a desapropriar e restaurar em 1975 o histórico Edifício Martinelli, no centro da cidade, que passou a abrigar vários órgãos do governo municipal.
A defesa do patrimônio permearia seu percurso. Na USP, criou em 1987 a Comissão do Patrimônio Cultural, que, em 2002, se tornaria o Centro de Preservação Cultural – Casa de Dona Yayá, hoje órgão da Pró-reitoria de Cultura e Extensão Universitária. Antes, teve atuação fundamental na instituição do primeiro curso nacional de especialização em restauração para arquitetos, realizado na FAU em 1974, fruto da articulação entre a universidade, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e o Condephaat.
Entre 1999 e 2010, atuou como conselheiro do Iphan. Na oportunidade, foi relator de quatro processos de tombamento de conjuntos urbanos, como o conjunto arquitetônico e paisagístico do bairro da Luz, na capital paulista, em 2000. Participou ainda do processo de tombamento em série dos bens representativos do conjunto da obra do arquiteto Oscar Niemeyer (1907-2012), em 2007.
A fotografia era outra paixão. “Ele era um fotógrafo de mão cheia”, comenta Bueno. “Ensinou várias gerações de pesquisadores a pensar também com os olhos.” O arquiteto costumava usar seu acervo com mais de 40 mil imagens, não apenas de fotos, mas também de desenhos e mapas, quando elaborava pesquisas e livros. Esse material iconográfico, recolhido desde a década de 1960, pôde ser apreciado pelo público na exposição Imagens de cidades e vilas do Brasil colonial, em 2000, no Museu de Arte de São Paulo (Masp). O livro, de mesmo título, foi lançado pela Edusp no ano seguinte.
Reis Filho publicou quase quatro dezenas de títulos. Entre eles, figura o clássico Quadro da arquitetura no Brasil (Perspectiva, 1970), compilação de artigos para o suplemento literário do jornal O Estado de S.Paulo que até hoje integra a bibliografia de cursos de arquitetura e urbanismo do Brasil. Também constam da lista Dois séculos de projetos no estado de São Paulo: Grandes obras e urbanização 1800-2000 (Edusp/Imprensa Oficial, 2012) e As minas de ouro e a formação das capitanias do Sul (Editora Via das Artes, 2014), que venceram o prêmio Jabuti na categoria Arquitetura.
Seu primeiro livro, Evolução urbana no Brasil (1500-1720), saiu em 1968, pela Livraria Pioneira Editora. Trata-se do desdobramento da tese de livre-docência que defendeu na FAU em 1964. Na obra, ao contrário da interpretação do historiador Sérgio Buarque de Holanda (1902-1982), mostra que a urbanização brasileira não foi fruto do acaso, mas articulada pela Coroa portuguesa e executada por engenheiros militares para defender o território de ataques externos e, simultaneamente, favorecer a exploração econômica, sobretudo do açúcar e dos minerais. “Nesse trabalho, ele contextualiza a discussão sobre o processo de urbanização, antecipando um debate que ganharia força mais tarde na Europa, a partir dos anos 1970”, afirma Bueno.
O título deve ser relançado este ano pela Edusp. No final de 2025, a casa editorial publicou o inédito Arquitetura e urbanismo nos primeiros tempos – Outras fontes, outras leituras. Nele, Reis Filho se debruçou sobre seis desenhos do século XVII, depositados na Real Academia de la Historia, de Madri, para iluminar aspectos do início da urbanização do Brasil.
O pesquisador abordou em seus livros e demais estudos uma ampla variedade de temas, sempre tendo o Brasil como eixo central. “Ele tinha uma compreensão profunda da complexidade e da diversidade urbana brasileira e empenhou-se para que elas não fossem tratadas de forma unificada ou padronizada, reconhecendo e valorizando suas especificidades”, observa o arquiteto Rodrigo Bastos, da FAU. “A estrutura urbana do interior de Minas Gerais, por exemplo, difere daquela do Norte ou do Nordeste do país, pois resulta de processos históricos distintos. Ele evitava o risco de apagar essas diferenças ao adotar uma visão universalista ou totalizante.”
O arquiteto Nivaldo Andrade, da Universidade Federal da Bahia (UFBA), concorda. “Nestor produziu estudos sobre diferentes regiões do Brasil, abrangendo diversas épocas. Em geral, especialistas no período colonial não se dedicam ao contemporâneo, mas ele estava entre aqueles que quebravam essa regra”, observa. Nas duas últimas décadas, os trabalhos de Reis Filho se voltaram sobretudo à urbanização dispersa, à cartografia urbana e ao papel das grandes obras na estruturação do espaço urbano.
O arquiteto deixa a filha, Renata, dois netos e um bisneto.
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