guia do novo coronavirus
Imprimir Republicar

Pesquisa na quarentena

“As angústias deste momento trágico desfavorecem a capacidade de concentração”

Aposentado na UFRJ, o historiador Manolo Florentino fala sobre as dificuldades de desenvolver projetos durante a pandemia; ele trabalha em livros sobre crianças escravizadas e representações de doenças no período colonial

Manolo Florentino, em 2013, em um curso sobre a história do Rio de Janeiro

Reprodução vídeo Museu de Arte do Rio

Eu me aposentei como docente do Instituto de História da UFRJ [Universidade Federal do Rio de Janeiro] em agosto do ano passado. Desde então me dedico exclusivamente à pesquisa, utilizando as coleções de dados digitalizados e uma bibliografia histórica que reuni ao longo dos últimos 30 anos, principalmente sobre o tráfico de escravizados nas Américas e na África. Sem as cargas pedagógicas que eu tinha na universidade e graças às facilidades da internet, consigo fazer minhas pesquisas de modo artesanal, que é mais próprio na área de história, em um ritmo diferente daquele quando estava na universidade. Já estava trabalhando apenas em casa quando a pandemia chegou. Ainda assim, fui bastante afetado pelas angústias intrínsecas a este momento trágico. O problema maior é a dispersão. O contexto desfavorece a capacidade de concentração e torna o trabalho difícil. Esse ambiente meio catastrófico deixa a gente muito pra baixo. Para poder me concentrar, procuro me afastar um pouco das notícias diárias sobre a pandemia, como a evolução do número de mortos, mas é impossível ficar alheio ao que está acontecendo.

Consegui concluir um livro que já estava quase pronto antes da pandemia e deve ser lançado em breve. É uma obra sobre a história das crianças escravizadas, tanto as africanas quanto as nascidas no Brasil, um tema sobre o qual trabalho desde os anos 1990 e já havia explorado em alguns artigos. Agora estou iniciando um novo projeto. Vou escrever um livro que tem a ver com doenças, mas as do passado. Há cerca de dois meses, quando já estávamos em plena pandemia, um colega de São Paulo, da Universidade Estadual Paulista, a Unesp, me fez um convite para escrever sobre as representações das doenças na cultura brasileira ao longo da época colonial. Estou tentando organizar textos, leituras e tipologias de fontes, mas o processo é lento e a dispersão me atrapalha.

Mas minha situação é mais confortável do que a de historiadores que dependem de visitar arquivos e bibliotecas e tiveram de interromper suas pesquisas. Acho que uma boa parte da pesquisa brasileira vai ficar comprometida. Atuei durante muito tempo no Programa de Pós-graduação em História Social da UFRJ e fico imaginando o quanto a pandemia deve impactar o sistema de pós-graduação do país, que tem um viés produtivista muito forte e exige que as pessoas publiquem muito e a toda hora. Será preciso arrumar outros meios de avaliar o trabalho dos pesquisadores, porque os critérios quantitativos adotados atualmente não vão funcionar.

Toda vez que preciso sair de casa sinto que estou acionando uma espécie de roleta- russa. Saio só para o essencial e volto com muito temor. Busco restringir minhas saídas a bancos e farmácias e tenho percebido, apesar da abertura promovida por alguns governos estaduais e municipais, que as pessoas estão meio ressabiadas e não estão voltando à rua.

Republicar