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Ecologia

As frágeis faces dos manguezais

Estudos recentes detalham vulnerabilidade e diversidade desses ambientes litorâneos no Brasil

Manguezal de Cananeia, litoral sul paulista

Marília Cunha Lignon

Especialistas do Rio de Janeiro, do Pará e do Amapá construíram uma metodologia de análise de vulnerabilidade dos manguezais a eventuais vazamentos de petróleo no mar e detalharam a diversidade desses ambientes litorâneos na costa norte, entre o Amapá e o Maranhão, que constitui uma das mais novas áreas de exploração de gás e petróleo do país.

Por meio de simulações, que podem ser feitas no site do projeto, o método indica as trajetórias mais prováveis do óleo ao longo do litoral da costa norte e detalha a vulnerabilidade no interior dos estuários, rios e manguezais em quatro áreas-piloto

“Toda a faixa de manguezais do Amapá ao Pará é muito sensível aos impactos de vazamentos de óleo, por causa de variações de até 10 metros [de altura] entre a maré baixa e a alta, que faz com que a água do mar penetre dezenas de quilômetros”, diz o oceanógrafo Mário Soares, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e um dos coordenadores do Projeto Costa Norte.

“Ao conhecerem as prováveis trajetórias de vazamento de óleo, os gestores das unidades de conservação da costa norte poderiam identificar as áreas com maior risco de serem atingidas, caso ocorra algum vazamento no mar, e se necessário acionar as medidas preventivas de defesa ambiental”, diz o oceanógrafo Júlio Pellegrini, diretor-geral da ProOceano, empresa coordenadora do projeto que participou do desenvolvimento do método de análise da vulnerabilidade de manguezais à contaminação por petróleo, apresentado parcialmente em um artigo publicado em maio na revista científica Journal of Coastal Research (ver mapa).

O trabalho foi financiado pela Enauta, empresa petrolífera brasileira que adquiriu os direitos de exploração de três das 38 áreas da região leiloadas pela Agência Nacional do Petróleo (ANP) em 2013, em cumprimento à lei que determina o investimento em pesquisas ou o repasse ao governo de 1% do faturamento. 

Guilherme Abuchahla Flores de mangue-branco de São Sebastião, litoral paulistaGuilherme Abuchahla

Alta diversidade
As informações que alimentam o programa de simulações do Projeto Costa Norte resultam de um ano de coletas mensais sobre a variação das correntes marinhas. “Cobrimos uma área de até 5 mil metros de profundidade, com 1.138 possíveis pontos de vazamento de petróleo”, diz Pellegrini. 

O levantamento incluiu sobrevoos, análises de imagens de satélite e o equivalente a 150 dias de caminhadas de reconhecimento em meio ao lamaçal e às árvores que caracterizam o ambiente. Na região entre o Amapá e o Maranhão, que abriga a maior faixa contínua de manguezais no mundo, emergiram variações que os próprios pesquisadores desconheciam. No Maranhão, os manguezais variam desde florestas altamente desenvolvidas até florestas com vegetação arbustiva e uma salinidade três vezes maior do que a do mar, por causa da evaporação contínua, enquanto no Amapá e no Pará, inversamente, predominam manguezais com vegetação vicejante e baixas salinidades, em razão das chuvas contínuas. 

“Para chegar a uma região de estudo no Amapá, demoramos quatro dias”, conta Soares. “No norte da Ilha de Marajó, tivemos de dormir em fazendas e esperar horas até chegar o momento exato de seguir viagem, de acordo com a variação das marés.”

Léo Ramos Chaves Raízes aéreas do manguezal de Guaratiba, litoral do Rio de JaneiroLéo Ramos Chaves

Há também variações dentro de uma mesma área. Depois de examinarem a vegetação de 1.186  quilômetros quadrados [km2] dos manguezais dos municípios de São Caetano de Odivelas e Soure, no Pará, Sucuriju, no Amapá, e Turiaçu, no Maranhão, pesquisadores da Uerj, das universidades federais do Rio de Janeiro (UFRJ) e do Pará (UFPA) e do Instituto de Pesquisas Científicas e Tecnológicas do Estado do Amapá (Iepa) propuseram uma classificação baseada na composição das três espécies de mangue: mangue-preto ou siriúba (Avicennia spp.), mangue-vermelho (Rhizophora spp.) e mangue-branco ou tinteiro (Laguncularia racemosa) e no desenvolvimento das florestas (árvores altas, médias e baixas), como detalhado em um artigo publicado também em maio na Journal of Coastal Research. Nas quatro áreas estudadas, eles identificaram 51 tipos de florestas, também chamados de fitofisionomias. 

Já em Fernando de Noronha se formou um bosque com uma única espécie, o mangue-branco (Laguncularia racemosa), com 4 metros de altura e flores pequenas brancas, encontradas também ao longo de todo o litoral brasileiro. Os pesquisadores ainda tentam entender como o mangue-branco poderia ter colonizado o arquipélago. “As correntes marinhas vão de Fernando de Noronha para o continente e os propágulos [estruturas reprodutivas análogas a sementes] dessa espécie vivem por até um mês. Em teoria, os propágulos deveriam ter vindo da África, mas o tempo que levaria para chegar ao arquipélago seria muito maior do que 30 dias”, comenta a oceanógrafa Yara Schaeffer-Novelli, professora aposentada do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (IO-USP), que nessa investigação colabora com o biólogo Clemente Coelho Junior, da Universidade de Pernambuco (UPE). 

Uma das maiores especialistas brasileiras em manguezais (ver Pesquisa FAPESP no 244), Novelli apresentou em junho de 1990 na revista científica Estuaries uma classificação dos manguezais brasileiros, dividindo-os em oito grandes áreas ao longo do litoral brasileiro, desde a foz do rio Oiapoque, no Amapá, até Laguna, em Santa Catarina, de acordo com as variações de maré, radiação solar, temperatura e umidade. “A mesma espécie de Rhizophora pode chegar a 40 metros [m] de altura em uma região de chuva abundante no Amapá e não passar de 1,5 m em Santa Catarina, onde o inverno é mais frio, expressando uma grande capacidade de adaptação a condições ambientais diferentes”, diz ela. “Em comum”, acrescenta, “as espécies típicas de manguezal, embora vivam em ambientes lavados duas vezes por dia por maré, se comportam como plantas de deserto, com mecanismos que evitam a perda de água doce”.

Léo Ramos Chaves Caranguejo uçá de Guaratiba, Rio de JaneiroLéo Ramos Chaves

Reservatórios de carbono
As árvores dos manguezais da região Norte são mais altas que as do Sul. O contraste altera bastante a capacidade de absorver carbono, que poderia agravar o efeito estufa se liberado para a atmosfera na forma de gás carbônico ou metano. Após analisar uma área de 1.500 km2 de Cananeia, no litoral sul paulista, o biólogo marinho André Rovai, em estágio de pós-doutorado na Universidade do Estado de Louisiana, nos Estados Unidos, concluiu que os manguezais de Cananeia, por causa do acúmulo intenso de matéria orgânica no solo e nas raízes, estocam em média 380 toneladas de carbono por hectare (t/ha) 1 hectare equivale a 10 mil metros quadrados , enquanto outros estudos mostram que os da região Norte armazenam 297 t/ha e os do Nordeste 217 t/ha. “A concentração de carbono no solo é maior em certas áreas, como em Cananeia, devido à produção de raízes e folhas do próprio manguezal e florestas adjacentes, enquanto em áreas banhadas por grandes rios, como na Amazônia, a concentração de carbono no solo é diluída, em virtude da elevada quantidade de sedimento mineral também trazida pelos rios”, diz ele.

Em consequência, estimou Rovai, a perda dos manguezais de Cananeia implicaria uma liberação de 1.395 t/ha/a de carbono estocado no solo e na vegetação, e a redução do sequestro de carbono no solo e na biomassa, respectivamente em 27 e 12 t/ha/a, como detalhado em um artigo publicado em setembro na Forest Ecology and Management, em colaboração com pesquisadores de São Paulo, Pernambuco e Bahia e da Universidade de Louisiana, Estados Unidos. “Os manguezais são extremamente ricos em carbono, mais que outros biomas, quando consideramos uma mesma área, mas não são a solução para a mitigação dos efeitos da emissão de CO2 porque a área que ocupam é pequena em comparação com a Amazônia, por exemplo. Mas, pela alta concentração de carbono, sua conservação evita a emissão adicional de mais CO2 para a atmosfera”, observa Soares. 

Ele ressalta que absorver carbono é apenas mais uma entre as funções ecológicas, sociais e econômicas dos manguezais. Sob o risco de perder mecanismos legais de proteção por meio de resoluções do Conselho Nacional de Meio Ambiente (Conama) aprovadas em setembro, mas canceladas por medida liminar (provisória) no final de outubro pelo Supremo Tribunal Federal (STF), esses ambientes litorâneos são importantes para proteger a linha de costa, preservando os ambientes litorâneos e evitando o assoreamento dos rios e estuários que desaguam no mar. “Os manguezais funcionam não só como reservatórios de carbono, mas também controlam as inundações”, observa Soares. “O volume de água que entra na maré alta é muito menor do que a que sai na maré baixa seguinte, porque a água penetra no solo e nas tocas dos caranguejos e é liberada aos poucos para o mar.”

O biólogo marinho Mário Barletta, com sua equipe da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), observou outra peculiaridade desse tipo de ambiente: as espécies de peixes que visitam os manguezais variam de acordo com as fases da lua, que determinam a intensidade das marés, conforme estudo de março de 2019 na revista Science of the Total Environment. “Robalos [Centropomus undecimalis], pescadas-amarelas [Cynoscion acoupa] e outras espécies predadoras aparecem frequentemente na lua nova, com maré alta, quando há bastante nutriente e visibilidade grande, enquanto as manjubas [Anchovia clupeoides] são favorecidas pela lua cheia, com maré baixa, quando é mais fácil escapar dos predadores”, conta. Ele acrescenta: “Muitas espécies de peixes e crustáceos marinhos entram nos estuários quando vão desovar. Os ovos eclodem em áreas com um grau de salinidade, e as larvas crescem em outra área, com salinidade diferente, dentro do estuário, que é marginado por uma floresta de manguezal, antes de seguirem para o mar. Portanto, eliminar essas áreas implicaria uma redução do estoque de peixes normalmente pescados pela frota pesqueira na costa do Brasil”.

Em estudos publicados em fevereiro de 2019 na Science of the Total Environment e em março deste ano na MethodsX, Barletta alertou para a contaminação por microplásticos com até 5 milímetros de comprimento e por mercúrio em peixes de estuários como o do rio Goiana, em Pernambuco e Paraíba, e a baía da Guanabara, no Rio de Janeiro. Por sua vez, na edição de janeiro da Marine Pollution Bulletin, pesquisadores da Uerj chamaram a atenção para a contaminação por derivados de petróleo nos sedimentos de manguezais do Pará, Rio Grande do Norte, Rio de Janeiro, de Alagoas, Santa Catarina e Bahia. “A costa norte ainda tem baixos níveis de poluição por hidrocarbonetos”, comenta Soares, “o que justifica a necessidade de pensarmos em um novo modelo de ocupação”.

Como produzir mudas em cocos
Yara Schaeffer-Novelli ocupou a varanda de seu escritório na Vila Madalena, na cidade de São Paulo, com quase 30 vasos de coco-verde com mudas de espécies de árvores de mangue. Ela os fez para produzir mudas para repor a vegetação nativa continuamente perdida nesse tipo de ambiente litorâneo sem usar embalagens plásticas, que poderiam aumentar a poluição das praias e do mar. 

Ela ensina como fazer os vasos: fazer furos na casca de coco-verde e preencher o interior com lama trazida de um manguezal com solo rico em matéria orgânica e fibras de coquim, para evitar que a lama endureça quando secar. Colocar os propágulos (estruturas análogas a sementes) e molhar duas vezes por semana. 

O coco com a muda pode ser enterrado diretamente no solo da área que se deseja repovoar com as plantas típicas dos manguezais. Ela plantou mudas produzidas dessa maneira em uma área de manguezal em São Sebastião, litoral norte paulista.

Artigos científicos
CARVALHO, G. V. et al. 2020. Methodology to evaluate the coastal susceptibility to oil spills originated in large marine areas. Journal of Coastal Research. v. 95, p. 1-5. 20 mai. 2020.
ALMEIDA, P. M. M. et al. Mangrove typology: A proposal for mapping based on high spatial resolution orbital remote sensing. Journal of Coastal Research. v. 95, p. 1-5. 26 mai. 2020.
SCHAEFFER-NOVELLI, Y. et al. Variability of mangrove ecosystems along the Brazilian coast. Estuaries. v. 13, n. 2, p. 204-18. jun. 1990.
ROVAI, A. S. et al. Ecosystem-level carbon stocks and sequestration rates in mangroves in the Cananeia-Iguape lagoon estuarine system, southeastern Brazil. Forest Ecology and Management. v. 479, 118553. 9 set. 2020.
FERREIRA, G. V. B. et al. Use of estuarine resources by top predator fishes. How do ecological patterns affect rates of contamination by microplastics? Science of the Total Environment. v. 655, p. 292-304. 10 mar. 2019.
BARLETTA, M. et al. Ecology of microplastics contamination within food webs of estuarine and coastal ecosystems. MethodsX. v. 7, p. 100861. 19 mar. 2020.
BARLETTA, M. et al. Distribution, sources and consequences of nutrients, persistent organic pollutants, metals and microplastics in South American estuaries. Science of the Total Environment. v. 651, p. 1199-1218. 15 fev. 2019.
ARAÚJO, M. P. et al. Assessment of Brazilian mangroves hydrocarbon contamination from a latitudinal perspective. Marine Pollution Bulletin. v. 150, 110673. jan. 2020.

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