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resenha

Ascensão e queda

História econômica da cidade do Rio de Janeiro: Da fundação ao século XXI | André Arruda Villela | FGV Editora | 340 páginas | R$ 52,00

A partir da criação, em 1929, da revista Annales. Économies, Sociétés, Civilisations, na França, a história econômica ganhou importante espaço acadêmico. Nos anos 1970, outras abordagens marcaram o surgimento da nova história, e a quantificação impactou as análises demográficas e econômicas. No Brasil, a implantação dos cursos de pós-graduação a partir de 1971 deu impulso a esses estudos, sem descurar de visões de conjunto e questões político-sociais.

A publicação, em 1978, do livro de Eulália Lahmeyer Lobo, História do Rio de Janeiro: Do capital comercial ao capital industrial e financeiro, abriu perspectivas inovadoras na análise do período, entre 1763 e 1945, apoiado em tabelas, gráficos e ampla bibliografia. Trata-se de estudo minucioso e ousado, ao tomar e retraçar a economia da cidade em dois séculos.

O recente História econômica da cidade do Rio de Janeiro: Da fundação ao século XXI, de André Arruda Villela, retoma o assunto, retrocedendo aos dois primeiros séculos da colonização e avançando no estudo após 1945. Especialista em história financeira do Império, com importantes publicações sobre o assunto, a exemplo do livro The political economy of money and banking in Imperial Brazil, 1850-1870, editado no Reino Unido pela Palgrave MacMillan, em 2020, ele é professor da Escola de Pós-graduação em Economia da Fundação Getulio Vargas, no Rio de Janeiro.

Ao longo de quatro capítulos, que cobrem mais de quatro séculos de história, a obra traz dezenas de gráficos, tabelas e figuras que dão base às análises. O livro apresenta ainda exaustivo arrolamento de fontes e bibliografia, além de dois importantes anexos sobre as alterações do território da cidade no período e sobre sua evolução populacional.

Essa ampliação oferece desafios de pesquisa para os 200 anos iniciais da história da cidade devido à escassez de dados numéricos e mesmo de relatos. Para suprir essas lacunas, o autor buscou fontes paralelas, como contratos de arrematação de dízimo e movimentos de alfândega. E, nesse ponto, destaca-se a relevância do livro, que vai além da reconstituição do período e aponta, em vários momentos, crítica de fontes, diálogo com a historiografia e opções metodológicas.

Como mostra a obra, a produção açucareira impulsionou no período colonial a economia da cidade, alimentada principalmente pelo comércio triangular entre Angola e a região platina, provedora de importante fluxo de prata. Mesmo a turbulência da reconfiguração do equilíbrio Atlântico e a concorrência antilhana tiveram curto impacto e logo o vigor da produção de açúcar foi retomado.

No século XVIII, a cidade beneficiou-se da descoberta das jazidas de ouro em Minas Gerais, Goiás e Mato Grosso. Principal porto de escoamento do mineral e de entrada de manufaturados e escravizados, o Rio de Janeiro assumiu importância na economia da América portuguesa, de igual ou de maior importância que as capitanias do Nordeste e do Norte, culminando na instalação do vice-reino, em 1763.

Para traçar a dinâmica econômica carioca no período imperial, o autor faz uso de análises recentes, em importante exercício de rigor metodológico. Nesses 80 anos, a população local passou de 100 mil habitantes para cerca de 500 mil. O porto teve importância nevrálgica, com o aumento expressivo da produção cafeeira e o crescimento das importações. Capital financeira do Brasil, a cidade concentrava, por exemplo, bancos e bolsa de valores. A efervescência urbana era completada por comércio, teatros, restaurantes e cafés.

O período republicano como capital federal reforçou, até 1930, o perfil econômico da cidade. Entre 1945 e 1960, os indicadores mostram estabilidade financeira, mas sem crescimento do setor industrial e com aumento nos serviços, dando sinais de uma economia “que estava ficando para trás”.

Em 1960, a transferência da capital para Brasília e a criação do Estado da Guanabara acelera o processo de esvaziamento do vigor econômico do Rio, acompanhando as turbulências político-institucionais do Brasil. O “milagre econômico”, a oferta de energia e a produção de bens de capital não incentivaram a economia do Rio de Janeiro. Frente à situação atual da cidade, o livro de Villela permite entender seu declínio econômico e pensar as possibilidades de sua retomada.

Vera Lucia Amaral Ferlini é professora do Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP).

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