O Brasil entrou muito cedo na história da fagoterapia, quase em paralelo às primeiras descobertas que deram origem a essa abordagem terapêutica no início do século XX. Em 1915, o bacteriologista inglês Frederick William Twort (1877-1950) descreveu um “agente filtrável” capaz de destruir bactérias, sugerindo tratar-se de um vírus. Dois anos depois, em 1917, o microbiologista franco-canadense Félix d’Hérelle (1873-1949), então no Instituto Pasteur, em Paris, chegou de forma independente à mesma conclusão, caracterizou esses agentes como vírus parasitas de bactérias e cunhou o termo “bacteriófago”. Essa dupla descoberta é considerada o marco fundacional da fagoterapia e explica a observação anterior do bacteriologista britânico Ernest Hankin (1865-
-1939), que em 1896 descreveu na revista Annales de L’Institut Pasteur a observação de que havia menos bactérias nos rios Yamuna e Ganges, na Índia, do que em cursos-d’água equivalentes na Europa. Em seus experimentos, a água dos rios indianos teve ação bactericida contra o bacilo causador da cólera, o que mais tarde foi visto por alguns como possível primeira observação de bacteriófagos.
Pouco tempo depois, a teoria começou a ganhar corpo na prática clínica. Em 1919, d’Hérelle utilizou bacteriófagos para tratar casos de disenteria e, ao longo da década de 1920, relatou aplicações bem-sucedidas também contra a cólera, inclusive em campanhas profiláticas na Índia. Essas experiências ajudaram a consolidar a ideia, então inovadora, de que vírus poderiam ser usados deliberadamente como agentes terapêuticos contra bactérias patogênicas.
No Brasil, o nome central desse período foi o médico paraense José da Costa Cruz (1894-1940), do Instituto Oswaldo Cruz (IOC), no Rio de Janeiro. Ele isolou fagos, investigou seu comportamento e os testou em pacientes durante surtos de disenteria. As primeiras aplicações ocorreram em 1921, em Barbacena (MG), quando Costa Cruz tratou casos graves de diarreia infecciosa com preparações produzidas no próprio instituto. Dois anos depois, diante de novos episódios da doença no Rio de Janeiro, ele apresentou resultados positivos: segundo seus registros, muitos pacientes relataram melhora em poucas horas e cura em um a dois dias.
O avanço levou o instituto a produzir e distribuir nacionalmente a Bacteriofagina disenterica, considerado o primeiro produto terapêutico brasileiro à base de fagos e uma das primeiras preparações desse tipo feitas em larga escala no mundo. O trabalho combinava investigação básica, desenvolvimento tecnológico e aplicação clínica. Costa Cruz testava especificidade, estabilidade, adaptação, resistência e aspectos imunológicos dos bacteriófagos, além de comparar resultados entre diferentes regiões do país.

Domínio Público | Acervo da Casa de Oswaldo Cruz / FiocruzJosé da Costa Cruz (à esq.) esteve entre os cientistas que receberam Albert Einstein na Fiocruz em 1925: na foto (à dir.) ele aparece atrás do ombro esquerdo do ilustre físico alemãoDomínio Público | Acervo da Casa de Oswaldo Cruz / Fiocruz
Apesar do pioneirismo, a fagoterapia acabou sendo descontinuada no Brasil. De acordo com o historiador Jorge Tibilletti de Lara, pesquisador em estágio pós-doutoral na Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), no Rio de Janeiro, a partir dos anos 1940 o IOC reorganizou suas prioridades e o foco dos estudos passou a ser os vírus responsáveis por epidemias humanas, como varíola, gripe, sarampo, febre amarela, e a produção de vacinas. A chegada dos antibióticos, vistos como solução mais simples e escalável, completou a mudança de rota.
As pesquisas de Costa Cruz deixaram de integrar a agenda institucional e se perderam no tempo. Essa história foi recentemente reconstituída em razão da curiosidade do biólogo brasileiro Gabriel Almeida, da Universidade do Ártico da Noruega. Apaixonado por história da ciência, ele conta que ouviu, em um congresso, um pesquisador francês mencionar o Brasil como um dos países que haviam testado fagos no início do século passado. Intrigado, rastreou a referência e, já na Finlândia, decidiu investigar o assunto no pouco tempo livre que tinha no laboratório.
Encontrou o obituário de Costa Cruz, localizou as publicações originais do pesquisador e reuniu documentos dispersos em acervos da Fiocruz, da USP, do Instituto Butantan e da Biblioteca Nacional da França, com apoio de bibliotecários que enviavam fotos e cópias de materiais raros. O resultado desse trabalho foi publicado em 2020 na revista científica The Lancet Infectious Diseases.
Mais de um século depois, a fagoterapia volta ao debate global, mas o cenário brasileiro é outro. Um levantamento realizado pela infectologista francesa Iris Najjar sobre a pesquisa com bacteriófagos na América do Sul, publicado em 2025 na revista CMI Communications, aponta que o Brasil lidera o volume de publicações na região, mas com uma produção concentrada em áreas como agricultura, alimentos e microbiologia ambiental.
Apenas um quinto dos estudos tem foco em aplicações médicas e nenhum caso clínico de uso terapêutico em humanos foi registrado desde a retomada da terapia com fagos. O trabalho também mostra que, embora a infraestrutura científica brasileira seja superior à de outros países latino-americanos, há lacunas importantes, como ausência de ensaios clínicos e pouca pesquisa voltada para patógenos envolvidos em resistência aos antimicrobianos.
A reportagem acima foi publicada com o título “Brasil foi um dos pioneiros na pesquisa” na edição impressa nº 360, de fevereiro de 2026.
Artigos científicos
ALMEIDA, G. M. de F. e SUNDBERG, L.-R. The forgotten tale of Brazilian phage therapy. The Lancet Infectious Disease. v. 20, n. 5, p. e90-e101. maio 2020.
HANKIN, M. E. L’action bactéricide des eaux de la Jumna e du Gange sur le microbe du choléra. Annales de l’Institut Pasteur. v. 10, p. 511-23. 1896.
