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Memória

Contas‌ ‌de‌ ‌um‌ ‌poeta‌ ‌

O recifense Joaquim Cardozo foi o responsável pelos cálculos que tornaram possíveis as obras inovadoras de Brasília projetadas por Oscar Niemeyer

Catedral de Brasília, uma das obras inovadoras de Cardozo e Niemeyer, em 1959

Marcel Gautherot / Instituto Moreira Salles

Professor de literatura na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), Éverton Barbosa Correia resolveu estudar a obra literária do recifense Joaquim Moreira Cardozo (1897-1978) de tanto que o poeta João Cabral de Melo Neto (1920-1999), também de Recife, exaltava-o. Cardozo tem, a rigor, duas obras, uma como poeta e outra como engenheiro. Ele foi o responsável pelos cálculos estruturais que colocaram em pé os prédios projetados pelo arquiteto Oscar Niemeyer (1907-2012), como a Catedral e o Congresso Nacional, ambos em Brasília, que completou 60 anos em abril de 2020.

Formado em engenharia civil em 1930 pela Escola de Engenharia de Pernambuco, hoje integrada à Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Cardozo mostrou habilidade para fazer cálculos estruturais de obras vanguardistas quando trabalhou na Diretoria de Arquitetura e Construção (DAC), que cuidava de obras públicas no estado. Incentivado pelo chefe, o arquiteto Luiz Nunes (1909-1937), ele projetou a Escola Rural Alberto Torres, de 1936, com arcos e vigas horizontais que sustentavam as rampas de acesso e já expressavam a arquitetura moderna.

Correio da Manhã / Arquivo Nacional O Congresso Nacional foi um dos trabalhos principais de CardozoCorreio da Manhã / Arquivo Nacional

“Cardozo, por ser poeta, crítico de arte e engenheiro, aderiu aos ideais da arquitetura moderna”, avalia o arquiteto Leonardo Inojosa, professor da Universidade de Brasília (UnB). Em sua tese de doutorado, concluída em 2019, ele argumentou que suas soluções estruturais inovadoras marcaram a arquitetura moderna brasileira das décadas de 1930 a 1980.

Em 1940, depois de proferir um discurso para uma turma de formandos da Escola de Engenharia com comentários que não agradaram ao governo do estado, Cardozo foi demitido da DAC e se mudou para o Rio de Janeiro. No Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Sphan), conheceu Niemeyer, para quem fez o projeto estrutural do Conjunto da Pampulha, em Belo Horizonte, inaugurado em 1943. Esse trabalho marcou o início de uma parceria que durou 30 anos. 

Acervo Técnico da Câmara dos Deputados Projeto do Congresso NacionalAcervo Técnico da Câmara dos Deputados

Uma das obras em que trabalharam na Pampulha foi a Igreja de São Francisco de Assis. “O projeto era inovador dos pontos de vista arquitetônico, pelas formas livres e ousadas da pequena igreja, e estrutural, pela construção em concreto armado, técnica ainda pouco explorada no Brasil”, observa o arquiteto Alexandre Martins, do Centro Universitário Faculdades Integradas Alcântara Machado. A experiência adquirida em Minas alicerçou o trabalho conjunto em Brasília, que incluiu os palácios do Supremo Tribunal Federal, da Alvorada e do Itamaraty.

Amigos poetas
“Sua poesia tinha o mesmo rigor técnico que suas obras de engenharia, com uma notável preocupação com a sonoridade e a combinação das palavras”, diz Correia. “Poucos poetas brasileiros modernos foram tão bons no domínio da técnica da construção de poemas quanto Cardozo.”

De 1910 a 1913, como estudante do Ginásio Pernambucano, Cardozo ajudou a fundar o jornal O Arrabalde, no qual publicou seu primeiro conto, Astronomia alegre. Foi cartunista no Diário de Pernambuco e, nos anos 1920, dirigiu a Revista do Norte, na qual publicou seus primeiros poemas. No Rio, conviveu com Manuel Bandeira (1886-1968) e Carlos Drummond de Andrade (1902-1987). “Ele não se preocupava em organizar seus poemas em livros. Só publicou por pressão dos amigos escritores”, comenta Correia. Cardozo lançou seu primeiro livro, Poemas, em 1947, aos 50 anos. O segundo, Signo estrelado, saiu em 1960, com um retrato dele a nanquim feito por Emiliano Di Cavalcanti (1897-1976).

BUCAR, L. SENATUS. 2010 Vista aérea do Congresso NacionalBUCAR, L. SENATUS. 2010

Sua produção literária ganhou força depois de sua aposentadoria, marcada por uma tragédia. Em 4 de fevereiro de 1971, as obras do Pavilhão de Exposições da Gameleira, em Belo Horizonte, desabaram e mataram cerca de 70 operários. Acusado judicialmente, ele provou que não houve erro de cálculo e que a causa do acidente tinha sido um descuido na remoção do escoramento das estruturas. 

Cardozo publicou sete obras de poesia e seis de teatro. “O período entre 1970 e 1975 foi seu ciclo mais produtivo, com peças que tratam de temas eruditos e populares, como o bumba-meu-boi”, diz Correia, um dos organizadores de uma edição especial da revista Gláuks de fevereiro de 2020 sobre a obra literária de Cardozo.

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