Estudantes chineses já conseguem obter o grau de doutor sem escrever uma tese – em vez disso, eles podem apresentar um protótipo, produto ou uma solução tecnológica concreta desenvolvidos durante sua formação de pós-graduação. Uma lei aprovada em 2024 permitiu que universidades do país concedam títulos de mestre e doutor com base em realizações práticas dos alunos. Os alunos trabalham com dupla orientação: a de um professor e a de um especialista da indústria. Por enquanto, a novidade se aplica apenas à pós-graduação em engenharia e a setores como semicondutores, inteligência artificial e manufatura avançada.
Em janeiro, uma turma pioneira de 11 estudantes chineses obteve o doutorado apresentando invenções e novas tecnologias. Um dos alunos, de acordo com reportagem da revista Nature, foi Zheng Hehui, que fez doutorado em engenharia civil na Universidade do Sudeste, em Nanjing. Ele criou um conjunto de blocos semelhantes a Lego, feitos de aço reforçado, que se encaixam para formar um pilar de ponte. A tecnologia está sendo usada em uma grande ponte construída sobre o rio Yangtzé.
O experimento chinês também é uma resposta à crise de credibilidade do sistema científico do país. A China assumiu a liderança da produção científica mundial, à frente dos Estados Unidos, mas também aparece no topo de indicadores associados à má conduta acadêmica. Segundo o banco de dados do site Retraction Watch, dos 4,5 mil artigos científicos que sofreram retratação, ou seja, que foram considerados inválidos por erros ou violações éticas, no ano de 2025, cerca de 40% tinham coautores chineses.
O problema é atribuído a políticas, agora revogadas, que estimulavam estudantes e pesquisadores do país a publicar artigos a qualquer custo para conseguir emprego e ascender na carreira. Isso fomentou a ação das fábricas de papers, organizações fraudulentas que produzem e vendem artigos científicos falsos ou de baixa qualidade, sob encomenda. Os doutorados práticos, embora ainda tenham um alcance limitado, sinalizam a busca de novas formas de medir a relevância do conhecimento produzido pelos chineses.
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