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Genética

Dados contestados

Cientistas apontam falhas em estudo sobre contaminação por transgênico

EDUARDO CESAR Resultados precários: faltaram testes em campoEDUARDO CESAR

Em uma carta encaminhada a Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), 11 pesquisadores de renome internacional questionam a qualidade e a validade dos resultados de um estudo sobre possíveis efeitos danosos ao ambiente de uma variedade de milho transgênico. Publicado em 9 de outubro de 2007 na PNAS, respeitada revista científica editada pela Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos, o estudo da equipe da ecóloga Emma Rosi-Marshall, da Universidade Loyola de Chicago, sugeria que resíduos do chamado milho Bt – geneticamente modificado para produzir uma proteína da bactéria Bacillus thuringiensis tóxica para lagartas que se alimentam dessas plantas – não se acumulavam apenas nas plantações, como se imaginava até então. Também poderiam alcançar os riachos próximos e se espalhar pelo ambiente (ver Pesquisa FAPESP nº 143).

Liderados pelo bioquímico Alan McHughen, da Universidade da Califórnia em Riverside, os autores da contestação identificaram várias falhas metodológicas e omissões na pesquisa conduzida por Emma Rosi-Marshall que comprometeriam os resultados do trabalho. O principal questionamento é que a equipe de Emma extrapolou para riachos e para o ambiente próximo aos milharais um suposto efeito tóxico do milho Bt observado em testes feitos em laboratório.

Em parceria com biogeoquímicos e zoólogos, Emma coletou folhas, caules, espigas e pólen de milho Bt carregados pelo vento para 12 riachos de uma área agrícola do estado de Indiana entre a colheita de 2005 e o plantio de 2006. Calculou o acúmulo de restos de milho na água e na lama dos córregos e mediu a distância por que eram transportados pela correnteza. Com base nesses dados, o grupo estimou a quantidade de resíduos transgênicos que alcançavam os córregos ao longo do ano e, em laboratório, ofereceu níveis semelhantes para lagartas da mariposa Helicopsyche borealis, comum nos riachos de Indiana. Resultado: as lagartas alimentadas com milho Bt cresceram menos do que as que consumiram milho normal. Nos níveis encontrados próximo às plantações, o milho transgênico não aumentou a mortalidade das lagartas. Mas quando os pesquisadores aumentaram em duas ou três vezes a dose de pólen transgênico na dieta, a mortalidade praticamente dobrou, eliminando 43% das lagartas.

Outro ponto de contestação: Emma e sua equipe não teriam levado em consideração trabalhos anteriores mostrando que os teores de toxina produzidos pelo milho Bt são extremamente baixos – tanto nos pés de milho como na água, onde se degradam rapidamente – a ponto de não afetarem a saúde de lagartas da borboleta-monarca que se alimentam de plantas que crescem em meio aos milharais. Os pesquisadores também não apresentaram dados de testes toxicológicos em que fossem usadas doses conhecidas da toxina Bt, nem informaram as variedades de milho usadas na pesquisa – diferentes variedades podem produzir níveis de toxina distintos.

Na carta em que contestam o estudo, McHughen e os outros signatários afirmam ainda que no artigo da PNAS não se levantaram outras possíveis explicações para efeitos que possam vir a ser observados nos riachos, como o uso de inseticidas à base de toxina Bt nas plantações. Também não foram feitos testes comparando os efeitos do milho transgênico e de outros inseticidas normalmente empregados em plantações sobre as lagartas da mariposa Helicopsyche borealis. “Quantos cientistas ocupados e quanto dos escassos recursos serão necessários para desfazer esse novo pânico?”, pergunta o grupo liderado por McHughen.

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