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Coronavírus

Desafios do isolamento

Necessária para desacelerar a propagação do vírus Sars-CoV-2, quarentena requer cuidados com a saúde mental da população

Cidade de São Paulo depois do fechamento de escolas e estabelecimentos considerados não essenciais. Decreto começou a vigorar em 24 de março

Léo Ramos Chaves

Quando está em campo, o glaciologista Jefferson Cardia Simões, coordenador-geral do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia da Criosfera (INCT Criosfera), instituição responsável por 60% da pesquisa brasileira na Antártida, conduz estudos a 2,5 mil quilômetros (km) da Estação Antártica Brasileira Comandante Ferraz. Levados por um avião de pequeno porte, ele e sua equipe de cerca de 10 pessoas alojam-se por até 45 dias em um acampamento montado sobre a neve. Dispostas em uma área de 100 metros por 100 metros, as barracas funcionam como dormitórios individuais, algumas como banheiro e outra abriga uma cozinha coletiva. A comunicação com o mundo se dá por telefones conectados via satélite, que independem de antenas para funcionar. Os pesquisadores vão à Antártida no verão, época em que há sol 24 horas. Além de temperaturas extremamente baixas, a equipe precisa lidar com condições meteorológicas adversas, que mudam diariamente. Nas ocasiões em que é necessário interromper os trabalhos, que variam conforme cada expedição, todos precisam ficar confinados nas barracas individuais, resguardados do vento.

“Em situações-limite, quando ocorrem fortes tempestades ou nevascas, a visibilidade é reduzida e a sensação térmica permanece inferior a 40 graus negativos, trazendo o perigo de congelamento instantâneo para quem fica fora da barraca”, diz Simões. O pesquisador, que já chegou a ficar 10 dias confinado em uma dessas barracas, conta que nessas situações a equipe procura se manter ocupada, lendo livros ou assistindo a vídeos, além de realizar pequenas caminhadas na área circunscrita ao acampamento, quando a temperatura permite. Nesses momentos, costuma sempre ter em mente que, cedo ou tarde, as condições climáticas vão melhorar e será possível retomar o trabalho de pesquisa, algo que ajuda a reduzir a ansiedade. “Há um princípio básico que norteia nosso trabalho na Antártida que deve servir para encarar a situação atual de pandemia: a natureza impõe seus limites e temos de respeitá-los”, compara, ao refletir sobre a necessidade de confinar e isolar a população, para conter a propagação do vírus Sars-CoV-2, causador da doença Covid-19.

Atitudes que contribuem para a manutenção da sanidade mental

  • Cultivar a empatia
  • Reduzir o contato com notícias que podem causar ansiedade ou estresse
  • Limitar a busca por informações atualizadas sobre a pandemia uma ou duas vezes ao dia
  • Incorporar medidas de proteção contra a doença
  • Manter-se conectado com amigos e familiares por meio de recursos tecnológicos
  • Adotar rotina de múltiplas atividades, com horários para acordar, trabalhar e descansar
  • Realizar atividades que façam se sentir produtivo
  • Fazer exercícios físicos, mesmo que dentro de casa
  • No caso de crianças, ajudá-las a expressar sentimentos e preocupações

Nas últimas semanas, o isolamento social se tornou o centro das estratégias globais de combate ao vírus. O objetivo é “achatar a curva” de disseminação da doença, para evitar que o número de novos casos se concentre em um curto espaço de tempo e leve ao colapso do sistema de saúde. As iniciativas de isolamento, recomendadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS), têm sido adotadas de forma distinta. Há países que ameaçam prender ou multar pessoas que saem às ruas para realizar atividades que não envolvem a compra de alimentos ou remédios, enquanto outros determinam o fechamento de estabelecimentos e recomendam que os cidadãos permaneçam em casa, sem impor penalidades. As iniciativas podem incluir o confinamento em massa da população ou estipular que apenas os grupos de risco serão isolados em casa. Hoje, a OMS estima que 1/3 da população mundial está sob isolamento social, o que representa 2,8 bilhões de pessoas.

No Brasil, o governo federal tem se posicionado contra o confinamento em massa. Já os estados de São Paulo e do Rio de Janeiro determinaram o fechamento de escolas e estabelecimentos considerados não essenciais, recomendando, desde 24 de março, que todos fiquem em casa. O estudo “Tracking the coronavirus – results from a multi-country poll”, feito pela empresa de pesquisa de mercado independente Ipsos, ouviu cerca de 14 mil pessoas entre 19 e 21 de março, no Brasil e em outros 13 países, e constatou que 44% dos brasileiros consideram o isolamento social medida eficaz para combater a disseminação do vírus. Em países como Itália, Espanha e França e em toda a América do Sul, com exceção do Uruguai, só excepcionalmente os cidadãos podem sair de casa. Quem desobedece as regras de deslocamento está sujeito a multas. A polícia patrulha as ruas para garantir a fiscalização.

Na Argentina, quando eram 30 os casos confirmados da doença, o governo suspendeu a entrada de voos procedentes da Europa, China, Coreia do Sul, dos Estados Unidos e do Irã, decretando em seguida o isolamento total da população de cerca de 40 milhões de habitantes. Quem desobedece pode ser multado. O Reino Unido, que inicialmente se posicionava contra as medidas de confinamento social massivo, também colocou sua população em isolamento pelo menos até o final de abril. Epicentro inicial da epidemia, dois meses depois da imposição de isolamento e confinamento da população de cerca de 11 milhões de pessoas, a cidade de Wuhan, na China, começou a aliviar as restrições do isolamento social, previsto para ser suspenso no dia 8 de abril.

À medida que os espaços públicos se tornam vazios, em todo o mundo cresce a preocupação com a saúde mental dos indivíduos enclausurados, levando especialistas a avaliar os possíveis impactos do isolamento e confinamento da população. Em 26 de fevereiro, a revista The Lancet publicou revisão de artigos relacionados ao tema. Nela, analisou estudos que procuram mensurar as possíveis consequências do isolamento social atual, considerando tratar-se de situação provisória que tende a se normalizar. Se uma das conclusões chama a atenção para a possibilidade de o impacto psicológico ser mais amplo e duradouro do que inicialmente se esperava, a revisão também enfatiza que os efeitos psicológicos da não adoção de medidas de isolamento social, com a potencial disseminação indiscriminada da doença, podem ser ainda piores.

Pesquisadores envolvidos no esforço de revisão dos estudos argumentam que é necessário criar iniciativas para que a experiência de confinamento seja a mais tolerável possível. Isso envolve esforço de comunicação por parte dos governantes, com explicações claras à população sobre o que está ocorrendo, informações acerca da duração do isolamento e garantia do fornecimento de água, luz, comida e medicamentos. Campanhas para incentivar a solidariedade social também são recomendadas. Essas ações são consideradas essenciais para evitar consequências de longo prazo que fatalmente acabariam por onerar o sistema de saúde com novas demandas de tratamento ou o agravamento de doenças de saúde mental.

Léo Ramos Chaves Criança brinca na janela de apartamento na capital paulista: Unesco estima que mais de 850 milhões de estudantes estão sem aulas, em todo o mundoLéo Ramos Chaves

Estudos indicam que o isolamento social crônico traz consequências negativas até mesmo para pessoas saudáveis, conforme mostra o livro Social isolation and loneliness in older adults: Opportunities for the health care system, recém-publicado pela National Academies of Sciences, Engineering, and Medicine, as Academias Nacionais de Ciências dos Estados Unidos. Um dos problemas é o aumento de 29% no risco de desenvolver doença coronária. O levantamento evidencia que entre pessoas acima de 60 anos o isolamento social de longo prazo eleva em 50% o risco de desenvolver demência, enquanto a solidão entre pacientes com problemas cardiovasculares expande em até quatro vezes o risco de morte. Artigo de Oliver Hammig, pesquisador do Instituto de Epidemiologia, Bioestatística e Prevenção da Universidade de Zurique, publicado em agosto de 2019 na revista PLOS ONE, identificou que pessoas socialmente isoladas, independentemente da idade, apresentam comportamentos pouco saudáveis em relação à alimentação e atividade física.

Apesar de atingir a todos, pesquisadores enfatizam que há grupos mais vulneráveis ao isolamento social. No caso da atual pandemia, esses grupos incluem os idosos, mais suscetíveis à doença; profissionais da área da saúde; pessoas com transtornos mentais; além de crianças e adolescentes. Nas últimas semanas, 157 países suspenderam as atividades escolares e, segundo a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), há mais de 850 milhões de estudantes sem aulas, no momento. Muitas deles dependem da escola para alimentar-se adequadamente. Além disso, o confinamento em espaços pequenos pode resultar em aumento da violência doméstica, algo que atinge não apenas as crianças, mas, sobretudo, as mulheres, conforme alerta a entidade da Organização das Nações Unidas (ONU) para a igualdade de gênero e o empoderamento das mulheres, ONU Mulheres.

Em depoimento à Science de março, Nicholas Christakis, cientista social e médico da Universidade Yale, nos Estados Unidos, destacou, por outro lado, que um isolamento social de curto prazo, como se espera que ocorra na situação atual, ainda não foi estudado de maneira sistemática. Porém é certo que o isolamento social, fundamental para conter o avanço da pandemia, tem obrigado os indivíduos a lidar com a necessidade de contenção de impulsos primordiais envolvendo a busca por conexão, o que pode afetar a saúde de diferentes maneiras. Com sede na cidade norte-americana de Atlanta, pesquisadores dos Centros de Prevenção e Controle de Doenças (CDC) destacam que os sentimentos de medo e ansiedade em relação ao vírus Sars-CoV-2 podem causar dificuldade de concentração e distúrbios de sono, além de motivar o aumento do uso de substâncias como álcool e tabaco.

Léo Ramos Chaves Isolamento social tende a causar efeitos negativos principalmente em populações mais vulneráveis, como os idososLéo Ramos Chaves

Estratégias de luta
Ao considerar o isolamento social, medida essencial para combater o avanço do vírus, a OMS e pesquisadores da área da saúde mental indicam a necessidade de os indivíduos desenvolverem estratégias para lidar com o estresse ocasionado pela situação. Estudo do Grupo Internacional de Trabalho de Ciência Comportamental – Covid-19, desenvolvido por pesquisadores de ciências do comportamento e coordenado pelo cientista político Gary King, da Universidade Harvard, dos Estados Unidos, destacou a importância de os governos criarem ações para evitar o aumento de conflitos, ansiedade, estresse e tédio entre os indivíduos enclausurados. Entre as iniciativas propostas estão campanhas para conscientizar a população sobre a importância de realizar atividades físicas, utilizar a tecnologia para interações sociais e estabelecer rotinas diárias.

A OMS recomenda que os indivíduos não busquem notícias sobre a epidemia todo o tempo, reduzindo o contato com informações que podem aprofundar sentimentos negativos e ajudem crianças a manifestar medos e ansiedades, por meio de jogos, desenhos ou conversas. “Permanecer diariamente de pijama, executando a mesma atividade, como assistir à televisão ou usar o celular, não são atitudes aconselháveis. É preciso realizar coisas que façam a pessoa se sentir produtiva”, afirma Deborah Suchecki, professora do Departamento de Psicobiologia da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e secretária-geral da Sociedade Brasileira de Neurociências e Comportamento.

Suchecki observa que se sentir sozinho é diferente de estar socialmente isolado. Enquanto a solidão é um sentimento negativo, em que o indivíduo experimenta discrepância entre o que deseja e sua situação de contato social, estar socialmente isolado não é necessariamente sinônimo de solidão. Nesse sentido, lembra que vários estudos destinados a analisar os efeitos do isolamento social envolvem pessoas que moram sozinhas e não estão satisfeitas com essa condição, deixando de lado aquelas que se sentem confortáveis em levar uma vida mais solitária. “Há uma variabilidade individual enorme entre os seres humanos e muitos gostam de estar sozinhos e conseguem transformar momentos adversos em oportunidades. A diferença, agora, é que o isolamento e confinamento foram medidas impostas para evitar uma fatalidade”, analisa.

Ana Carolina Fernandes Policiais fiscalizam praia do Leblon na cidade do Rio de Janeiro, em 29 de marçoAna Carolina Fernandes

A pesquisadora cita experimento desenvolvido com ratos em seu laboratório na Unifesp, quando 20 animais eram colocados em gaiolas individuais, isolados e confinados, em diferentes momentos do dia e por tempos variados. Após três semanas, constatou-se que 11 deles mantiveram o comportamento social anterior ao experimento, enquanto outros nove manifestaram atitudes agressivas e de dominação, mordendo ou empurrando os outros ratos. A equipe identificou que os animais apresentaram redução na produção de serotonina, neurotransmissor relacionado com o bem-estar e a saúde mental, fenômeno que também pode ocorrer entre pessoas confinadas.

O navegador e escritor Amyr Klink já viveu experiências longas de confinamento em barcos. A mais longa durou dois anos. Durante uma expedição realizada à Antártida, entre 1989 e 1991, Klink permaneceu oito meses sem avistar um ser humano. Sua estratégia de sobrevivência foi criar uma rotina e estabelecer propósitos diários. “A situação de agora, no entanto, é diferente, porque vivemos um confinamento estático, em um cenário de incerteza, que não sabemos quanto tempo vai durar. Na viagem à Antártida, eu sabia que por conta do inverno o tempo de isolamento seria de oito meses”, comenta. Além disso, Klink podia se deslocar: mesmo quando o barco estava preso no mar congelado, o velejador conseguia realizar caminhadas.

Jefferson Simões O acampamento da equipe coordenada pelo glaciologista Jefferson Cardia Simões fica a 2,5 mil quilômetros da Estação Antártica Brasileira Comandante FerrazJefferson Simões

“Vivenciar uma situação de incerteza sobre a duração da quarentena, diante de uma doença potencialmente fatal, tem feito com que as pessoas fiquem angustiadas e depressivas”, observa o médico psiquiatra Mario Rodrigues Louzã, coordenador do Programa de Esquizofrenia e do Ambulatório de Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) em adultos do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (IPq-USP). Ele lembra que é importante diferenciar as pessoas que escolhem o isolamento social voluntariamente, como é o caso dos pesquisadores na Antártida, daquelas que estão isoladas involuntariamente. “O isolamento involuntário tem pego as pessoas de surpresa, desorganizando seu cotidiano. Além do medo da doença, há uma preocupação com a perda de remuneração, o que gera um segundo fator que agrava a angústia do isolamento”, destaca.

Na mesma direção que Suchecki, ele enfatiza que ao analisar a saúde mental de pessoas em quarentena é necessário considerar dois aspectos: os efeitos do isolamento objetivo e do sentimento de solidão diante dele. “Assim como outros mamíferos, o ser humano depende de contato social para desenvolver-se e sentir-se bem”, relata. “Não é à toa que nos tocamos quando nos cumprimentamos. É uma função de estimulação e troca que faz parte da interação social. As pessoas em situação de isolamento têm uma sensação de privação sensorial e emocional”, analisa. De acordo com Louzã, essa privação, quando crônica, ocasiona o aumento da produção de hormônios ligados ao estresse. Outro aspecto que, conforme o psiquiatra, causa sofrimento psicológico é o sentimento de desamparo diante das consequências econômicas. “Precisamos nos preparar para enfrentar o momento”, aconselha, indicando que é preciso ter em mente que, aos poucos, a pandemia estará sob controle e que o confinamento não será eterno. “Isso é fundamental para dissipar sentimentos negativos recorrentes. Não estamos sendo colocados em uma prisão perpétua”, enfatiza, em percepção similar à do glaciologista Jefferson Cardia Simões. “O período é difícil, mas é importante lembrar que o isolamento social é necessário e que há luz no fim do túnel”, conclui.

Artigos científicos
BARARI, S. et al. Evaluating Covid-19 public health messaging in Italy: Self-reported compliance and growing mental health concerns. https://gking.harvard.edu/covid-italy. mar. 2020.
BROOKS, S. et al. The psychological impact of quarantine and how to reduce it: Rapid review of the evidence. The Lancet. v. 395, n. 10227, p. 912-20, fev. 2020.
HAMMIG, O. Health risks associated with social isolation in general and in young, middle and old age. PLOS ONE. v. 14, n. 8, ago. 2019.

Livro
Social isolation and loneliness in older adults: Opportunities for the health care system. Washington: National Academies of Sciences, Engineering, and Medicine, 2020, 266 p.

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