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Resenha

A efeméride continua a render frutos

Travessias – D. João VI e o mundo lusófono | Paulo Motta Oliveira (org.) | Ateliê Editorial, 336 páginas, R$ 53,00

Resenhas_TravessiasEduardo CesarComemorados em 2008 com um grande número de eventos, publicações e veiculações midiáticas, os 200 anos da chegada da família real portuguesa ao Brasil foram o pretexto para a reunião de especialistas brasileiros e portugueses de diversas universidades em um colóquio cujas comunicações se encontram agora reunidas em Travessias – D. João VI e o mundo lusófono, organizado por Paulo Motta Oliveira, professor do Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da Universidade de São Paulo. Divididas em cinco partes (sendo a última delas em homenagem a Maria Aparecida Santilli, com textos de Rosângela Sarteschi e Benjamin Abdala Júnior), as 23 contribuições que compõem este volume são firmadas por acadêmicos de alto nível, a maioria da área de estudos literários, que na interface entre literatura e história buscam um diálogo com temas e problemas que envolvem Brasil e Portugal no século XIX e, de alguma forma, dizem respeito à referida efeméride. São eles: Jorge Fernandes da Silveira, Rosa Maria Sequeira, Patrícia da Silva Cardoso, Teresa Martins Marques, Renata Soares Junqueira, Jorge Valentim, José Cândido Martins, Ernesto Rodrigues, Amílcar Torrão Filho, Anamaria Filizola, Ida Ferreira Alves, Luís Bueno, Hélder Garmes, António de Andrade Moniz, Eduardo Vieira Martins, Mirhiane Mendes de Abreu, Simone Caputo Gomes, José Maurício Alvarez, Maria Lúcia Dias e Sérgio Nazar David, além dos supramencionados Oliveira, Sarteschi e Abdala.

Para além de suas próprias qualidades, tais autores apresentam focos específicos, uns mais, outros menos originais, embora todos bastante relevantes: as imagens e representações construídas na historiografia e no romance em torno de dom João, sua corte e os acontecimentos de sua época, muitas delas ainda bastante atuais; a imprensa periódica, a literatura de viagem e científica, as cidades oitocentistas e os tratamentos que receberam de e/ou dispensaram a sujeitos históricos coevos; finalmente, diálogos literários entre Portugal, Brasil, África e Índia, de amplitudes geográficas e temporais a atestarem sua importância.

Não há dúvida do quanto a história de Brasil e Portugal daquele conturbado e fundacional contexto de guerras contra a França e de modificações profundas na composição do império luso ainda é merecedora de investimentos qualificados como estes, sobretudo quando os mesmos resultam de enfoques interdisciplinares, e que desgraçadamente são pouco usuais na academia brasileira e estrangeira. No entanto, em outros aspectos, este é um livro menos pujante. Em primeiro lugar, porque o seu conjunto é excessivamente fragmentado, sendo sua unidade temática, em muitos cantos, apenas sugerida. Assim, há textos que não se relacionam com o dom João VI ao qual o título se esforça por conferir o caráter de elemento aglutinador, ou que o mencionam de modo muito residual e artificial; também há poucos esforços de fazer com que os textos dialoguem entre si. Em segundo lugar, tais textos são curtos, em geral introdutórios e indicativos, muitas vezes pouco mais do que papers acrescidos de algumas referências bibliográficas. Finalmente, pode-se lamentar certa falta de zelo editorial da obra, que não fornece maiores informações sobre seus colaboradores ou mesmo sobre o evento que a originou (mencionado apenas de passagem na Apresentação de Raquel Madanelo Souza).

De todas essas formas, positivas e negativas, o livro surge como paradigmático de mobilizações intelectuais e acadêmicas em torno de efemérides como a que dos dois lados do Atlântico evocou o ano de 1808. Por vezes, tais mobilizações convidam não especialistas em determinado tema a visitarem-no e com ele efetivamente contribuírem, inovando campos do saber bem estabelecidos; em outras, dão maior visibilidade a pesquisas já em curso ou atualizam aquelas realizadas anteriormente; finalmente, pode-se despender esforços efêmeros e pouco produtivos a comprometerem a unidade e convergência de diálogos intelectuais imprescindíveis. Para todos os efeitos, porém, Travessias é um convite, um roteiro e uma fonte importante para uma agenda de estudos que não apenas está longe de esgotar-se, como ainda parece capaz de aproveitar-se da sazonalidade das efemérides. Que os 200 anos da Independência do Brasil, que se aproximam, o digam.

João Paulo Pimenta é professor livre-docente do Departamento de História da FFLCH-USP.

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