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Divulgação de ciência

Exposição no Instituto Butantan revela as muitas caatingas

Mostra em cartaz até outubro reúne paisagens, animais e cultura do único bioma exclusivamente brasileiro

Nos terrários, miniaturas vivas do ecossistema com animais como a serpente suaçuboia

José Felipe Batista / Comunicação Butantan

Ao percorrer o Museu Biológico do Instituto Butantan, na capital paulista, de repente a luz muda e fica mais quente: o visitante chegou à Caatinga. Os tons terrosos em vermelho e amarelo das paredes – que deixam de ser a sucessão de terrários com serpentes, lagartos e outros animais que compõem o acervo permanente – remetem ao único bioma exclusivamente brasileiro, que ocupa mais de 10% do território nacional. “É o menos conhecido dos biomas”, lamenta a bióloga Erika Hingst-Zaher, diretora do museu.

De forma coerente com a marca registrada do instituto, o visitante ainda vê cobras e lagartos vivos, coletados durante expedições de campo da bióloga Thaís Guedes, da Universidade Estadual Paulista (Unesp), campus de Rio Claro. Hingst-Zaher chama a atenção para os dioramas (compartimentos de vidro que abrigam animais expostos). Em museus de história natural, os dioramas usam animais empalhados como centro de uma reconstituição do contexto em que a espécie vive, ou viveu. Na exposição atual, não são meramente terrários: são dioramas vivos.

“As plantas aqui dentro também estão vivas”, ela aponta. “Em 7 centímetros de solo, fazemos brotar um ecossistema.” É claro que as limitações são grandes e é necessário substituir as plantas periodicamente, mas a sensação de ver ali um pedacinho vivo da Caatinga, nome que em tupi significa “floresta branca”, é marcante. Para ampliar o panorama animal, o conjunto inclui também aves empalhadas, fornecidas pelo Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo (MZ-USP).

José Felipe Batista / Comunicação ButantanCores, mapa, fotografias, ilustrações e gravuras remetem ao ambiente e à cultura da CaatingaJosé Felipe Batista / Comunicação Butantan

De acordo com a diretora, mostrar a fauna da Caatinga se insere em uma mudança de paradigma científico sobre a região. Ela conta que o zoólogo Miguel Trefaut Rodrigues, do Instituto de Biociências (IB) da USP, foi o grande responsável, a partir dos anos 1980, por descrever uma grande variedade de espécies de répteis e anfíbios, mostrando que ali havia uma diversidade única. Guedes, que é paraibana, continua esse trabalho. “Nasci na Caatinga”, conta ela, que lidera um projeto do programa Jovem Pesquisador, da FAPESP, com foco nos répteis e anfíbios do bioma todo. A exposição atende à demanda da Fundação, para esse tipo de projeto, de estender o conhecimento ao público. “Meu trabalho visa a fomentar a proteção de espécies ameaçadas e propor a interação com a comunidade, por meio de iniciativas de educação ambiental.”

Guedes considera a divulgação da ciência um grande desafio e celebra a parceria com Hingst-Zaher, o Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Répteis e Anfíbios do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (RAN-ICMBio), a Fundação Butantan e a equipe de educação do Museu Biológico. “Foi uma construção muito valiosa, que nos permitiu mostrar a beleza e o fato de que a Caatinga não é uma coisa só.” A visão da natureza do semiárido naquele espaço paulistano se expande, ainda, para relevos variados e verdejantes, além da vegetação seca e espinhenta que habita o imaginário de quem nunca foi à região. Fotografias e ilustrações mostram terrenos calcários, brejos de altitude, um ambiente litorâneo e outras paisagens, todas indicadas em um grande mapa. Fones de ouvido reproduzem sons da Caatinga ao amanhecer e ao anoitecer. As educadoras, que têm a missão de ajudar os visitantes nesse percurso, celebram relatos que ouviram de pessoas nativas da região. Uma visitante que temia se deparar com clichês comentou se sentir representada no cenário da exposição, segundo elas.

José Felipe Batista / Comunicação ButantanÀ vontade em seu tronco, iguana encanta os visitantesJosé Felipe Batista / Comunicação Butantan

“É uma região única, com uma história longa”, diz Guedes. Para explorar a escala temporal da ocupação humana na região, que remonta há mais de 10 milênios, Hingst-Zaher buscou uma parceria com o Museu de Arqueologia e Etnologia (MAE) da USP, para incluir artefatos arqueológicos na mostra e exibir pistas dos saberes, hábitos alimentares e rituais da população local. O cenário fica completo com trechos de obras literárias de grandes escritores que retrataram a região e matrizes de xilogravuras típicas, encomendadas à artista Yara Santos.

De acordo com Hingst-Zaher, a ideia foi estabelecer um novo parâmetro para exposições temporárias, abarcando uma visão de sociobiodiversidade. “Queremos quebrar essa tradição antiga do saber científico como onisciente e mostrar os saberes e cosmologias tradicionais.” Nesse intuito, a exposição também se torna pesquisa. As educadoras contam que estão aplicando um questionário ao fim do percurso dos visitantes, para avaliar mudanças nas impressões sobre a Caatinga. “Espero que as pessoas saiam com a visão ajustada em relação ao que a mídia tradicional costuma passar”, deseja Guedes.

A exposição fica em cartaz até 4 de outubro e deve servir como base para pensar a linguagem de mostras futuras do museu, após a grande reforma planejada para se iniciar ainda neste ano.

Projeto
Evolução e biogeografia da herpetofauna: padrões, processos e implicações para a conservação em cenário de mudanças ambientais e climáticas (nº 21/07161-6); Modalidade Jovem Pesquisador; Pesquisadora responsável Thaís Barreto Guedes da Costa (Unesp).

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