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Engenharia Agronômica

Formulações com amido ou celulose ajudam a conservar legumes e verduras

Novas técnicas prolongam em até uma semana a vida útil de alimentos com casca comestível

Por serem frágeis e não poderem receber revestimentos de conservação, os legumes respondem pelas maiores perdas nos mercados

Léo Ramos Chaves / Revista Pesquisa FAPESP

Depois de duas décadas dedicadas à identificação de formas de conservar alimentos frescos cuja casca é retirada antes do consumo, o engenheiro-agrônomo Marcos David Ferreira, com sua equipe da Embrapa Instrumentação, em São Carlos, lançou-se a uma tarefa mais desafiadora: encontrar compostos que possam manter a qualidade de alimentos com casca comestível, prontos para o consumo.

Por lei, os legumes e as hortaliças que formam esse grupo não podem se submeter aos banhos de spray com os chamados de revestimentos naturais comestíveis, que atuam como barreiras à troca gasosa, retardam o metabolismo e evitam a ação de fungos e bactérias. Em frutas de casca espessa e não comestíveis, como o melão, a manga, o abacate e o abacaxi, normalmente se aplica uma fina camada de emulsão de cera de carnaúba, que prolonga o chamado tempo de prateleira em até 15 dias. Uma emulsão é produzida pela combinação de dois líquidos que não se misturam, normalmente água e óleo, podendo conter outros componentes.

Em busca de alternativas, com apoio da FAPESP e da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), o grupo de Ferreira examinou a viabilidade de aplicação de polissacarídeos, como são chamados os carboidratos de cadeias longas, sobre os alimentos consumidos com casca, como os pepinos, ou submetidos ao cozimento, como tomate, pimentão e berinjela. Os polissacarídeos foram diluídos em água contendo glicerol, em diferentes concentrações, e aplicados de modos distintos, com o objetivo de conhecer o mais adequado.

Como detalhado em um trabalho publicado em novembro de 2025 na revista científica Foods, a superfície de frutas e hortaliças é capaz de absorver ou repelir água de maneira distinta. Os pesquisadores associaram essa propriedade com as películas capazes de reduzir a perda de água e o consequente ataque de microrganismos. Revestimentos desse tipo podem prolongar a qualidade dos alimentos em até uma semana, conforme indicado em outro estudo.

Os revestimentos à base de celulose, amido de batata e de milho apresentam maior afinidade com a água – são mais hidrofílicos. De acordo com esse estudo, vegetais com pouca cera natural na superfície e que absorvem mais água, como batata e pepino, podem se beneficiar desse tipo de revestimento. Por sua vez, outro grupo, formado por películas à base de pectina, mostrou um maior potencial para proteger os alimentos cuja casca repele mais a água por ter uma cutícula cerosa, como a do tomate, da berinjela e do pimentão.

Josemar Oliveira / EmbrapaMamões com e sem película protetoraJosemar Oliveira / Embrapa

A próxima etapa será definir quanto cada estratégia poderia prolongar o tempo de vegetais desse grupo, que responde pelas maiores perdas nos mercados por serem frágeis e não poderem receber revestimento, como os frutos com casca. De acordo com um estudo anterior do grupo da Embrapa, publicado em outubro de 2022 na International Journal of Biological Macromolecules, o tempo de prateleira dos morangos poderia chegar a 12 dias — uma semana a mais que os frutos sem revestimento, ambos mantidos sob refrigeração – após receberem uma finíssima cobertura de amido de araruta contendo nanocristais de celulose, nanoemulsão de carnaúba ou óleos essenciais (em alta concentração) de capim-palmarosa (Cymbopogon martinii) e de hortelã (Mentha spicata). Os revestimentos também mantiveram a cor e o sabor dos alimentos, e os com óleos essenciais também apresentaram atividade antimicrobiana, reduzindo a deterioração causada por fungos.

“Não há uma emulsão que possa ser aplicada em todos os alimentos consumidos com e sem casca”, diz Ferreira. Essa constatação, válida para hortaliças e legumes, reforça a necessidade de ajustes mesmo nos revestimentos comestíveis feitos com uma emulsão de cera de carnaúba, já usados há muitos anos.

Um trabalho que reuniu equipes da Embrapa, do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos e das universidades estadual paulista (Unesp) e de Campinas (Unicamp) mostrou que o óleo essencial de gengibre, acrescentado a nanoemulsões com 18% de cera de carnaúba, reduziu o ataque de fungos sobre os mamões, sem alteração do sabor. Como detalhado em um artigo publicado em março de 2022 na Food Chemistry: X, as nanoemulsões, contendo cera de carnaúba, retardam a perda de firmeza e de cor e o amadurecimento do mamão papaya durante o armazenamento.

Em outro estudo, publicado em julho de 2025 na Chemistry & Biodiversity, entre os seis óleos essenciais analisados, o de orégano (Origanum vulgare) apresentou a maior capacidade antifúngica, e o método de exposição ao vapor foi o mais eficaz, por exigir concentrações menores. Ferreira argumenta que essas abordagens se tornam ainda mais relevantes diante da perda de produtividade agrícola e do aumento do preço de alimentos em consequência das mudanças climáticas, como alertado em um relatório da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) de 2023.

“O revestimento natural de legumes e hortaliças é uma área imensa a ser explorada”, atesta o engenheiro-agrônomo Fabiano Coldebella, gerente comercial da AgroFresh, uma distribuidora de produtos para conservação de alimentos pós-colheita sediada nos Estados Unidos. “A dificuldade agora é tornar a formulação viável comercialmente. Além dos testes para registro, nesse caso há muitos pequenos produtores ou a produção vai direto para o mercado. Seria preciso criar espaços coletivos ou novos métodos de aplicação.” As frutas com casca recebem banhos de spray com cera de carnaúba em galpões onde são previamente lavadas e depois etiquetadas e embaladas.

Desde 2020, a AgroFresch distribui no Brasil e em países da América do Sul uma nanoemulsão de cera de carnaúba que começou a ser desenvolvida em 2011 em conjunto com e a empresa QGP/Tanquímica, de Laranjal Paulista, interior paulista, que atualmente a produz, e a Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). “O revestimento de origem vegetal comestível é uma alternativa de baixo custo para conservar alimentos”, diz Ferreira. “Um litro de emulsão é o suficiente para banhar 1 tonelada de frutos.” Segundo ele, se os produtores não tiverem instalações especiais, podem simplesmente banhar os alimentos, colocando-os em um recipiente com a solução e retirando-os em seguida.

Projetos
Aplicação da nanotecnologia para o desenvolvimento de novos revestimentos antimicrobianos baseados em compostos de origem vegetal (plant-based) para conservação pós-colheita de frutas e hortaliças (no 22/10686-6); Modalidade Auxílio à Pesquisa – Regular; Pesquisador responsável Marcos David Ferreira (Embrapa); Investimento R$ 297.272,93.
Desenvolvimento de antifúngicos naturais nanoencapsulados para aplicação na conservação de frutas pós-colheita (no 23/17653-9); Modalidade Bolsas de Pós-doutorado; Pesquisador responsável Marcos David Ferreira; Bolsista Fernanda Ramalho Procópio; Investimento R$ 293.135,76.

Artigos científicos
FAO et al. The State of Food Security and Nutrition in the World 2023. Rome, Italy, 2023.
FERREIRA, M. D. et al. Optimizing postharvest edible coatings for fruit and vegetables with plant-based polysaccharides. Foods. v. 14, n. 22, 3897. 13 nov. 2025.
MIRANDA, M. et al. Nano and micro-sized carnauba wax emulsions-based coatings incorporated with ginger essential oil and hydroxypropyl methylcellulose on papaya: Preservation of quality and delay of post-harvest fruit decay. Food Chemistry: X. v. 13, 100249. 30 mar. 2022.
OLIVEIRA FILHO, J. G. et al. Bio-nanocomposite edible coatings based on arrowroot starch/cellulose nanocrystals/carnauba wax nanoemulsion containing essential oils to preserve quality and improve shelf life of strawberry. International Journal of Biological Macromolecules. v. 219. 31 out. 2022.
OSTI, Y. G. P. et al. Direct and volatile potential applications of essential oils for post-harvest fungal control. Chemistry & Biodiversity. v. 22, n. 7, e202403484. jul. 2025.

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