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Entrevista

Itinerário lisérgico

História social do LSD no Brasil é resgatada a partir da análise de trajetórias individuais

Julio Delmanto, em São Paulo: da chegada do LSD, sob a forma de remédio, até a proibição de seu uso passaram-se 20 anos, revela pesquisa

Léo Ramos Chaves

Enquanto cumpriam pena de prisão no Líbano por tráfico de drogas, um brasileiro e um australiano elaboraram um plano para trazer dos Estados Unidos a dietilamida do ácido lisérgico, droga sintética conhecida como LSD. O ano era 1969. Pioneiros na disseminação da substância entre artistas e intelectuais da contracultura, eles se tornaram réus no primeiro processo judicial movido no Brasil por tráfico da substância alucinógena. Tese de doutorado defendida por Júlio Delmanto no Departamento de História da Universidade de São Paulo (USP) e recém-publicada no livro História social do LSD no Brasil – Os primeiros usos medicinais e o começo da repressão resgata a história social do LSD ao analisar as trajetórias individuais dos principais personagens envolvidos no caso. Em entrevista por telefone concedida a Pesquisa FAPESP, Delmanto explicou que na década de 1950 a substância era aqui utilizada predominantemente para fins medicinais. Sua criminalização aconteceu no início da década de 1970, motivada pelo uso recreativo que se começou a fazer dela.

Por que você decidiu investigar a história social do LSD?
No mestrado, estudei a relação entre drogas e esquerda, procurando compreender como se desenvolveram, no Brasil, as políticas de proibição de substâncias ilícitas em uma perspectiva mais ampla. No doutorado, minha ideia inicial era investigar a relação entre drogas e contracultura, utilizando metodologias da micro-história e da análise de trajetórias individuais. Durante a pesquisa, descobri nos arquivos do Tribunal de Justiça de São Paulo [TJ-SP], o primeiro processo judicial movido no país envolvendo tráfico de LSD. A descoberta me levou a mudar os rumos do doutorado. Soube da existência do processo, iniciado em 1970, por intermédio de entrevistas e analisando jornais da época. Além disso, o juiz do caso publicou sua sentença no livro Os alucinógenos e o direito – LSD, em 1972. Mas a obra não fornece informações sobre as pessoas indiciadas, meu principal interesse de pesquisa. Encontrei esses dados ao investigar o próprio processo, que tem cinco volumes.

Como efetivamente o LSD entrou no Brasil?
Em 1943, o químico suíço Albert Hofmann [1906-2008], que trabalhava para a empresa farmacêutica Sandoz, desenvolveu a droga. As primeiras pesquisas no mundo envolvendo uso medicinal da substância são dessa década. O medicamento produzido pela Sandoz chegou ao Brasil nos anos 1950. Na pesquisa de tese, percebi que os médicos e psiquiatras brasileiros que receitavam o remédio para tratamento contra a depressão, por exemplo, tinham relação com personagens da contracultura, como artistas, intelectuais e músicos. Dentre os médicos pioneiros que utilizavam LSD em seus consultórios estava Jamil Almansur Haddad [1914-1988], também poeta, tradutor e crítico literário. No doutorado, entrevistei pessoas que passaram por esses tratamentos. Alguns me disseram que os médicos aplicavam o produto puro da Sandoz diretamente em suas veias. Um aspecto que não aprofundei no trabalho inclui um mapeamento mais amplo dos médicos que utilizaram LSD para tratar doenças, principalmente aquelas relacionadas com depressão e ansiedade. Nessa época, o uso da substância era permitido no Brasil.

Divulgação/Editora Elefante Reprodução de foto que teria sido encontrada na casa de Peticov e integra o processo judicial. Sobre a imagem há a observação de que as pessoas retratadas apresentariam “típica atitude de submetidos às drogas”Divulgação/Editora Elefante

Por que seu uso passou a ser proibido?
A criminalização está relacionada com o início de sua utilização por integrantes de movimentos da contracultura. Nos Estados Unidos, a substância passou a ser consumida com fins recreativos na década de 1960, impulsionada pela defesa que o neurocientista Timothy Leary [1920-1996], professor de Harvard, fazia de seus supostos benefícios terapêuticos e espirituais. A partir de então, a substância ganhou novas possibilidades de uso, mas também estigmas. Para pessoas envolvidas com a contracultura, o LSD era uma forma de questionar o autoritarismo e mudar o mundo. Nos Estados Unidos, onde a substância foi amplamente utilizada em pesquisas médicas durante as décadas de 1940 e 1950, a Sandoz interrompeu a produção quando seu consumo foi proibido em 1965. No Brasil, a discussão jurídica envolvendo sua proibição começou cinco anos mais tarde. Isso significa que, desde a chegada da substância sob a forma de remédio até a proibição do seu uso, se passaram 20 anos. Nos dois países, o caminho foi similar: a substância entrou no mercado como medicamento e foi apropriada por movimentos de contracultura, para consumo recreativo, nas décadas seguintes.

O que a análise desse primeiro processo judicial no Brasil revelou?
O processo traz dados sobre o contexto social e cultural do país que, naquele momento, vivia o período mais duro da ditadura militar [1964-1985]. Fica evidente, por exemplo, que práticas de tortura foram adotadas em todas as etapas da investigação, afetando os sete réus. Os autos mostram que notícias veiculadas na imprensa sobre a presença de agentes do FBI [Federal Bureau of Investigation] no país, em busca de traficantes de LSD, já proibido nos Estados Unidos, motivaram a abertura do processo. O ponto de partida foi a identificação, em 1970, de uma pequena quantidade da droga no apartamento do artista plástico Antônio Peticov, à época com 23 anos. Entrevistei-o em 2017, como parte da pesquisa de doutorado. Além de Peticov, o processo envolveu outros seis réus, sendo os principais personagens da história Osmar Ludovico e o australiano Barry John Holohan. Todos foram condenados no mesmo ano. Peticov não ficou preso porque conseguiu um habeas corpus e, logo depois, seguiu para o exílio em Londres, de onde regressou anos mais tarde. Todos os demais foram presos, mas libertados no fim do mesmo ano, graças a um indulto presidencial.

Como eles se conheceram?
Conforme informações que constam no processo judicial e também por intermédio das entrevistas realizadas para a tese, Holohan e Ludovico, com quem conversei em 2017, se encontraram pela primeira vez em um manicômio judicial no Líbano, em 1968. Foram presos por traficar haxixe da Europa ao país árabe. Na prisão em Beirute, criaram um plano para traficar LSD dos Estados Unidos para o Brasil. Soltos, Holohan foi para a Califórnia e Ludovico veio para cá. Ele conhecia Peticov, uma figura popular entre a juventude de classe alta paulistana. Holohan trouxe uma primeira leva da droga dos Estados Unidos e eles pediram ao artista plástico que a apresentasse para sua rede de contatos. Peticov passou a distribuir os comprimidos entre amigos. No final da década de 1960, o Brasil contava com uma lei dura contra drogas, que punia com as mesmas penas usuários e traficantes. Um dia, Peticov recebeu a visita do policial civil Angelino Moliterno, apontado como integrante do Esquadrão da Morte. Conforme dados do processo judicial, Moliterno encontrou comprimidos de LSD no apartamento e prendeu-o em flagrante. Na época, discutia-se no país a proibição do consumo da substância, até aquele momento liberada para fins medicinais. Ou seja, sua prisão foi ilegal.

Divulgação/Editora Elefante Reprodução de notícia publicada na revista Veja de 11 de fevereiro de 1970, sobre a apreensão de LSD na casa de PeticovDivulgação/Editora Elefante

O que aconteceu com essas pessoas?
O pai de Peticov era ministro da Igreja Batista e pediu a um colega, também líder religioso, que visitasse Ludovico e Holohan na prisão. O plano inicial deles era sair da prisão e seguir traficando. Mas ambos se converteram ao cristianismo e, quando deixaram o cárcere, prosseguiram com uma vida dedicada à religião. Ludovico atua como guru místico, está ligado ao cristianismo e a práticas de meditação.

Quais suas outras fontes de pesquisa?
A repercussão do caso na imprensa me permitiu acompanhar cada etapa do processo. Também coletei depoimentos de pessoas envolvidas e fiz pesquisas nos arquivos do Departamento de Ordem Política e Social [Dops], hoje sob a guarda do Arquivo Público do Estado de São Paulo. Além disso, consultei autobiografias publicadas por personagens da contracultura, como a cantora Rita Lee e a pedagoga e atriz Maria Alice Vergueiro [1935-2020].

Quais as contribuições do seu estudo?
A história social do LSD está registrada na memória dos envolvidos, mas muitos deles já morreram. Nos últimos anos, pesquisas terapêuticas com a substância foram retomadas nas ciências biológicas e isso tem ampliado o interesse por investigações históricas sobre o tema. Meu estudo permitiu mostrar, por meio da análise de trajetórias individuais, como se iniciou a repressão aos usuários dessa droga e como o movimento se relacionava com o que acontecia nos Estados Unidos. As histórias individuais permitem compreender como foi a relação entre drogas e contracultura de toda uma geração. A história social do LSD no Brasil ainda não tinha sido contada. Nos Estados Unidos, essa trajetória foi resgatada em livro de 1992, intitulado Acid dreams: The complete social history of LSD. Meu doutorado revela quando e como a repressão ao ácido lisérgico começou no Brasil e constata que a droga chegou pela via medicinal, da mesma forma que aconteceu em outros países. Além disso, recuperei a trajetória, os métodos e as opiniões de alguns médicos, abrindo caminho para que estudos minuciosos sobre esse aspecto da história possam ser desenvolvidos.

Projeto
Drogas e contracultura no Brasil nos anos 1960 e 1970 (nº 15/00332-9); Modalidade Bolsa de Doutorado; Pesquisador responsável Henrique Carneiro (USP); Beneficiário Júlio Delmanto Franklin de Matos; Investimento R$ 149.710,33.

Livro
DELMANTO, J. História social do LSD no Brasil. São Paulo: Elefante, 2020.

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