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Neurociência

Laser rejuvenescedor

Tratamento com luz pode proteger o cérebro do avanço da idade

Com o envelhecimento, os neurônios podem adquirir alterações como o acúmulo de proteínas do tipo beta-amiloide e tau, precursoras da doença de Alzheimer que aparecem, respectivamente, em azul e roxo nesta representação artística

Instituto Nacional do Envelhecimento / NIH

Aplicado na cabeça, o feixe de laser vermelho atravessa o crânio e é capaz de irradiar tecidos profundos no cérebro. O tratamento, conhecido como fotobiomodulação, faz com que ratos idosos saudáveis fiquem mais espertos e consigam localizar mais rápido uma toca verdadeira entre 17 falsas, indicando melhora na cognição e na memória espacial. Ao fim do experimento, marcadores cerebrais indicaram também uma diminuição da inflamação no cérebro, processo que geralmente se intensifica com a idade, segundo artigo publicado em março na revista Cellular and Molecular Neurobiology.

“Achei que a mudança seria bem mais sutil”, surpreende-se o coordenador do estudo, o neurocientista Sérgio Gomes da Silva, da Fundação Cristiano Varella (FCV) e do Centro Universitário da Faculdade de Minas (Faminas), ambas em Minas Gerais, e da Universidade Mogi das Cruzes, no interior paulista. “Os ratos idosos apresentaram comportamento e parâmetros bioquímicos de jovens, enquanto os jovens saudáveis também mostraram um pequeno aumento da cognição.”

Nos ratos tratados foi detectado um aumento de neurotransmissores, substâncias importantes para a comunicação entre neurônios, como descrito em artigos publicados este ano nas revistas Molecular Neurobiology e Frontiers in Cellular Neuroscience. Ainda não se sabe como o laser modula esses fatores, mas o pesquisador supõe que aconteça por ele alterar temporariamente as vias metabólicas das mitocôndrias, estruturas celulares que produzem a energia das células, aumentando a disponibilidade de energia e diminuindo a morte celular. “O tratamento com laser talvez possa ajudar as pessoas com mais de 60 anos, uma população em crescimento”, diz Gomes da Silva.

De acordo com a neurocientista Marucia Chacur, do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICB-USP), essa ação nas mitocôndrias é responsável por efeitos anti-inflamatórios que tornam a fotobiomodulação uma possível arma contra uma série de problemas, como diabetes, dores musculares e osteoartrite – nos quais tem concentrado sua pesquisa, como mostra publicação de maio na revista Photochemical & Photobiological Sciences, com benefícios ao tratamento de dor em ratos diabéticos. “Ainda não testei tratamentos transcranianos, mas está nos meus planos”, afirma ela, que não participou do trabalho.

A pesquisadora explica que uma dificuldade na transposição para seres humanos dos resultados obtidos em modelos animais é a dosagem. “É preciso mudar o comprimento de onda e o tempo de aplicação, modulando conforme parâmetros do paciente como o teor de gordura e a cor da pele”, esclarece. Há poucos estudos ainda nesse sentido, mas ela considera que a técnica é promissora como complementar ao tratamento das doenças em questão. “Uma das possibilidades é reduzir as dosagens de medicamentos.”

Projetos
1. Potencial terapêutico do laser de baixa intensidade no cérebro de ratos idosos (nº 17/16443-0); Modalidade Bolsa de Doutorado; Pesquisador responsável Sérgio Gomes da Silva (UMC); Beneficiário Fabrízio dos Santos Cardoso; Investimento R$ 258.029,09.
2. CEGH-CEL – Centro de Estudos do Genoma Humano e de Células-tronco (nº 13/08028-1); Modalidade Centros de Pesquisa Inovação e Difusão (Cepid); Pesquisadora responsável Mayana Zatz (USP); Investimento R$ 46.885.826,63.
3. Estudo dos efeitos da fotobioestimulação sobre o metabolismo energético mitocondrial das células de Schwann no Diabetes Mellitus Tipo 1 (nº 17/25554-0); Modalidade Bolsa de Doutorado; Pesquisador responsável Marucia Chacur (USP); Beneficiário Igor Rafael Correia Rocha; Investimento R$ 307.242,50.

Artigos científicos
CARDOSO, F. D. S. et al. Effects of chronic photobiomodulation with transcranial near-infrared laser on brain metabolomics of young and aged rats. Molecular Neurobiology. v. 58, p. 2256-68. 8 jan. 2021.
CARDOSO, F. D. S. et al. Improved spatial memory and neuroinflammatory profile changes in aged rats submitted to photobiomodulation therapy. Cellular and Molecular Neurobiology. On-line. 11 mar. 2021.
CARDOSO, F. D. S. et al. Transcranial laser photobiomodulation improves intracellular signaling linked to cell survival, memory and glucose metabolism in the aged brain: A preliminary study. Frontiers in Cellular Neuroscience. On-line. 3 set. 2021.
ROCHA, I. R. C. e CHACUR, M. Modulatory effects of photobiomodulation in the anterior cingulate cortex of diabetic rats. Photochemical & Photobiological Sciences. v. 20, p. 781-90. 30 mai. 2021.

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