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Ambiente

Levantamentos de organismos bioluminescentes geram propostas turísticas

Vagalumes e outros seres luminosos podem gerar renda, de forma controlada, para reservas ecológicas

O cogumelo Mycena lucentipes foi uma das primeiras espécies que tiveram seu mecanismo químico de luminescência desvendado

Cassius Stevani / USP

Desde 2007, o biólogo Danilo Trabuco do Amaral participa de expedições noturnas em regiões de mata fechada do estado de São Paulo e de outros locais do país procurando por espécies de vagalumes. Um dos lugares que mais impressionaram o pesquisador da Universidade Federal do ABC (UFABC) foi a Estação Ecológica de Jureia-Itatins (EEJI), um dos trechos mais bem preservados de Mata Atlântica, com 844 quilômetros quadrados (km²) de extensão, em Peruíbe, no litoral sul paulista. Ali, Amaral chegou a avistar em uma única noite até 15 vagalumes por metro de trilha. “Eles trombam e pousam em você, de tantos que são”, ele conta.

Em um levantamento inédito na região, Amaral e sua equipe encontraram 23 espécies de vagalumes, quatro de fungos e uma de microrganismo marinho que brilham no escuro – um espetáculo com potencial de aliar turismo à conservação da natureza. Em um artigo publicado em fevereiro na revista Journal for Nature Conservation, eles discutiram os possíveis benefícios de fomentar o ecoturismo de bioluminescência na EEJI e em outras reservas de Mata Atlântica.

A inspiração veio de experiências bem-sucedidas no exterior. No Japão, os vagalumes são celebrados em festivais tradicionais de verão conhecidos como hotaru matsuri, e seu hábitat natural – matas próximas a cursos de água – é preservado, mesmo em áreas urbanas. Nos Estados Unidos, a partir dos anos 2000, o Parque Nacional das Grandes Montanhas Fumegantes, entre o Tennessee e a Carolina do Norte, começou a receber pequenos grupos de turistas para observar o fenômeno da sincronização, em que centenas a milhares de vagalumes Photinus carolinus piscam de maneira coordenada.

Cassius Stevani / USPEm expedições noturnas, por vezes aparecem espécies fluorescentes não identificadas, como esse fungo em tronco de árvoreCassius Stevani / USP

Nos últimos 10 anos, um conjunto de santuários para vagalumes nas vilas de Nanacamilpa e Ameacameca, a cerca de 100 quilômetros da Cidade do México, tem atraído mais de 100 mil visitantes todo ano à procura da abundância de Photinus palaciosi e sua sincronização parcial, proporcionando renda às comunidades locais e conscientizando o público para a preservação da floresta. O mesmo ocorre na Malásia, em Kuala Selangor, onde enxames de Pteroptyx tener tomam os manguezais nas margens do rio Selangor, piscando em total sincronismo – uma estratégia de comunicação usada no contexto de atração de parceiras reprodutivas.

Apesar de ser o país com a maior diversidade de besouros bioluminescentes, abrigando cerca de 500 das aproximadamente 3 mil espécies conhecidas no mundo, o Brasil ainda explora pouco seu potencial turístico. O destino nacional mais famoso é o Parque Nacional das Emas, em Goiás, uma área plana de Cerrado onde as larvas do vagalume Pyrearinus termitilluminans, abrigadas em milhões de cupinzeiros que podem chegar a quase 2 metros de altura, emitem uma luz verde contínua nas noites de primavera. Passeios noturnos são oferecidos por algumas operadoras de turismo da região, atraindo alguns milhares de visitantes por ano.

Amaral fez iniciação científica e doutorado com o bioquímico Vadim Viviani, da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), que há mais de 30 anos pesquisa insetos bioluminescentes em todo o país, em busca de novas espécies e do monitoramento de sua diversidade. Isso inclui a clonagem de luciferases – as enzimas responsáveis por induzir a reação química que gera o brilho dos vagalumes, para os quais é central na comunicação, e de outros seres luminosos (ver Pesquisa FAPESP nº 274). A reação luminosa é muito utilizada em biotecnologia, no desenvolvimento de novos ensaios para indústria, ambiente e medicina. Mas a Jureia esteve fora do roteiro deles até o início de 2024, quando Amaral esteve lá pela primeira vez.

Cassius Stevani / USPEstudantes do curso de química ambiental do IQ-USP fazem observação em campoCassius Stevani / USP

Em 2022, o programa Biota-FAPESP, em parceria com a Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística do estado de São Paulo e a Fundação Florestal, lançou uma chamada de propostas que contribuíssem com a conservação, a restauração e o uso sustentável da biodiversidade da EEJI. Um dos sete projetos aprovados foi o levantamento de organismos bioluminescentes da região. Extremamente sensíveis à poluição da água, do solo e ao excesso de luz artificial, a presença desses seres funciona como indicador de saúde de um ecossistema.

De janeiro de 2024 a janeiro de 2026, Amaral contou com a ajuda de sua colaboradora e esposa, a bióloga Isabel Bonatelli, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), e três orientandos – o aluno de graduação Rodrigo Castro e os de mestrado João Roberto Machado e Lara Muniz – para realizar coletas mensais de dois a três dias de duração na EEJI. O grupo aguardava o pôr do sol para explorar os sete locais escolhidos para representar a diversidade de ambientes da estação, seguindo ao longo do rio Una do Prelado e cruzando desde florestas de encostas de montanha até a vegetação à beira da praia da Barra do Una. Os trabalhos se encerravam por volta das 22h30.

Caçar vagalumes exige o máximo possível de escuridão. O segredo para caminhar no escuro sem tropeçar é cobrir lanternas comuns com papel celofane vermelho. “A luz vermelha tem dois benefícios”, explica Amaral. “Ao acender e apagar uma luz branca no escuro, você não consegue enxergar mais nada por algum tempo, enquanto a luz vermelha não interfere tanto na sensibilidade dos olhos. Além disso, os vagalumes não enxergam bem a cor vermelha, então quase não se abalam.”

Cassius Stevani / USPOs besouros tec-tec se caracterizam pelas lanternas na cabeçaCassius Stevani / USP

“Você acende um pouco a luz, vê o caminho e segue em silêncio e devagar, porque mesmo uma pisada forte pode afugentar algumas espécies, depois para e presta atenção”, ele relata. “Precisa olhar para cima, onde os vagalumes podem estar voando, mas também para o solo, onde vivem suas larvas bioluminescentes.”

A primeira espécie identificada pela equipe foi a inconfundível larva-trenzinho (Phrixothrix hirtus), o único ser bioluminescente terrestre capaz de emitir luz vermelha. A larva tem uma lanterna dessa cor na cabeça, que pode iluminar seu caminho em busca de presas, como o piolho-de-cobra, que também não enxerga muito bem o vermelho. Assim como todas as espécies de vagalume da família dos fengodídeos, a larva-trenzinho exibe uma sequência de luzes verdes do lado de cada segmento de seu corpo, que espantam predadores em potencial. A maioria das espécies de vagalume passa a maior parte da vida, entre um e dois anos, como larvas predadoras de outros invertebrados, até se transformarem em insetos alados, normalmente no verão, vivendo apenas o tempo de se reproduzir, o que ocorre em poucas semanas.

O levantamento na EEJI encontrou espécies das três principais famílias que ocorrem no Brasil: os fengodídeos, cujas fêmeas adultas permanecem como larvas e apenas os machos se transformam; os elaterídeos, ou besouros tec-tec, conhecidos por duas lanternas laterais verdes, amarelas ou laranja, que acendem quase continuamente; e os lampirídeos, os vagalumes de luz piscante verde, azul ou amarela, localizada geralmente na ponta do abdômen. Amaral está utilizando os dados coletados para revisar a filogenia, ou classificação das espécies, enquanto Bonatelli investiga se a variabilidade genética da população do lampirídeo Photinus succensus na EEJI é suficiente para garantir a sobrevivência da espécie.

Cassius Stevani / USPEscorpiões frequentemente exibem fluorescênciaCassius Stevani / USP

Em troncos ou embaixo da serrapilheira do chão da floresta, se confundindo com as larvas de vagalumes, os pesquisadores encontraram também redes de filamentos bioluminescentes de fungos, talvez dos gêneros Gerronema e Mycena, de onde brotam cogumelos de brilho verde durante o verão. A luz noturna dos fungos atrai insetos que acabam carregando pequenas porções de seus filamentos para outras áreas, ajudando a dispersá-los pela floresta, conforme mostraram experimentos do grupo do químico Cassius Stevani, da Universidade de São Paulo (USP).

Além disso, em setembro e outubro de 2024 a equipe testemunhou um brilho azulado no mar da praia da Barra do Una, criado pelo dinoflagelado Noctiluca scintillans, um dos microrganismos que podem proliferar durante florações de microalgas e emitem luz quando a água se agita, seja pelas ondas ou pelos movimentos dos banhistas. Comum em outras partes do mundo como o Sudeste Asiático, o fenômeno, considerado mecanismo de defesa contra predadores, é observado ocasionalmente em algumas praias das regiões Sul e Sudeste do Brasil.

Amaral vem discutindo com Aruã Caetano, gestor da EEJI, como implementar o turismo de bioluminescência em pequena escala na estação. O acesso à reserva é normalmente restrito a atividades educacionais e de pesquisa, com algumas áreas liberadas a pequenos grupos de turistas autorizados. A ideia é promover passeios noturnos conduzidos por guias especialmente treinados, voltados para pequenos grupos instruídos por meio de palestras e material impresso. Novas trilhas precisariam ser feitas com passarelas e plataformas para reduzir o impacto do pisoteio que compacta o solo, prejudicando fungos e larvas. A atividade ofereceria uma fonte de renda extra à população caiçara que vive dentro ou próxima à estação, além de conscientizá-la a reduzir a poluição luminosa – as luzes externas acesas durante toda a noite em muitas casas da região afugentam os vagalumes, além dos morcegos e das corujas.

Cassius Stevani / USPLíquens luminosos no núcleo Santana, no PetarCassius Stevani / USP

O pesquisador defende que projetos semelhantes poderiam ser aplicados em outras áreas de Mata Atlântica com biodiversidade comparável, como o Parque Estadual Carlos Botelho, em São Miguel Arcanjo, no sudoeste paulista. Ali vive uma das poucas espécies conhecidas de vagalumes brasileiros capazes de atingir alto grau de sincronização, do gênero Bicellonycha. Amaral conta que o piscar coletivo desses insetos produz ondas sincronizadas, como a “ola” de uma torcida em um estádio. Outras espécies até tentam sincronizar, mas raramente conseguem. Na Jureia, sua equipe observou esse comportamento em apenas duas ocasiões.

“Concordo totalmente com o Danilo”, afirma Stevani, um dos responsáveis por elucidar o mecanismo de geração de luz em fungos bioluminescentes (ver Pesquisa FAPESP nº 168), sobre o potencial turístico da luminosidade natural. Desde 2002, Stevani e seus colaboradores frequentam o núcleo Santana do Parque Estadual Turístico do Alto do Ribeira (Petar), em Iporanga, no sul paulista, onde descreveram 17 espécies desses fungos, um dos maiores números já registrados em uma mesma região. Em 2022, a agência de turismo Planeta Trilha venceu uma licitação do parque para oferecer o passeio “Luminescência no Petar”, com guias inicialmente treinados por Stevani.

A proposta da experiência turística é mostrar não apenas fungos bioluminescentes e algumas das cerca de 30 espécies de vagalumes da região, mas também outros fenômenos naturais. Efeitos conhecidos como fluorescência e fosforescência fazem com que alguns seres vivos e minerais brilhem quando iluminados por luz ultravioleta. Folhas podem emitir fluorescência vermelha; líquens, tons de azul, verde ou amarelo; escorpiões, ciano; e opiliões, azul. Rochas de calcita, encontradas na entrada das cavernas do parque, emitem um brilho verde. Também nas cavernas, o choque entre cristais de quartzo pode produzir breves flashes de luz amarela por outro efeito, a triboluminescência, decorrente da quebra dos cristais e recombinação das cargas elétricas geradas.

Cassius Stevani / USPOpilíões, que são aracnídeos, também podem ser fluorescentesCassius Stevani / USP

“A experiência da floresta à noite é completamente diferente: os sons, os cheiros, todas as sensações”, descreve o químico Antônio Cardoso Neto, guia turístico da Planeta Trilha. Ele conta que o passeio se tornou uma das atividades principais da agência, tendo atendido cerca de mil pessoas ao longo dos últimos três anos, entre turmas de escolas e grupos de famílias e amigos. “Trabalho no Petar há quase 30 anos e uma das experiências que mais me marcou foi a vez em que uma senhora se agachou para ver de perto um grupo de cerca de 100 cogumelos de Mycena lucentipes crescendo em um tronco e chorou de emoção.”

“Essas operações turísticas não são apenas viáveis, mas desejáveis como ferramentas de desenvolvimento local”, considera o biólogo José Sabino, diretor da Plataforma Brasileira de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (BPBES), que pesquisa a relação entre ecoturismo e conservação no Pantanal. Ele nota que os requisitos para observar a bioluminescência – silêncio, controle rigoroso da iluminação e guias especializados – são os mesmos dos passeios de observação de aves noturnas, as chamadas corujadas. Para o pesquisador, as duas atividades poderiam ser facilmente combinadas, ampliando o potencial educativo e imersivo da experiência. “Transformar elementos pouco percebidos da biodiversidade em um ativo valorizado cria um incentivo concreto para a sua proteção.”

Uma versão deste texto foi publicada na edição impressa representada no pdf.

Projeto
Levantamento de organismos bioluminescentes da Estação Ecológica de Jureia-Itatins: biodiversidade, evolução molecular e bioindicador ambiental (nº 22/09910-9); Modalidade Auxílio à pesquisa – Regular; Programa Biota; Pesquisador responsável Danilo Trabuco do Amaral (UFABC); Investimento R$ 273.553,42.

Artigo científico
AMARAL, D. T. et al. Bioluminescent diversity and ecotourism potential in the Juréia-Itatins Ecological Station, integrating conservation and sustainable development. Journal for Nature Conservation. 24 fev. 2026.

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