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Resenha

Memórias de um falso mineiro

Um falso mineiro: Memórias de política, ciência, educação e sociedade | Simon Schwartzman | Intrínseca – selo | História Real | 400 páginas | R$ 69,90

Resenhar um livro? Gostei? De amigo ou adversário? Aceitei, pois sou amigo do Simon Schwartzman e gostei. Estudamos no Colégio Marconi. Depois, na mesma faculdade (Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG) e ambos passamos também por Berkeley, na Califórnia.

Perguntou-me ele: seria uma crônica dos assuntos que tratou em sua vida profissional? Ou uma autobiografia? Junte tudo, bradei! O lado pessoal torna atrativas as descrições frias do mundo. Simon optou por esse duplo caminho, com uma prosa serena, precisa e fluida. Não defende teses, é apenas um testemunho – mais crítico do que elogioso – do que viveu. Intercala as análises com memórias pessoais: nova visão da sociologia, seguida de suas peripécias ao usar o esqui como meio de transporte. Do uso de modelos matemáticos pula para comentários desairosos sobre cerveja caseira.

Fala de sua passagem pela Escola de Administração Pública (Fundação Getulio Vargas). Rememora a criação do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro e as colisões com Cândido Mendes. Menciona a sua pesquisa sobre brain drain e o seu estudo sobre Gustavo Capanema. Ao virar presidente do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, antecipei o desastre de um intelectual em uma burocracia espinhenta. Estava errado, saiu-se bem. Seus estudos sobre a ciência e os cientistas brasileiros são uma clássica referência no campo. Nos últimos anos, concentra-se mais na educação, onde nos cruzamos sempre. Note-se, os tópicos acima não exaurem a lista do muito que andou fazendo.

Combinam-se nas suas narrativas a visão de conjunto do assunto, seu rebatimento teórico e os labirintos e manobras dos bastidores. Antecipando minha conclusão, o livro é imperdível para entender nossa sociedade.

Simon encontrou suas raízes judias quando foi convidado a ir à Polônia, para um encontro de famílias esparramadas pelo mundo que não se conheciam. O livro descreve, de forma bem-humorada, o processo de ajustamento, o cotidiano, as dificuldades e as rivalidades dentro da diáspora judia. Comenta a aculturação dela à sociedade brasileira e o progressivo, mas incompleto, distanciamento das tradições.

Teve o seu momento comunista. Com 13 anos, era membro do “Partidão”. Ao entrar para a UFMG, já vinha perdendo o entusiasmo pelo autoritarismo dessa filiação juvenil. Ao contrário da polarização azeda de hoje, a faculdade era um arquipélago de nuances ideológicas, cada uma defendida com certa sofisticação e muito fervor.

Em meio ao clima de exacerbadas discussões, aproximou-se de movimentos que iam se tornando cada vez mais radicais. Porém, desiludido com as propostas, foi migrando para visões mais pragmáticas e nada esquerdistas do mundo sonhado. Ainda assim, escapou por pouco do governo militar. Chegou a ser detido e preferiu o exílio.

Seu período no exterior pode ser visto como uma transição. Passa da sociologia francesa para a sociologia americana, mas com três escalas. No Chile, descobre como os números ajudam a entender o mundo. Com o professor J. Galtung, na Noruega, mergulha neles e no pensamento americano. Em Buenos Aires, tenta usar o que aprendeu. Completa o ciclo fazendo o doutoramento em Berkeley.

Sua ida à Polônia abriu-lhe os olhos para a história conturbada da Europa. Ficou-lhe claro que a política tanto pode ser um instrumento de dominação brutal quanto um mecanismo de aprendizagem de tolerância e convivência. Dela depende a democracia. Possivelmente, nasce daí o seu permanente esforço para decifrar a relação conturbada da ciência com a política.

Herdeira do Iluminismo, a ciência moderna se julga um produto da razão e da observação desapaixonada. Mas não é bem assim, pois a sociologia da ciência sugere uma isenção duvidosa e semeia dúvidas incômodas. A ciência não deixa de ser produto do caldo de cultura do momento e do local. Seus métodos dão aos resultados uma robustez que resiste aos séculos. Mas não são conclusões sagradas e sua força está na capacidade de se autocorrigir.

Ao final, reconhece os avanços do Brasil, mas se mostra desapontado com os revezes. Afirma ser hoje “mais pessimista sobre o futuro da democracia e o triunfo da razão”. Mas torce para que “esta percepção não seja verdadeira”. Lendo seu livro, podemos concordar ou discordar desse julgamento algo negativo. Tendo a ser mais otimista que ele.

Claudio de Moura Castro é economista e especialista em educação. Publicou, entre outros, o livro Você sabe estudar? (Penso, 2015).

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