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Psiquiatria

Mulheres têm risco maior de suicídio entre estudantes de medicina

Percepção de qualidade de vida das estudantes e residentes é inferior à dos colegas homens

Coleta de sangue de medula óssea no Hospital das Clínicas da USP

Léo Ramos Chaves

Ser mulher e estudar medicina aumenta o risco de suicídio, segundo conclusão de um estudo publicado na edição deste mês da revista Acta Psychiatrica Scandinavica. Em um universo de 4.840 estudantes de medicina de todo o Brasil, os resultados indicam que, do total, 9% deles já havia tentado tirar a própria vida – 7% das mulheres diante de 2% dos homens.

Esse dado pode ser reflexo das estatísticas da população em geral, explica a psiquiatra Grasiela Marcon, uma das autoras do estudo e professora da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS). Conforme dados do Ministério da Saúde, de um total de 48.204 tentativas de suicídio registradas entre os anos de 2011 e 2016, 69% delas ocorreram com mulheres ante 31% com homens, ou seja, pouco mais que o dobro de casos.

Mesmo assim, parece que há algo no exercício da medicina que agrava essa diferença de gênero. O psiquiatra Ives Passos, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), outro autor da pesquisa, destaca: “Dados de estudos anteriores apontam que as mulheres médicas tentam suicídio de 250% a 400% mais do que as mulheres da população geral; entre os homens, essa taxa é de 70% a mais”.

“Embora nossa pesquisa não tenha avaliado percepção de qualidade de vida, outros estudos apontam uma relação entre pior qualidade de vida com aumento de comorbidades psiquiátricas”, observa Marcon. Se por um lado as estatísticas relacionadas ao suicídio são preocupantes, outros estudos ressaltam as dificuldades que as mulheres enfrentam durante os cursos de medicina.

A psiquiatra aponta que há um aumento da presença de mulheres nos cursos de medicina, e esse ingresso crescente pode se chocar com barreiras culturais estabelecidas há muitos anos. De acordo com o relatório “Demografia médica no Brasil 2015”, embora em 2014 a maioria dos médicos (57,5%) ainda fosse formada por homens, entre os profissionais com 29 anos ou menos as mulheres já eram maioria, com 56,2%. Para entender o contraste e a progressiva mudança de cenário, basta analisar a faixa etária entre 65 e 69 anos: 77,6% dos médicos eram homens. Um relatório internacional publicado este mês pela editora Elsevier aponta que a participação das mulheres na medicina continua crescendo, mas algumas especialidades se mantêm eminentemente masculinas.

Um estudo publicado em 2019 na Revista de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) analisou a qualidade de vida e o ambiente educacional em 1.350 estudantes de 22 escolas médicas do país. As mulheres apresentaram escores piores de qualidade de vida em domínios como: uso do tempo, que avaliou a capacidade de gestão do tempo conciliando atividades acadêmicas e pessoais; psicológico, que inclui concentração, autoestima, nível de cobrança, sentimentos positivos e negativos; e físico, que engloba sono, cuidados com a saúde e atividade física.

Essa percepção mais negativa das mulheres, tanto nas faculdades de medicina quanto na própria profissão, “pode ser consequência da persistência de iniquidades de sexo nas escolas médicas e no ambiente de medicina como um todo, historicamente constituído como um ambiente masculino”, sugere o estudo. “O ambiente de uma faculdade de medicina é predominantemente masculino porque a maioria dos professores é homem”, observa o médico Mílton de Arruda Martins, professor de clínica médica da Faculdade de Medicina (FM) da USP e um dos autores da pesquisa.

“Nas nossas pesquisas ouvi das estudantes que há maior cobrança sobre elas, e que para se mostrarem competitivas precisam estar sempre provando seu valor. Elas também relatam serem mais frequentemente vítimas de assédio”, conta a médica Patricia Zen Tempski, da FM-USP, coautora do artigo na Revista de Medicina. Ela e Martins são coordenadores do projeto “Vida de estudante e residente da área da saúde ‒ Veras”, que estuda a qualidade de vida, o ambiente de ensino e as competências emocionais dos estudantes e residentes. Ela destaca que, em geral, as mulheres também tendem a ser mais autocríticas.

Rogerio Fernandes Obstetrícia é uma área com predominância femininaRogerio Fernandes

Depois da graduação
A percepção de qualidade de vida inferior por parte das mulheres perdura no treinamento em residência, segundo artigo publicado em 2018 na revista BMC Medical Education, que indica escores significativamente menores em domínios como gerenciamento do tempo, psicológico, saúde física e escores maiores de sonolência diurna nas residentes do sexo feminino. Um dos dados da pesquisa mostra que 74,2% delas foram diagnosticadas com sonolência patológica ante 37,2% dos residentes homens. No questionário aplicado a 109 residentes do Hospital das Clínicas da USP, o mesmo usado pelo Veras, para a pergunta “consigo gerenciar bem meu tempo?”, apenas 12% das residentes tiveram uma visão positiva, diante de 46,2% para os colegas homens.

Para a médica clínica-geral Renata Kobayasi, uma das autoras do artigo, o papel da mulher no cuidado da família ainda é central. “Essa é uma questão muito importante, que diminui os escores de qualidade de vida delas, principalmente no domínio de manejo do tempo.”

A medicina tem o agravante do longo período de formação, destaca Kobayasi, que é pesquisadora do Centro de Desenvolvimento de Educação Médica da FM-USP: além da graduação, que dura seis anos, muitos estudantes optam por fazer residência, que pode levar de dois a seis anos, dependendo da especialização escolhida. Tudo isso coincide com a fase da vida em que as mulheres sofrem pressão – da sociedade e da própria fisiologia reprodutiva – para terem filhos.

Tempski destaca que, apesar de existirem hoje mais alunas do que alunos nos cursos de medicina, elas levam desvantagem mais adiante na carreira. “As mulheres ainda estão em menor número nos cargos de gestão e seus salários são mais baixos”, observa. O abismo salarial entre os gêneros é grande: artigo publicado em 2019 na revista BMJ Open pelo grupo de estudos em Demografia Médica da FM-USP relata que, entre 2.400 médicos entrevistados, 17% dos homens declararam ganhar mais de US$ 10 mil por mês trabalhando entre 20 e 40 horas por semana. Entre as médicas com a mesma carga horária, apenas 4% estavam nessa categoria superior de remuneração. A diferença é mantida mesmo quando são controlados fatores que causam diferenças, como a especialidade médica e o atendimento em consultório ou hospital.

Rede de apoio e representatividade
O processo de estabelecer relacionamentos e conexões com outras mulheres também gera problemas, de acordo com Lídia Gomes, 20 anos, estudante do segundo ano da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Ela integra o Coletivo de Mulheres Medicina Unicamp (Muda). “O que dá para perceber é que os meninos têm mais facilidade de se enturmar. Sentíamos falta de poder contar umas com as outras e foi preciso criar uma rede de apoio.”

Ela relata que o ambiente na medicina é claramente mais masculino. “Sentimos que alguns professores não explicam as coisas para nós, mas para os meninos. É como se não fôssemos capazes de entender”, afirma, sem esquecer as piadas machistas. “Isso cria uma sensação de que temos que ser muito boas para chegar ao patamar dos homens, fazer tudo em excesso. E isso se reflete em nossa saúde mental.”

Para Marina Siqueira, 26 anos, recém-formada na FM-USP, incomoda o número menor de referências femininas. “Essa falta de representatividade e de referências pode justificar maior sofrimento e menos autoconfiança e segurança para aproveitar oportunidades profissionais e acadêmicas”, avalia.

Medidas como a criação de centros de apoio psicológico aos estudantes são um caminho para melhorar a qualidade de vida de maneira geral e já têm sido implementados em universidades como USP, Unicamp e UFRGS. “Temos também um programa em que médicos mais experientes atuam como mentores que se reúnem com os alunos. E procuramos ter ações preventivas e terapêuticas: criar um ambiente acolhedor, que respeite os direitos humanos, a diversidade, que promova a colaboração e não a competição, que seja democrático, que as pessoas tenham vias de comunicação com a instituição”, explica Martins.

“Coletivos como Muda são espaços muito importantes para o debate. São pontos de refúgio para que a gente se fortaleça, para que consigamos nos aproximar de outras mulheres e compreender que a maioria passa por isso e sente as mesmas coisas”, observa Lídia Gomes. Patricia Tempski completa que essa rede de apoio precisa ser acompanhada por uma mudança institucional nas faculdades, e não só no Brasil – o cuidado à saúde mental dos estudantes de medicina é um problema global. “As práticas pedagógicas e a interação entre professores e alunos podem se estabelecer como práticas de poder, e não práticas libertárias como a educação deve ser.”

Artigos científicos
MARCON, G. et al. Who attempts suicide among medical students? Acta Psychiatrica Scandinavica. v. 141, n. 3, p. 254-64. mar. 2020.
PARO, H. B. M. S. et al. Qualidade de vida do estudante de medicina: O ambiente educacional importa? Revista de Medicina. v. 98, n. 2, p. 140-7. mar.-abr. 2019.
KOBAYASI, R. et al. Gender differences in the perception of quality of life during internal medicine training: A qualitative and quantitative analysis. BMC Medical Education. v. 18, 281. 26 nov. 2018.
MAINARDI, G. M. et al. What explains wage differences between male and female Brazilian physicians? A cross-sectional nationwide study. BMJ Open. v. 9, n. 4, e023811. 1º mai. 2019.

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