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Resenhas

Histórias da vida real

O breve lapso entre o ovo e a galinha | Mariano Sigman | Editora Perspectiva, 224 páginas, R$ 36,00

Há ecos assumidos de Jorge Luis Borges no modo de Mariano Sigman contar suas histórias e apresentar suas reflexões em O breve lapso entre o ovo e a galinha, lançado agora no Brasil. Tanto que, no prefácio que já aparecia na edição original em espanhol, publicada em 2004, depois de esclarecer que as idéias do reverenciado escritor argentino “não foram o ponto de partida de nenhum texto, a não ser pelo fato de que cada história, a partir de uma série de associações naturais, se encontrava com Borges”, Sigman declara sua intenção de homenageá-lo. “De alguma maneira espero que este, meu livro, seja uma pequena e modesta homenagem, um testemunho seguramente desnecessário de seu conhecimento profundo e intuição sobre a fenomenologia da mente, a memória, a teoria das representações, os sonhos”, diz ele. Mais que na linguagem, entretanto, ou na narração de cada história, é na estranheza que consegue imprimir a cada dado, achado ou observação científica que comenta em suas crônicas que Sigman traz à nossa lembrança sonoridades de Borges. É pelo insólito do olhar que a ciência e o conhecimento nessas crônicas ganham uma dimensão de fabulação extraordinária e, por isso mesmo, uma carga de atração comparável à das melhores ficções.

Não há dúvida, contudo, que é divulgação científica o que faz Sigman, um neurocientista de 35 anos, formado físico pela Universidade de Buenos Aires, doutorado em neurociências pela Rockfeller University, de Nova York, e, desde 2005, professor da Universidade de Barcelona, ao mesmo tempo em que é pesquisador do Laboratório de Neuroimagens Cognitivas do Inserm, de Paris. Os textos que integram O breve lapso entre o ovo e a galinha foram escritos entre 1998 e 2004 para a revista argentina 3 Puntos, em sua maior parte, enquanto alguns outros se destinaram a Le Monde Diplomatique, e se ligam tanto a temas mais contingentes quanto a indagações radicais que têm movido os cientistas desde que a cultura humana começou a erigir qualquer coisa que se pôde denominar ciência. Assim, os genes, a C. elegans, os experimentos dos físicos com a sincronicidade, estão presentes nas páginas do livro de Sigman tanto quanto os desdobramentos contemporâneos do darwinismo e os efeitos dos primeiros cálculos da idade do Universo feitos por Edwin Hubble no começo do século XX. Mas em qualquer tema flagra-se um certo ponto de vista original, às vezes quase sarcástico, que faz de Sigman um divulgador muito diferente do usual.

Veja-se para ilustrar essa diferença um trecho da crônica Juvenilia: “Os elefantes machos começam a ser férteis por volta dos dezoito anos, porém dificilmente se reproduzem antes dos trinta. Em média, atravessam uma violenta prática biológica e social chamada musth. Durante esse período, as bochechas do elefante derramam lágrimas de um azeite com cheiro de almíscar e seu pênis ereto expulsa, de maneira contínua, uma enorme quantidade de urina que jorra entre as pernas”. Sigman  vai falar em seguida de experiências da pesquisadora Joyce Poole que demonstraram que a presença de velhos elefantes inibia o musth nos mais jovens, de tal forma que se conseguia construir entre eles, como entre outros animais, vias para uma convivência menos agressiva do grupo. O texto termina com a observação de que “somos uma espécie, mais uma, e jogamos o mesmo jogo que os elefantes e os rinocerontes. Só que nós resolvemos o nosso musth no divã”. Em uma crônica de natureza bem diversa, tratando das teorias da origem do Universo e de seu provável desenvolvimento, Sigman observa em certo ponto que “por uma longa série de razões a ciência acaba sendo vendida em latas de cores. A divulgação da ciência é triunfalista e sensacionalista, sem perder tempo em discussões de métodos ou nas histórias que desembocam nos diferentes resultados”. De fato, quem lida com divulgação científica sabe que quase sempre é assim.

Não é fácil, certamente, resumir as muitas facetas da visível iconoclastia do autor, multiplicada por quase quatro dezenas de textos. Como diz no prefácio para a edição brasileira o neurocientista Sidarta Ribeiro, Sigman, entre outros traços, “um neuro-hedonista que celebra a ciência para a fruição humana”, em O breve lapso entre o ovo e a galinha “faz uma crítica anárquica da valorização científica do ego, pulsando de inconformidade com a tragédia humana. Fala da ciência da vida, assim como da vida vista pela ciência, em toda a minúcia de sua práxis, seus vai-e-vens, desacertos e descaminhos”. Assim é – sem esquecer de Borges.

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