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Obituário

O cardiologista Fulvio Pileggi morre aos 93 anos

Médico transformou o Instituto do Coração (InCor) em uma das mais importantes instituições de pesquisa e atendimento médico do mundo

Pileggi em 2009, na solenidade de premiação da Fundação Conrado Wessel

Eduardo Cesar

O cardiologista Fulvio Pileggi acompanhou toda a trajetória de formação do Instituto do Coração (InCor) da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FM-USP). Primeiro viu as gestões para a criação da instituição, no início dos anos 1960; depois participou da inauguração do prédio para atendimento de pacientes, em 1977; por fim, como seu diretor-geral, de 1982 a 1997. Para alguns dos médicos e pesquisadores que trabalharam com ele, foi o grande responsável pela transformação do InCor em um dos mais importantes centros de pesquisa e assistência médica do mundo. Sua estratégia principal consistia em atrair os profissionais mais talentosos, oferecer boas condições de trabalho e incentivá-los constantemente; depois, cobrar com a mesma insistência. Pileggi morreu no dia 4 de abril, aos 93 anos, e deixou quatro filhos – Fulvio, Renata, Roberta e José Carlos – e oito netos.

“Ele trouxe a ciência para o InCor. Começamos a produzir mais pesquisa cardiológica do que toda a América Latina”, conta o cardiologista Protásio Lemos da Luz, pesquisador sênior do InCor que trabalhou com Pileggi por mais de 20 anos. Luz foi o primeiro médico a realizar estudos nos Estados Unidos, durante o doutorado e, depois, como preparação para tornar-se pesquisador no centro. “Pileggi buscava padrões internacionais de excelência, investindo na área de pesquisa médica. Considero-o o maior responsável pela formação da notável instituição que é hoje o InCor.”

Entre os numerosos jovens pesquisadores que o cardiologista levou para o InCor estava o imunologista gaúcho Jorge Kalil, à época professor na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). “Ele me deu apoio técnico e liberdade para desenvolver aquilo que eu considerava mais importante para a minha pesquisa e para o InCor”, conta Kalil, que posteriormente foi presidente do instituto, entre 2006 e 2008, e do Conselho da Fundação Zerbini, instituição responsável por gerir o InCor, entre 2006-2017.

Kalil, que começou estudando imunologia de transplante cardíaco, ampliou suas linhas de pesquisa e hoje é um dos cientistas trabalhando no desenvolvimento de uma vacina brasileira contra a Covid-19. “Ele buscava talentos fora da endogenia da Faculdade de Medicina”, conta Kalil. “Protegia os pesquisadores dos conflitos da universidade, aconselhava-os e apresentava-os a pessoas importantes.”

Dessa forma, Pileggi criou equipes multidisciplinares, sempre delegando responsabilidades e cobrando por resultados, mas também participando ativamente das pesquisas e oferecendo apoio. “Ele implementou as divisões de bioengenharia, experimentação, bioinformática, imunologia de transplante, biologia molecular e genética e cardiologia vascular”, conta Eduardo Moacyr Krieger, diretor-executivo da Comissão de Relações Internacionais (CRInt) da FM-USP e vice-presidente do Conselho Superior da FAPESP entre 2010 e 2019. “Ele trouxe tudo para debaixo do mesmo teto.”

“A bioengenharia, por exemplo, é a área responsável pela criação de máquinas extracorpóreas, como coração artificial e válvula, e exige inovação e pesquisa”, ressalta Krieger, que era professor no campus de Ribeirão Preto da USP quando o então diretor do InCor o convidou para dirigir a área de hipertensão.

As cobranças do médico eram constantes e não respeitavam fronteiras. Quando o cardiologista Fabio Jatene, diretor da Divisão de Cirurgia Cardiovascular e vice-presidente do Conselho Diretor do InCor, estava nos Estados Unidos em uma temporada de atualização científica, Pileggi ligava com frequência para saber das novidades. “Ele não aguentava esperar até a volta”, lembra Jatene.

Ao saber sobre um novo computador que fazia apresentações de slides, Pileggi se entusiasmou, fez a compra de várias máquinas e mandou entregar o aparelho no hotel de Jatene. “Eram 11 caixas grandes”, conta. “O equipamento ficou preso na alfândega e Pileggi foi pessoalmente providenciar a liberação. Depois, usou-os por muitos anos.” Os investimentos em informática foram uma marca de sua administração e permitiram implantar o prontuário eletrônico até eliminar o papel em 2002.

Gestão humanista
Como gestor, Pileggi queria saber de tudo. “Ele debatia questões específicas de alimentação dos pacientes com a diretora de nutrição, por exemplo”, conta Charles Mady, cardiologista e diretor da Unidade Clínica de Miocardiopatias e Doenças da Aorta do instituto. Não era tarefa trivial preparar a comida para 500 leitos, com variedades de dieta para pacientes diabéticos ou hipertensos, por exemplo. “Ele também falava com a enfermeira-chefe todos os dias, conhecia os problemas do momento e apresentava soluções”, diz o médico.

“Em sua clínica particular, Pileggi tratou os presidentes João Figueiredo (1918-1999) e José Sarney e o político Ulysses Guimarães (1916-1992) e atendia com a mesma solicitude, educação e cuidado os pacientes do SUS [Sistema Único de Saúde] em condições socioeconômicas desfavoráveis”, conta Luz. “Ele dizia que era preciso respeitar a pobreza e sempre priorizou o melhor e o mais moderno atendimento para todos.”

Os assistentes que contratava para trabalhar em sua clínica particular também eram convocados para atender pacientes do SUS. “Na época tínhamos um bipe e íamos até o orelhão pegar recados”, conta o cardiologista Roberto Kalil, diretor da Divisão de Cardiologia e hoje presidente do Conselho Diretor do InCor. “Quem não respondesse, estava fora da equipe.”

Como administrador, Pileggi tinha habilidades notáveis, como conseguir doações de pacientes ricos. Certa vez, quando recebeu a visita do presidente de um banco que havia feito cirurgia no InCor, disse que precisava de dinheiro para comprar um equipamento médico importante. Diante da relutância, foi firme: “Como seu médico, exijo que faça o pagamento, pois o hospital salvou a sua vida”, relata Mady. “O banqueiro pegou o telefone na mesma hora e ordenou a transferência.”

“Aprendi com Pileggi que um grande hospital não é apenas aquele que tem médicos qualificados e equipamentos de última geração, mas também o que contribui para o avanço da medicina e da ciência médica”, conta Celso Lafer, ministro das Relações Exteriores em 1992 e entre 2001 e 2002. “Só com pesquisa se faz um grande hospital.” Lafer conta que quando era presidente da FAPESP, entre 2007 e 2015, buscava conversar e aprender com Pileggi e outros pesquisadores do InCor sobre a relação entre o papel da pesquisa básica e aplicada na medicina. “Hoje isso é fundamental para o desenvolvimento de vacinas.”

Estrutura inicial
Contribuiu para a carreira de Pileggi o conhecimento que adquiriu durante a especialização no Instituto Nacional de Cardiologia do México, onde estudou por três anos depois de formado, entre 1955 e 1957, com uma bolsa da Fundação Rockefeller. Na época, era um dos centros mais importantes da área. No instituto mexicano o jovem médico trabalhou com dois especialistas da então nascente área de eletrocardiografia, Demetrio Sodi Pallarés (1913-2003) e Enrique Cabrera (1918-1964).

“A eletrocardiografia era difícil, mas eu gostava de física e matemática, o que me ajudava nesse campo”, contou Pileggi a Pesquisa FAPESP quando ganhou o prêmio da Fundação Conrado Wessel (FCW), em 2009, na categoria Medicina. “Quando Cabrera viajava, quem tomava conta do serviço de cardiologia era Pileggi, e não os alunos e os assistentes do mexicano”, comentou na mesma época o oncologista Ricardo Renzo Brentani (1937-2011), então presidente da Fundação Antonio Prudente, mantenedora do Hospital AC Camargo Cancer Center, e amigo do cardiologista brasileiro. “Foi ele quem estabeleceu as bases da eletrocardiografia no Brasil.”

Quando voltou do México, entrou na equipe clínica de Luiz Venere Décourt (1911-2007), chefe do Serviço de Cirurgia Cardíaca do Hospital das Clínicas (HC) da FM-USP, e conviveu com outro cardiologista consagrado, Euryclides de Jesus Zerbini (1912-1993). Décourt e Zerbini foram os responsáveis por unificar as áreas clínica e cirúrgica de cardiologia no HC. “Os fundamentos do instituto foram estabelecidos por Décour e Zerbini, mas quem implementou e deu todo o suporte científico para que o InCor se desenvolvesse foi Pileggi”, afirma Krieger. “Ele transformou a instituição, que era um hospital público do SUS dedicado a diagnóstico e tratamento, em um centro de pesquisa e formação de pessoas.”

Quando Pileggi assumiu o InCor, a tendência mundial era a medicina translacional, que propunha um maior investimento em pesquisa científica dentro dos hospitais, criando novos tratamentos e acelerando a transição dessas inovações do laboratório para a clínica e a cirurgia médica. O novo diretor-geral direcionou o instituto para esse novo padrão de excelência.

“Ele entrou na USP em 3º lugar, em 1947, no vestibular mais disputado do país. Quando contou ao pai, ele perguntou ‘por que não entrou em primeiro?’ Ele foi formado para cobrar e ser cobrado”, explica Mady. Professor titular de cardiologia da FM-USP até sua aposentadoria, em 1997, Pileggi publicou 488 artigos em revistas científicas nacionais e 233 em internacionais.

O cardiologista não vivia só para o trabalho, conta Mady. Palmeirense empedernido, era um apreciador de comida gourmet e bons vinhos, participando de confrarias. “Ele tinha muitos amigos e era fiel a eles. Era desbocado, irreverente, franco e amigo.” Também fugia dos holofotes da mídia e não ia atrás de pessoas poderosas, elas é que o procuravam. “O nome que aparecia sempre era o do instituto, nunca o dele”, conclui Mady.

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