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Resenhas

O criador de um pensamento

Raúl Prebisch (1901-1986) – A construção da América Latina e do Terceiro Mundo | Edgar J. Dosman, Tradução de Teresa Dias Carneiro/César Benjamin | Contraponto Editora, 656 páginas, R$ 48,00

Vida e tempo de Raúl Prebisch – o livro de Dosman resume os dois eixos deste notável trabalho de pesquisa. De um lado, a biografia de Prebisch – suas aventuras e desventuras. De outro, as grandes transformações do século XX: a agitada história da América Latina, de sua inserção subordinada na economia mundial e nos cálculos das grandes potências, sobretudo dos Estados Unidos. Juntados os planos, temos um documentário fascinante, revelador, instigante.

Prebisch aparece como o criador de uma escola de pensamento – enquadrava os países latino-americanos e do Terceiro Mundo, em geral, como a periferia do sistema capitalista, o polo inseparável do centro. Não temos aí apenas uma separação geográfica – Sul versus Norte, por exemplo. Nem apenas uma “especialização” de funções – países industrializados versus países agrários. Além dessas reais e visíveis separações, Prebisch mostra como são diferentes as lógicas de funcionamento dos dois tipos de sociedade e aponta a exigência de modelos intelectuais que sejam apropriados para a compreensão da periferia, coisa que a economia liberal de inspiração neoclássica era incapaz de prover. Talvez por isso alguns tenham apelidado don Raúl de “Keynes latino-americano”. Certa vez Prebisch confessou ter sido quase seduzido pela sereia liberal e seus sonhos de mercado autorregulado. Acrescentava, porém: veio a experiência da depressão, a “descoberta” da América Latina e foram abaixo tais crenças confortáveis.

Mas Prebisch foi também o criador de instituições – a Cepal, a Unctad. Curiosamente, no final de 1947, a administração do FMI lhe oferecera – e Prebisch aceitara – um lugar naquela entidade, o coração do “centro”. O casamento não se concretizou – Prebisch parecia incômodo para os verdadeiros donos do FMI. O convite não se completou, Tio Sam velava por suas sobrinhas. As opções se estreitavam – também as universidades norte-americanas se fechavam para ele. Enquanto isso, a ONU criava uma comissão econômica para planejar o desenvolvimento em longo prazo da Europa, organizada sob a direção de Gunnar Myrdal e Nicholas Kaldor. Logo em seguida, a ONU foi sendo empurrada pelos países latino-americanos (Chile e México, sobretudo) a criar a Comissão Econômica para a América Latina. O governo norte-americano se opunha – pensava em fortalecer sua união pan-americana e dar corpo à OEA, que alguns ironicamente apelidavam de “ministério de las colônias”. A Cepal é criada inicialmente como organização provisória, com bilhete a vencer em três anos. Sobrevive a este estágio probatório em grande parte devido a Prebisch e sua teimosia. Seu estudo de lançamento – O desenvolvimento econômico da América Latina e seus principais problemas – acabou por ser apelidado de Manifesto da Cepal. Retrato das pressões e contrapressões internas, a publicação foi patrocinada pela ONU, mas não assinada por ela. A apresentação escrita pelo secretário-geral afirmava que ali estavam opiniões do autor, não da organização…

De qualquer modo, o comandante levou o barco entre as tempestades, recrutando uma equipe de jovens e talentosos economistas. Alguns desses nomes foram desenhando a cara da Cepal: Aníbal Pinto, Osvaldo Sunkel, Medina Echavarría, Maria Conceição Tavares. Entre eles, o brasileiro Celso Furtado em pouco tempo destacou-se como a estrela maior da constelação – o que talvez lhe tenha custado algumas rusgas com o chefe e, enfim, seu desligamento da Cepal. Furtado personificava o analista, o pensador, a caixa de elaborações. Prebisch assumia muito mais claramente o papel de articulador e inventor de lemas, instituições, movimentos, algo que mais uma vez se comprovou quando se pôs a organizar a Unctad – uma tribuna não apenas dos países latino-americanos, mas do conjunto dos países ditos subdesenvolvidos.

Como todo profeta, segue sua marcha.

Reginaldo Moraes é filósofo e professor titular da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

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