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Arqueologia

O homem moderno entrou nas Américas mais de 30 mil anos atrás

Artefatos de pedra descobertos em caverna no México sugerem que o povoamento do continente se iniciou ainda antes do auge da última Idade do Gelo

Mikkel Pedersen, da Universidade de Copenhagen, busca DNA nos sedimentos da caverna

Devlin A. Gandy

A ocupação das Américas pelo Homo sapiens pode ter mais do que o dobro de tempo do sustentado pelas teorias tradicionais. Segundo dois artigos publicados hoje (22 de julho) na revista científica Nature, um deles com participação de pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), populações humanas estavam presentes na América do Norte por volta de 33 mil anos atrás, ainda antes do início do Último Máximo Glacial (UMG). Esse período, entre 26,5 mil e 19 mil anos atrás, representa o intervalo de tempo, durante a mais recente glaciação, em que as geleiras atingiram sua maior extensão no globo terrestre. Embora cada vez mais questionada ao longo das últimas décadas, a tese historicamente dominante na arqueologia norte-americana defende que a primeira cultura estabelecida no continente teria sido a de Clóvis, preservada em sítios de cerca de 13 mil anos, ricos em pontas de lança bifaciais, situados no estado norte-americano do Novo México.

Um dos novos estudos apresenta mais de 1.900 artefatos de pedra (pontas, lâminas e lascas), aparentemente trabalhados por mãos humanas, encontrados em um sítio arqueológico situado a 2.700 metros acima do nível do mar no centro-norte do México, a caverna Chiquihuite, no estado de Zacatecas. Segundo os autores do artigo, as peças (e de forma menos eloquente vestígios de plantas, animais e fogueiras) indicam que o lugar teria sido ocupado de forma intermitente entre 30 mil e 13 mil anos atrás. “A caverna deve ter sido usada como um abrigo de inverno ou verão por diferentes populações, não como moradia fixa”, diz o arqueólogo Ciprian Ardelean, da Universidade Autônoma de Zacatecas e da Universidade de Exeter, no Reino Unido, principal autor do artigo. “Ali dentro a temperatura é constante, por volta de 12 graus Celsius (ºC), independentemente das condições externas.” Não foram localizadas ossadas nem DNA humano em Chiquihuite.

Escavada pela primeira vez em 2012 e mais recentemente entre 2016 e 2017, a caverna forneceu indícios de que grupos humanos teriam habitado a região montanhosa antes, durante e depois do UMG. De difícil acesso, o local é hoje dominado por narcotraficantes. Ardelean e seus colegas reconhecem que a presença de nativos das Américas na caverna não teria sido frequente antes do UMG (eles encontraram poucos artefatos de pedra que teriam idade superior a 26,5 mil anos), mas dizem que as evidências de uma ocupação muito antiga são consistentes. Foram feitas 49 datações de sedimentos, ossos de animais e carvões de fogueiras achados no interior do abrigo.

Ciprian ArdeleanArtefato de pedra encontrado abaixo da camada do Último Máximo Glacial na caverna ChiquihuiteCiprian Ardelean

A arqueóloga britânica Jennifer Watling, pesquisadora responsável por projeto no programa Jovem Pesquisador da FAPESP no Museu de Arqueologia e Etnologia (MAE) da USP, é uma dos 28 coautores do estudo, ao lado do engenheiro-agrônomo Paulo Eduardo de Oliveira, do Laboratório de Micropaleontologia do Instituto de Geociências (IGc) da USP, e de Vanda Brito de Medeiros, cujo doutorado foi orientado por Oliveira. O trio de pesquisadores da instituição paulista fez a reconstituição das plantas que deveriam existir ou foram levadas para dentro da caverna a partir de vestígios de pólen e de fitólitos, estruturas microscópicas compostas de dióxido de silício, que se preservam como testemunhos de espécies vegetais do passado. Além de fitólitos mais escurecidos do que o normal (uma pista de que o abrigo pode ter sido palco de fogueiras), a caverna apresentava resíduos de palmeiras. Essa planta é considerada muito útil para os seres humanos e dificilmente teria chegado ao abrigo por meios naturais. “Hoje há pouquíssimas palmeiras naquela região. Podemos supor que, em uma época mais fria, o hábitat delas era ainda mais longe”, comenta Watling.

Os autores do estudo sobre Chiquihuite evitam especular quem seriam os povos que passavam temporadas na caverna, nem de onde vieram e para onde foram. O segundo estudo publicado na Nature fornece algumas hipóteses para essa questão. Nesse trabalho, foi feita uma análise estatística a partir de datações obtidas em 42 sítios arqueológicos da América do Norte (inclusive da caverna em Zacatecas) e da antiga Beríngia, região que ligava a Sibéria, na Rússia, ao Alasca, nos Estados Unidos (hoje mais ou menos equivalente ao estreito de Bering). O conjunto de sítios forneceu uma cronologia aproximada para a ocupação de diferentes partes da região e sinaliza que havia grupos humanos antes, durante e depois do UMG, ou seja, há pelo menos 30 mil anos.

Mas apenas depois de uma forte mudança climática a presença humana ganhou mais corpo. Toda a América do Norte já estaria povoada cerca de 15 mil anos atrás, quando as temperaturas subiram no fim da Idade do Gelo. “Três grandes tradições de artefatos de pedra se expandiram de forma quase sincronizada nessa época, a cultura Clóvis, a da Beríngia e a Ocidental, na costa oeste”, explica a arqueóloga chilena Lorena Becerra-Valdivia, da Universidade de Nova Gales do Sul, da Austrália, e da Universidade de Oxford, no Reino Unido, principal autora do estudo. Os artefatos de pedra achados na caverna mexicana, no entanto, não parecem ter relação com nenhuma dessas três culturas líticas.

De acordo com Becerra-Valdivia, a expansão do povoamento na América do Norte por volta de 15 mil anos atrás pode ter contribuído para o desaparecimento de espécies da megafauna, como mamutes e alguns tipos de camelos e de cavalos, embora não possa ser descartada a influência das mudanças climáticas. “Nosso trabalho sugere que as dispersões iniciais de grupos humanos no continente ocorreram entre 57 mil e 29 mil anos atrás, quando a Beríngia estava completa ou parcialmente debaixo d’água”, explica a arqueóloga. Se a hipótese estiver correta, ganha ainda mais relevância a teoria alternativa de que as primeiras levas de Homo sapiens teriam entrado na América do Norte pela via costeira do Pacífico.

Os dois novos artigos científicos também podem servir para que sítios da América do Sul que parecem abrigar artefatos de pedra mais velhos do que a cultura Clóvis passem a ser vistos com mais atenção pelos estudiosos radicados acima da linha do Equador. “Seis sítios arqueológicos brasileiros datados com mais de 20 mil anos, cinco no estado do Piauí e um no centro de Mato Grosso (o abrigo de pedras Santa Elina), apesar de habilmente escavados e analisados, são usualmente questionados ou simplesmente ignorados pela maioria dos arqueólogos como velhos demais para serem reais”, escreve Ruth Gruhn, professora emérita do Departamento de Antropologia, da Universidade de Alberta, no Canadá, em artigo de comentário também publicado hoje na Nature. “Os achados na caverna de Chiquihuite trarão novas considerações sobre esse tema.”

Artigo científico

ARDELEAN, C. F. et al. Evidence of human occupation in Mexico around the Last Glacial Maximum. Nature. 22 jul. 2020.

BECERRA-VALDIVIA, L. & HIGHAM, T. The timing and effect of the earliest human arrivals in North AmericaNature. 22 jul. 2020.

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