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Memória

O médico brasileiro Galdino Ramos ajudou a moldar a ciência das impressões digitais

Estudo de 1906 feito por piauiense mostrava a eficácia da papiloscopia para identificação de pessoas

Os 44 pontos assinalam pontos característicos e indicam que a digital é da mesma pessoa, antes e depois da cicatriz que cortou as linhas

Léo Ramos Chaves / Revista Pesquisa FAPESP / Museu da Polícia Civil do Estado de São Paulo

Em 18 de março de 1976, o pianista brasileiro Francisco Tenório Júnior, que integrava a turnê de Vinicius de Moraes (1913-1980) e Toquinho pela América Latina, saiu sozinho durante a madrugada de um hotel em Buenos Aires, na Argentina, para comer. Não voltou mais. No ano passado, quase meio século depois, foram as impressões digitais que permitiram identificar seus restos mortais e encerrar um episódio traumático da repressão política no continente. O caso de Tenório, assassinado aos 35 anos, ajuda a explicar por que a papiloscopia – a ciência que estuda os relevos da pele para a identificação humana – continua a ser uma ferramenta central da ciência forense, dentro e fora do universo policial.

Muito antes de bancos de dados digitais e sistemas automatizados de comparação, popularizados por filmes policiais, a ideia de que marcas deixadas pela pele poderiam servir como prova científica começou a ser sistematizada no início do século XX. Embora nomes como o do polímata britânico Francis Galton (1822-1911) e dos franceses Victor Balthazard (1872-1950) e Edmond Locard (1877-1966), pioneiros da ciência forense, apareçam com frequência nessa história, um dos trabalhos decisivos para a consolidação da área surgiu no Brasil.

Em 1906, o médico Galdino Ramos (1880-1964), nascido em Picos, no Piauí, defendeu na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro a tese “Da identificação”, um estudo que analisou criticamente os métodos disponíveis à época e sustentou, com base científica, a superioridade das impressões digitais – inclusive em fragmentos parciais – como meio confiável de identificação humana. Na época, tese era uma monografia feita como conclusão da graduação, obrigatória para os médicos, e não o resultado de um doutorado como se conhece hoje. Durante um congresso científico realizado no Rio de Janeiro em 1905, ele encontrou a questão que se tornou central em sua tese: qual o sistema preferível para a identificação de indivíduos, o antropométrico (medições corporais) ou o dactiloscópico (impressões digitais)?

RAMOS, G. Da identificação. 1906Retrato de Galdino Ramos em 1905, aos 25 anosRAMOS, G. Da identificação. 1906

Segundo o estudo publicado em maio de 2025 no Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi, de autoria do papiloscopista Gabriel Ângelo da Silva Gomes, da Polícia Federal do Paraná, após ter escrito a tese, Ramos manteve uma atuação intelectual ativa. A partir de 1909, foi redator da revista Amazonas Médico. “A publicação tinha como proposta a produção de conteúdo científico para a região amazônica, algo inovador na época, e incluía artigos sobre datiloscopia”, afirma a historiadora e bibliotecária Maria Cláudia Santiago, do Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde da Fundação Oswaldo Cruz (Icict-Fiocruz). Em 1918, Ramos tornou-se o primeiro diretor do Gabinete de Identificação do Amazonas, que contribuiu para a expansão dos serviços de identificação civil e criminal no Norte do país. Além de trabalhar como médico, foi professor na Faculdade de Medicina em Manaus. Em 1926, elegeu-se deputado estadual no Amazonas.

Embora seu nome tenha permanecido por décadas à margem das narrativas clássicas da ciência forense, segundo Santiago, suas ideias circularam entre pesquisadores de dentro e fora do Brasil. É nesse contexto que se situa a datiloscopia, técnica da papiloscopia voltada especificamente à identificação por impressões digitais. Cada impressão digital é formada pelos desenhos em relevo da pele na ponta dos dedos, conhecidos como cristas papilares, que surgem ainda durante a gestação e permanecem praticamente inalterados ao longo da vida. Ao tocar uma superfície, esses relevos podem deixar marcas visíveis ou invisíveis, passíveis de serem coletadas, reveladas e comparadas com registros existentes. Um dos princípios básicos da datiloscopia é que não existem duas impressões digitais iguais, nem mesmo entre gêmeos idênticos. Na análise, os peritos observam pequenos detalhes do traçado – como pontos onde as linhas terminam ou se bifurcam – que funcionam como uma espécie de assinatura da pele, permitindo confirmar a identidade de uma pessoa mesmo a partir de fragmentos de uma impressão.

Junto com os exames de DNA e de arcada dentária, a identificação a partir das impressões (digitais, palmares ou da planta dos pés) é considerada um dos métodos primários de identificação. A escolha entre eles depende do contexto e do tipo de material disponível. A papiloscopia se destaca por ser rápida, de baixo custo e pouco invasiva, o que a torna altamente eficiente na maioria das situações rotineiras, como investigações criminais e identificação civil. Já o DNA e a análise odontológica ganham importância em cenários mais complexos, como desastres em massa ou casos em que o corpo está muito degradado e as impressões digitais não podem ser utilizadas.

Keystone /  Hulton Archive / Getty ImagesEdmond Locard, pioneiro da ciência forense na França que acompanhou o trabalho de Galdino Ramos, com a coleção de armas confiscadas de criminososKeystone /  Hulton Archive / Getty Images

Ao articular conhecimentos de medicina legal, estatística e prática policial, Ramos ajudou a estabelecer princípios que mais tarde seriam incorporados à formulação clássica da papiloscopia moderna. “Havia uma grande dúvida sobre qual era o método mais adequado para a identificação de indivíduos, e foi essa pergunta que o Galdino quis responder em sua tese”, afirma Gomes, que integra o grupo de pesquisa em papiloscopia forense da Academia Nacional de Polícia da Polícia Federal.

Ramos examinou os procedimentos então utilizados para a identificação, como marcas corporais e tatuagens, e avaliou o sistema antropométrico do criminologista francês Alphonse Bertillon (1853-1914), baseado em medições do corpo humano. Apontou suas limitações, sobretudo a variabilidade do corpo ao longo do tempo e os erros associados à medição, e discutiu métodos alternativos, como os baseados em características oculares, considerados pouco viáveis na prática. Em seguida, voltou-se para a datiloscopia, com ênfase no sistema desenvolvido pelo antropólogo croata-argentino Juan Vucetich (1858-1925), analisando sua base biológica, estabilidade ao longo da vida, capacidade de classificação e potencial estatístico. Segundo Gomes, a partir dessa comparação, Ramos concluiu que as impressões digitais ofereciam o meio mais confiável, preciso e aplicável para a identificação humana.

PEARSON, K. The life, letters and labours of Francis Galton. 1914Padrões de linhas de digitais da mão direita analisados no livro Finger prints, publicado por Francis Galton em 1892PEARSON, K. The life, letters and labours of Francis Galton. 1914

“Da identificação” foi uma das bases utilizadas por Locard na formulação da chamada regra tripartite da identificação por impressões digitais, um dos primeiros esforços para estabelecer critérios de confiabilidade a partir da coincidência de pontos característicos em impressões incompletas.

De acordo com Gomes, a contribuição de Ramos foi particularmente importante para o debate sobre suficiência – quantos elementos seriam necessários para sustentar uma identificação – tema que permanece importante na ciência forense contemporânea. Mesmo citada de forma indireta ou incompleta por autores posteriores, seu estudo ajudou a consolidar a noção de que fragmentos de impressões digitais podem ter alto valor identificatório.

Domínio público | NLM/NIHJuan Vucetich, antropólogo e policial croata-argentino que dialogava com Galdino Ramos, e um cartão de 1912 com suas próprias digitaisDomínio público | NLM/NIH

A tese pode ter se tornado conhecida no circuito internacional por diferentes caminhos. Como mostra Gomes em artigo publicado no Journal of Forensic Identification em julho de 2024, Locard já acompanhava atentamente, antes mesmo de 1906, o desenvolvimento da datiloscopia na América do Sul, como indicam textos em que analisou o sistema de Vucetich e a produção sul-americana sobre identificação por impressões digitais. É plausível que o estudo de Ramos tenha chegado ao conhecimento de Locard inserido nesse acompanhamento do que se produzia fora da Europa. Há também a hipótese de um contato posterior: o brasileiro esteve em Paris entre 1911 e 1912, período que antecede a publicação, em 1914, da regra tripartite de Locard – justamente o trabalho em que ele é citado. Somam-se a isso as redes pessoais e institucionais da época, já que Ramos dialogava com Vucetich e com o jornalista Félix Pacheco (1839-1935), responsável por traduzir textos de Locard para o português. Embora não haja evidência de uma tradução formal do estudo para outras línguas, Gomes argumenta que o texto provavelmente circulou em português dentro dessas redes especializadas, o que ajuda a explicar tanto sua influência quanto os equívocos posteriores – como a atribuição indevida a Ramos de um cálculo probabilístico originalmente proposto por outros autores.

A redescoberta da tese ocorreu mais de um século após sua defesa, a partir de uma inquietação acadêmica. Durante o mestrado em estatística na Universidade de Brasília (UnB), Gomes encontrou referências recorrentes a Ramos em textos de autores consagrados da ciência forense internacional, os quais deixaram explícito que não puderam encontrar a obra original. O pesquisador recorreu então à biblioteca de obras raras da Fiocruz, no qual, com o apoio de Santiago, o estudo foi localizado nos arquivos da Academia Nacional de Medicina. A partir daí, teve início um trabalho sistemático de resgate da memória científica de Ramos, conduzido por Gomes em parceria com Santiago e com o orientador de mestrado na UnB, o físico e estatístico Raul Matsushita. O esforço resultou na análise detalhada da tese e na recuperação do papel do médico piauiense na história da papiloscopia.

A identificação por meio da digital  depende da  combinação entre  tipos e raridade dos  desenhos da pele

Esse resgate histórico ajuda a entender como os critérios de identificação por impressões digitais se transformaram ao longo do tempo. No início do século passado, a regra tripartite de Locard levava em conta quantidade e qualidade dos pontos coincidentes que podiam ser identificados. Com o passar das décadas, essa abordagem foi simplificada e cristalizada na chamada regra dos 12 pontos, adotada como critério fixo e, por muito tempo, considerada como incontestável em diversos países, incluindo o Brasil.

A papiloscopia contemporânea, no entanto, vem revisitando esse modelo à luz de novas evidências. Um exemplo são estudos publicados em 2024 por Gomes e outros especialistas na Revista Brasileira de Ciências Policiais e na Forensic Science International, que analisaram dezenas de milhares de minúcias em impressões de diferentes dedos, padrões e grupos populacionais. Na papiloscopia, os chamados pontos característicos – ou minúcias – são pequenos detalhes do desenho das cristas da pele, como bifurcações, convergências e ilhotas, que funcionam como marcadores usados na comparação de impressões digitais. O que diferencia esses pontos não é apenas sua forma, mas a frequência com que aparecem na população. O estudo feito por Gomes mostra que alguns pontos característicos da impressão digital são extremamente comuns, enquanto outros são raros. Esses achados corroboram a ideia de que a força identificatória de uma impressão não depende de um número fixo de coincidências, mas da combinação entre tipo, raridade e contexto das minúcias, além da qualidade da marca analisada.

Léo Ramos Chaves / Revista Pesquisa FAPESPAtualmente, as digitais servem também para desbloquear o celular e outros aparelhos eletrônicosLéo Ramos Chaves / Revista Pesquisa FAPESP

Também a inteligência artificial vem transformando a papiloscopia. Um estudo publicado em 2024 na revista Science Advances, do estudante de ciência da computação Gabe Guo, da Universidade Columbia, nos Estados Unidos, questionou a ideia de que impressões digitais de dedos diferentes de uma mesma pessoa não teriam semelhanças relevantes entre si. Usando algoritmos de redes neurais profundas, os pesquisadores mostraram que essas semelhanças existem e podem ser detectadas com alto grau de confiança. Na prática, isso pode ter impacto direto em investigações criminais. Em cenas de crime, é comum encontrar fragmentos de impressões digitais sem saber de qual dedo vieram. Segundo o estudo, essas marcas poderiam ser usadas para reduzir o número de possíveis suspeitos nos bancos de dados, funcionando como um filtro preliminar antes da análise pericial tradicional.

“O campo está passando por uma transição”, resume Matsushita. “A área começa a operar de forma cada vez mais multidisciplinar e incorpora modelos computacionais capazes de lidar com grandes volumes de dados e padrões complexos.” São ferramentas, ressalta o estatístico, que não substituem o trabalho do perito, apenas ampliam as possibilidades de identificação.

A reportagem acima foi publicada com o título “Na ponta dos dedos” na edição impressa nº 360, de fevereiro de 2026.

Artigos científicos
GOMES, G. A. S. e MATSUSHITA, R. Y. Review of Da Identificação by Galdino Ramos. Journal of Forensic Identification. v. 184, n. 74. jul. 2024.
GOMES, G. A. S. Distribuições de frequências das minúcias em impressões digitais: Uma perspectiva estatística sobre sexo, tipo de dedo e padrão fundamental. Revista Brasileira de Ciências Policiais. maio 2024.
GOMES, G. A. S. et al. ‘Prazer, meu nome é Galdino Ramos’: Uma biografia científica de um pioneiro da identificação forense no Brasil. Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências Humanas. v. 30, n. 3. maio 2025.
GUO, G. et al. Unveiling intra-person fingerprint similarity via deep contrastive learning. Science Advances. v. 10, n. 4, eadi0329. jan. 2024.

Livros
GALTON, F. Finger prints. London: Macmillan. 1892.
PEARSON, K. The life, letters and labours of Francis Galton.​ Cambridge: Cambridge Univesity Press​. 1914.

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