Guia Covid-19
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Pandemia

O possível impacto da vacina contra Covid-19 sobre os tubarões

Entidade conservacionista alerta que produção em massa do imunizante contra o novo coronavírus poderá causar a morte de milhares de animais

Glenda / Pexels.com Substância extraída do fígado dos tubarões é usada na produção de algumas vacinas em desenvolvimento contra Covid-19Glenda / Pexels.com

A produção dos bilhões de doses de vacinas necessárias para imunizar a população mundial contra o vírus Sars-CoV-2, causador da Covid-19, poderá levar à pesca predatória de tubarões e causar a morte de até 500 mil animais. O alerta é da organização não governamental (ONG) Shark Allies (aliados dos tubarões, em português), com sede na Califórnia, nos Estados Unidos, que luta pela conservação da espécie. Parte das candidatas a vacina contra o novo coronavírus emprega um ingrediente, chamado esqualeno, cuja principal fonte é um óleo produzido no fígado dos tubarões. A substância também é encontrada em alguns vegetais, como azeitona e palma, mas seu processo de extração é mais dispendioso.

“Todos os produtos derivados de tubarões contribuem para a pesca excessiva e para a morte de entre 70 e 100 milhões de indivíduos por ano”, afirmou a Pesquisa FAPESP a bióloga Stephanie Brendl, fundadora e diretora-executiva da Shark Allies. “Os laboratórios farmacêuticos têm tradicionalmente usado o esqualeno de tubarões para produzir vacinas contra a gripe. Como a atual e as possíveis futuras pandemias de coronavírus são um problema global, com bilhões de pessoas necessitando ser vacinadas ano a ano, a quantidade de esqualeno necessária para a produção de vacinas será significativa.”

O esqualeno, um composto orgânico da família dos antioxidantes, é usado pela indústria farmacêutica na formulação de adjuvantes para vacinas. Adjuvantes são agentes que ampliam a eficácia das vacinas ao provocar uma resposta imunológica mais robusta do organismo. Também é empregado pelo setor de cosméticos como aditivo em cremes, batons e protetores solares.

O esqualeno é naturalmente encontrado em plantas, animais e humanos, onde tem a função de lubrificar e proteger a pele. “Ele é produzido no fígado de todas as pessoas e circula em nossa corrente sanguínea”, informa documento da Organização Mundial da Saúde (OMS) intitulado Squalene-based adjuvants in vacines. De acordo com a entidade, o esqualeno é comercialmente extraído do óleo de peixe e, em particular, do óleo de fígado de tubarão. “A substância utilizada em vacinas e produtos farmacêuticos é purificada a partir dessa fonte”, diz o texto.

Segundo o engenheiro de pesca Fábio Hazin, do Departamento de Pesca da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), a substância tem papel importante na flutuabilidade dos tubarões. “Espécies que habitam maiores profundidades produzem mais esqualeno; elas vivem mais e se desenvolvem mais lentamente. Por isso, se passarem a ser caçadas em larga escala, podem correr risco. Essa é uma preocupação real”, diz.

Seqirus Fábrica de vacinas da Seqirus: farmacêutica usa esqualeno em seus imunizantesSeqirus

Gripe e Covid-19
O esqualeno é usado há alguns anos pela farmacêutica GlaxoSmithKline (GSK), do Reino Unido, na produção de vacinas contra alguns tipos de influenza, entre elas a provocada pelo vírus H1N1. Causador da gripe suína, o H1N1 foi responsável por um surto pandêmico em 2009. Outra companhia britânica, Seqirus, uma das líderes globais na produção de vacinas contra a gripe, também usa em seus imunizantes um adjuvante, denominado MF59, fabricado pela multinacional suíça Novartis a partir de esqualeno de tubarão. O ingrediente integra a fórmula da vacina Fluad, destinada a proteger pessoas com 65 anos ou mais contra influenza, segundo os Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos Estados Unidos.

“O uso de adjuvante é de particular importância numa situação de pandemia, uma vez que ele pode reduzir a quantidade de antígeno necessário por dose, permitindo que mais doses de vacina possam ser produzidas”, informa a farmacêutica GSK em seu website em uma seção de esclarecimentos sobre a Covid-19. “O esqualeno é um ingrediente essencial do nosso sistema adjuvante.”

Em maio deste ano, o laboratório anunciou que planeja fabricar 1 bilhão de doses de seu adjuvante AS03 para uso em vacinas contra o novo coronavírus. Cada dose do produto contém 10 miligramas (mg) de esqualeno – quantidade similar à encontrada no adjuvante MF59 da Novartis.

Das mais de duas centenas de candidatas a vacina contra o Sars-CoV-2 atualmente em estudos clínicos e pré-clínicos, cerca de 20 têm adjuvantes em sua fórmula. Cinco desses imunizantes, segundo a Shark Allies, recorrem a esqualeno extraído do fígado de tubarão. São as candidatas da farmacêutica francesa Sanofi Pasteur; da Universidade de Queensland e da biofarmacêutica CSL, da Austrália; da companhia chinesa Clover Biopharmaceuticals; da empresa canadense Medicago; e do laboratório Farmacologicos Veterinarios SAC e da Universidade Peruana Cayetana Heredia, ambos no Peru.

Alguns dos imunizantes mais promissores em fase final de desenvolvimento não estão na lista da ONG de companhias que usam adjuvantes extraídos de tubarões. Os das farmacêuticas norte-americanas Moderna e Pfizer, do consórcio britânico formado pela Universidade de Oxford e pelo laboratório AstraZeneca, e o da farmacêutica chinesa Sinovac não utilizam o esqualeno.

Os testes clínicos das vacinas da Sinovac e da AstraZeneca/Oxford são realizados no Brasil em conjunto com o Instituto Butantan e a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), respectivamente. “A vacina de Oxford não usa esse componente [esqualeno]”, informa Elena Caride, gerente do Programa de Vacinas Virais do Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos (Bio-Manguinhos) da Fiocruz. “Bio-Manguinhos não tem nenhuma vacina na sua carteira de produtos que use esqualeno. Os adjuvantes das nossas vacinas são à base de alumínio.”

Pesquisa FAPESP também entrou em contato com o Instituto Butantan para confirmar se o imunizante da Sinovac não utiliza adjuvante baseado em esqualeno de tubarão, mas não obteve resposta até a conclusão desta reportagem.

De acordo com a Shark Allies, para imunizar toda a população mundial contra o novo coronavírus com uma única dose de vacina que utilize adjuvante à base de esqualeno será necessário extrair a substância de 250 mil tubarões; se forem duas doses, a quantidade de animais dobra. O cálculo leva em conta o volume médio de esqualeno encontrado no fígado dos animais e a quantidade necessária para a produção de adjuvantes. A estimativa da entidade é que entre 2,5 mil e 3 mil tubarões são necessários para obtenção de uma tonelada de óleo de fígado, composto principalmente por esqualeno.

Em entrevista dada ao jornal The New York Times, a especialista em tubarões Catherine MacDonald, diretora da Field School, instituição de ensino e pesquisa focada no ambiente marinho, e colaboradora da Universidade de Miami, ambas na Flórida (EUA), destaca que se trata de uma conta difícil de ser realizada, já que existem mais de 500 espécies de tubarões no mundo, que variam em tamanho, peso e quantidade de substância no fígado. Além disso, nem todo tubarão é morto apenas por causa do esqualeno – em muitos casos, o interesse principal é por sua carne ou barbatanas.

“É impossível separar quantos tubarões são capturados exclusivamente pelo esqualeno”, diz Brendl. “O ponto não é se serão 250 mil ou 500 mil tubarões mortos, mas o fato de que a necessidade de extração da substância para tornar viável a produção de vacinas contra o Sars-CoV-2 torna esses animais mais valiosos e irá contribuir para sua pesca excessiva. O uso de esqualeno de tubarões para a produção de vacinas não é sustentável.”

Esqualeno sintético
Em uma petição on-line, a entidade californiana clama pelo fim do uso em vacinas do composto extraído de tubarões e pede que se invista em produtos alternativos. “O esqualeno de tubarão não é um ingrediente único ou ‘mágico’. A estrutura química do composto [C30H50] é idêntica em tubarões e em alternativas não animais, o que significa que sua eficácia em vacinas deve ser a mesma, independentemente de sua origem”, destaca o abaixo-assinado, que até 25 de novembro já havia obtido mais de 110 mil apoios.

“As soluções são claras. Um esqualeno sintético produzido a partir de cana-de-açúcar já está sendo fabricado em massa. Ele é tão puro e econômico quanto o composto de tubarão, e está sendo testado pelas farmacêuticas. Bilhões de doses do produto podem ser fabricados por mês. No longo prazo, será uma alternativa muito mais controlável e confiável do que a oriunda de tubarão”, diz Brendl.

Ela se refere ao esqualeno sintético criado pela empresa norte-americana de biotecnologia Amyris, com sede em Emeryville, no Vale do Silício, Califórnia. Com um portfólio de 3 mil produtos destinados aos setores de saúde e beleza, a Amyris produz o composto a partir do farneseno, uma molécula de hidrocarboneto extraída da cana, que também pode ser transformada em combustível para caminhões, ônibus e tratores. A companhia, que tem unidades no interior paulista, espera iniciar a fabricação e a comercialização de seu esqualeno vegetal para a formulação de adjuvantes para vacinas até o final deste ano.

“Estamos comprometidos em atender às necessidades mundiais de esqualeno sustentável de alto desempenho e baixo custo sem matar um único tubarão”, informou John Melo, presidente da Amyris, por meio de nota ao mercado. “Acreditamos que isso é essencial para responder a pandemias e fornecer vacinas para todas as pessoas necessitadas em nosso planeta.”

A edição 299 da revista Pesquisa Fapesp traz uma versão reduzida desta nota.

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