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Especial Einstein

Olival Freire: O dossiê do FBI

Historiador da ciência apresenta um ativista contra as disparidades raciais nos Estados Unidos

Olival Freire: antirracismo ativo revelado

marcia minilloOlival Freire: antirracismo ativo reveladomarcia minillo

Ícone cultural do século XX, Albert Einstein não é só conhecido por suas contribuições à física. Ele também adotou posturas políticas claras como ser pacifista e se recusar a apoiar a Alemanha durante a Primeira Guerra Mundial. Na Segunda, ele chegou a defender que as nações democráticas deveriam se armar para enfrentar a ameaça nazista. Mas foi de uma faceta menos conhecida que Olival Freire, da Universidade Federal da Bahia (UFBA), tratou na palestra “O dossiê Einstein no FBI: a documentação de sua luta pelos direitos civis”, no dia 25 de outubro: a de opositor da segregação racial nos Estados Unidos.

Apesar de só ter vindo à tona em 2002, quando o jornalista Fred Jerome publicou o livro The Einstein file, os dados em que ele se baseou são públicos e estão disponíveis no site do FBI. A abundante documentação em que o jornalista norte-americano se apoiou é resultado da investigação conduzida por Edgar Hoover, “diretor quase eterno do FBI”, que pretendia expulsar do país uma das maiores personalidades da ciência por sua suposta espionagem a favor da extinta União Soviética, portanto uma atitude antiamericana. O processo só foi arquivado quando o cientista, doente, foi hospitalizado de maneira quase irreversível, acabando com os planos de Hoover. “Imaginem vocês se ele tivesse obtido sucesso […]. A história e a própria exposição a que nós estamos assistindo talvez não existissem ou teriam sido bastante diferentes”, comentou o historiador.

Judeu alemão discriminado em seu país, Einstein migrou em 1933 para os Estados Unidos, quando foi contratado pela Universidade de Princeton. Alguns anos depois, em 1940, obteve a cidadania norte-americana, ato que teve grande significado político naqueles tempos de guerra: um dos alemães mais ilustres do século XX adotando um novo país e jurando sua bandeira. Como cidadão americano, suas posições políticas se tornaram ainda mais incisivas: ele não poderia se calar numa sociedade em que linchamentos de negros eram corriqueiros e aconteceram até os anos 1960. E chega a adotar uma retórica americana para expor suas opiniões: “Todos que aprendem pela primeira vez ou têm notícia pela primeira vez desse estado de coisas numa idade mais madura sentem não só a injustiça, mas a desmoralização dos princípios dos fundadores dos Estados Unidos, o princípio em que todos os homens são criados iguais”, disse num manifesto à Liga Urbana Nacional em 1946.

Para Freire, uma boa ilustração da atitude de Einstein são a amizade que ele manteve com negros norte-americanos que tinham posição de destaque na defesa dos direitos civis dos negros. Um deles era o historiador W.E.B. Du Bois, fundador da National Association for the Advancement of Colored People, associação que o físico alemão foi convidado a integrar – e aceitou. Em texto para a revista que Du Bois editava, Einstein condenou o racismo e defendeu a necessidade de a minoria negra unir-se contra a opressão da classe dominante que os tratava como inferiores. Mas seu ato mais marcante nessa amizade foi se propor a testemunhar a seu favor quando Du Bois foi processado por acusação de ser ligado ao Partido Comunista. Era 1951 e o cientista ativista já estava com a saúde bem debilitada, mas acabou não precisando ir ao tribunal. “Quando o advogado de defesa anunciou que Du Bois tinha uma única testemunha de defesa que era o cientista Albert Einstein, o juiz pediu a suspensão da sessão e, quando voltou, disse que o caso estava arquivado”, contou Freire.

Homenagem mútua
Embora avesso a homenagens e honrarias das quais recusou várias, Einstein aceitou o título de doutor honorário pela Universidade Lincoln em 1946. O motivo da exceção era condizente com sua militância: se tratava de uma universidade pequena na Pensilvânia que se propunha a educar homens negros que não seriam aceitos em outras universidades. “A separação das raças […] não é uma doença das pessoas de cor, mas uma doença dos brancos”, disse em seu discurso em que aceitou a homenagem. “Não pretendo me calar a esse respeito.”

Einstein recebe a cidadania americana em 1940

Aumuller, al, photographerEinstein recebe a cidadania americana em 1940Aumuller, al, photographer

Não se calou. Há inúmeros registros de cartas escritas a autoridades e manifestações diversas de apoio por esse cientista que não só mantinha amizades com negros, mas visitava esses amigos na rua de Princeton em que viviam segregados. Numa sociedade em que brancos não costumavam cumprimentar negros, muito menos se sentar perto deles, Freire mostrou alguns depoimentos marcantes de pessoas sem projeção política que eram excluídas da sociedade pela cor de sua pele, como o de uma mulher negra: “Eu ia freqüentemente com a minha mãe para a cozinha do Instituto de Estudos Avançados onde Einstein trabalhava. Ele vinha sempre na hora do almoço. Ele era tão simpático! Eu lembro de andar pelo instituto com Einstein, e também ia ao seu escritório. Eu tinha 6 anos na época”.

Mesmo que os registros fossem públicos no site do FBI, demorou para que essa faceta viesse à tona. Para Freire há duas razões. “A primeira é que a imagem pública de Einstein e a dimensão do seu combate à segregação racial refletiam a dificuldade que os Estados Unidos tinham, e eu diria que ainda têm, de lidar com o seu próprio passado.” No dia em que falou no Ibirapuera, 25 de outubro, poucos dias antes das eleições norte-americanas, o físico-historiador baiano chamou a atenção para o fantasma que pairava sobre a vitória projetada de Barack Obama: 2% ou 3% do eleitorado poderia mudar para o lado republicano na última hora pelo simples motivo de o candidato democrata ser negro.

A segunda razão apontada por Freire é que a Universidade de Princeton, onde Einstein trabalhava, é (e já era) uma das mais renomadas do país. Mas está sediada numa pequena cidade onde a segregação racial era acentuada. Era exatamente a universidade para onde os jovens do Sul, região conhecida por sua inclinação racista, se encaminhavam não só pela qualidade do ensino mas por ali estarem protegidos de conviver com raças por eles consideradas inferiores. “Essa faceta de Einstein, portanto, é incômoda não só para a imagem e para o modo que os Estados Unidos lidam com sua história recente, mas ela é especialmente incômoda para a história da própria Universidade de Princeton”, disse o historiador. Ele festeja o fato de terem sido jornalistas americanos a trazer à tona o lado anti-racista de uma das maiores personalidades do século XX, dando maior impacto à revelação.

O dossiê Einstein no FBI: a documentação  de sua luta pelos direitos civis
Olival Freire Júnior, físico e professor associado  do Instituto de Física da Universidade Federal  da Bahia (UFBA)

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