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Resenha

Os militares na política

Forças Armadas e política no Brasil | José Murilo de Carvalho | Todavia | 320 páginas | R$ 64,90

José Murilo de Carvalho tem uma trajetória intelectual consagrada, notabilizando-se por estudos fundamentais sobre o Império e a Primeira República no Brasil, como A construção da ordem (Campus, 1980), Teatro de sombras (Vértice, 1988), Os bestializados (Companhia das Letras, 1987) e A formação das almas (Companhia das Letras, 1990). Nesses livros tratou de temas como elites políticas, cidadania e imaginário republicano. Menos conhecida é, contudo, sua importante contribuição para os estudos sobre Forças Armadas e política, tema de dois textos seminais que abordam o período 1889-1945, publicados originalmente em 1977 e 1982.

O fato de esses dois textos terem sido publicados como capítulos de livros organizados por terceiros fez com que ficassem menos visíveis. Por esse motivo, convidei o autor a reuni-los em uma única obra, publicada em 2005, inaugurando a coleção Nova Biblioteca de Ciências Sociais da editora Zahar. Reeditado em 2006, na década seguinte o livro esgotou-se. A decisão de republicá-lo este ano está diretamente ligada, como o autor reconhece, à conjuntura política pós-2013.

Novo capítulo escrito para a nova edição, “Uma república tutelada”, já indica o tom mais pessimista, em contraste com a impressão que ficara das décadas iniciais da Nova República e do afastamento dos militares do cenário político. Afinal, por três décadas não presenciamos tentativas de golpes, insubordinações e manifestos de militares da ativa, eventos comuns na história da República (instaurada, aliás, por um golpe de Estado militar). Creio não ser exagero afirmar que o próprio interesse acadêmico pelo tema diminuiu. A partir de 2013, contudo, passamos por eventos como a Operação Lava Jato, o impeachment de Dilma Rousseff e a surpreendente eleição de Jair Bolsonaro, que transformaram profundamente o cenário anterior, renovando o interesse por compreender os militares e sua participação na política.

Embora explicite sua preocupação cidadã, o autor assume, como historiador e cientista social, uma postura mais cautelosa. Ao tratar da conjuntura atual, pesa elementos positivos e negativos das relações civis-militares desde o fim do regime militar. Coloca a ênfase mais nas deficiências ou fraquezas de nossa democracia do que em intenção militar de ocupar espaços na política. Não dá respostas fáceis, até porque, em sua visão, não as há. Creio, contudo, que o autor, mesmo não sendo explícito em relação a como se deve abordar o tema na atualidade, nos dá um claro caminho, por meio dos dois estudos seminais produzidos há 40 anos, e que estão republicados como capítulos 2 e 3, ocupando 120 páginas. Em que consiste esse caminho a ser seguido, esse methodos, no sentido etimológico da palavra?

José Murilo inovou os estudos sobre a participação dos militares na política ao atribuir grande importância à investigação de características organizacionais das Forças Armadas. Até então, predominavam trabalhos marcados quer por uma visão voluntarista dos militares, que enfatizavam suas características individuais, quer por uma perspectiva que não atribuía muita importância ao estudo das Forças Armadas, ao reduzir a compreensão de seu comportamento político a determinações de outra ordem – como se fossem, por exemplo, uma espécie de “braço armado da burguesia”.

Os trabalhos de José Murilo foram não apenas inovadores em suas análises, como acima de tudo foram empirica e metodologicamente consistentes. Por isso, serviram de referência e inspiração para outros cientistas sociais e historiadores. Para compreender os militares na política, o autor voltou-se primeiro para o estudo rigoroso de temas como os padrões de recrutamento, a formação dos oficiais, a estrutura da carreira e as diferentes ideologias de intervenção. Organizou grande quantidade de informações que estavam dispersas. Só então se dispôs a propor interpretação mais geral sobre a origem das intervenções militares e a natureza do poder político das Forças Armadas entre 1889 e 1945.

Ou seja, o caminho para se produzir uma obra consistente a respeito do tema é longo e trabalhoso. Não há atalhos fáceis. Por esse motivo, esses estudos tornaram-se clássicos de uma forma de se abordar o tema. Como tal, continuam a indicar caminhos a serem seguidos na busca de compreensão do momento atual.

Celso Castro é professor da Escola de Ciências Sociais da Fundação Getulio Vargas (FGV CPDOC).

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