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Humanidades

Os pais e a psicanálise de crianças

A criança que apresenta ou a quem é atribuído um sintoma é levada pelos pais ao analista. Apenas esse fato já ressalta a importância da discussão sobre o lugar dos pais na psicanálise de crianças.

A proposta da psicanalista Michele Roman Faria no livro Introdução à Psicanálise de Crianças: O Lugar dos Pais (Hacker Editores, Centro de Estudos em Semiótica e Psicanálise da PUC/SP e FAPESP) é de que deva ser feito um trabalho específico no momento das entrevistas preliminares do atendimento de crianças. Ela opta por essa postura a partir da detecção de que é preciso considerar pai, mãe e criança como elementos de uma estrutura constituída de relações entre eles como sujeitos com lugares e funções específicos.

Na introdução do livro, Faria discute as tendências entre psicanalistas sobre como lidar com crianças. Lembra que a análise de crianças teve início em 1909, com o caso do menino de cinco anos com fobia publicado por Freud. Em 1918, Freud escreveu que o método analítico só apresentou resultado nesse caso porque houve um elemento facilitador: o tratamento do menino foi conduzido pelo próprio pai.

Segundo Faria, psicanalistas que trabalharam com crianças, como Melanie Klein, Maud Mannoni, Donald Winnicott, Rosine Lefort e outros se ocuparam da formas diversas da questão. “O brinquedo foi introduzido no setting analítico e tratado como material de análise, e a psicanálise passou a ser aplicada no tratamento de crianças com o mesmo rigor e a mesma eficácia que nas análises de adultos. Mas o lugar que deve ser dado aos pais em uma análise de crianças não deixou de ser uma questão ao longo do tempo.”

Ela cita Maud Mannoni, cuja posição a respeito é radical: “A questão de saber se eles têm ou não que aparecer na cena analítica é um falso problema, pois, aconteça o que acontecer, eles sempre irromperão”. Entretanto, segundo Faria, a prática clínica dos psicanalistas não permite pensar num padrão de atuação em relação a esse ponto: “As maneiras como psicanalistas de crianças incluem os pais na cena analítica, as formas de escutar e compreender seu discurso e as razões para excluí-los são bastante diversas e têm, inclusive, conseqüências na condução e manejo do tratamento”.

Lembra que Winnicott sugere que, se a criança está num bom lar e há habilidade dos pais para curá-la, eles mesmos conduzam o tratamento, sob orientação. Mas isso só é aplicável em casos de psicose ou desvios de comportamento, não sendo adequado nos casos de neuroses, que exigiriam uma análise-padrão por parte do profissional, segundo Winnicott.

Anna Freud considera que as crianças não poderiam ser analisadas sem que os pais também o fossem. Essa posição foi contestada por Melanie Klein, citada por Faria: “Em resposta, eu diria que devemos discriminar muito claramente entre as atitudes conscientes e inconscientes dos próprios pais e que descobri repetidas vezes que as atitudes inconscientes não estão, de modo algum, garantidas pelas condições pretendidas por Anna Freud. Os pais podem estar, teoricamente, bem convencidos da necessidade da análise e podem desejar conscientemente ajudar-nos com todas as suas forças, mas, sem embargo, por razões inconscientes podem criar obstáculos ao nosso trabalho, a todo momento.”A autora alerta que o sintoma de que falam os pais é sempre um recorte subjetivo. Por isso é preciso “deixar em suspenso”, até que se possa ver na criança a atribuição daquele sintoma pelos pais à criança.

A partir de sua proposta de considerar a estrutura no atendimento de crianças, Faria diz que, se entendermos que a criança ocupa, em relação aos pais, um lugar fálico, e se, enquanto tal, ele é um veículo privilegiado de alienação do desejo dos pais, a queixa dos pais nunca poderia ser tomada objetivamente, no seu sentido “literal”. “Sua queixa sempre vai dizer respeito a algo relativo ao desejo que ela encobre, que remete a cada um dos pais como sujeitos, uma vez que é isso o que se encontra alienado no que denominamos o sintoma na criança. Esse desejo, um analista nunca poderia desconsiderar.”

Para ela, a conseqüência de uma intervenção que exclui os pais da análise da criança será que o desejo irrompa nas análises: “Eles deixam de pagar, desistem do atendimento, faltam. Alguns chegam até a não trazer a criança e vir sozinhos. No momento em que fazem isso, algo está sendo dito, algo que o analista precisa escutar”.

Em função da presença do sintoma na criança, os pais devem ser escutados como sujeitos e não em relação à função que exercem para a criança, de acordo com a autora. “Essa escuta não terá o sentido de decifrar o sintoma da criança, uma vez que o sintoma de um sujeito só se decifra a partir do discurso desse mesmo sujeito.”

A única possibilidade para um trabalho analítico eficaz é “oferecer um lugar aos pais que permita dialetizar em torno dos sujeitos que demandam a análise, das funções que exercem e dos lugares que ocupam uns em relação aos outros nessa estrutura”.

Observados esse aspectos, a desmontagem da estrutura “será um efeito do trabalho e não uma imposição do analista”.

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