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Especial Einstein

Pablo Mariconda: Reencontros no campo

Filósofo da USP diz que Einstein desenvolveu as idéias de Galileu

Mariconda: entre o físico alemão e o italiano

marcia minilloMariconda: entre o físico alemão e o italianomarcia minillo

Na palestra intitulada “De Galileu a Einstein: do tempo da física ao tempo vivido”, o filósofo Pablo Mariconda, da Universidade de São Paulo (USP), traçou um paralelo entre as idéias de Galileu Galilei (1564-1642) e Albert Einstein. Segundo o pesquisador, o trabalho de Einstein, embora revolucionário, não promoveu uma ruptura em relação às teses de Galileu Galilei (1564-1642), mas um desenvolvimento do pensamento do cientista italiano, que vivera quase três séculos antes do gênio alemão. “Einstein aprofunda a constituição do observador científico, que, cada vez mais, se separa do observador comum”, disse o filósofo, que fez a apresentação no dia 1° de novembro.

Mariconda comparou especificamente as idéias de Galileu e de Einstein sobre duas questões fundamentais da física: o tempo físico (e a organização espaço-temporal dos eventos naturais) e a idéia de relatividade do movimento (e de sua caracterização físico-matemática). “Esses dois aspectos, presentes no pensamento de Galileu, convergem em um sentido preciso para a concepção relativista de Einstein”, disse o filósofo da USP.

No início do século XVII, Galileu foi o primeiro a introduzir na física o conceito de que o tempo é uma grandeza mensurável, ligada à determinação matemática do movimento. Fez isso por meio da chamada lei da queda dos corpos, segundo a qual a distância percorrida pelos corpos em queda livre é proporcional ao quadrado do tempo decorrido. Estabeleceu-se, assim, uma relação entre o espaço e o tempo. Com essa lei Galileu modificou a própria significação do conceito de tempo e criou o que se entende, desde então, como o tempo físico. “Isso abriu a possibilidade do desenvolvimento de uma cronologia centrada na natureza, diferentemente da cronologia medieval ou renascentista que se centrava no homem e nos seus afazeres”, comentou Mariconda. “Galileu introduz o tempo físico para além daquilo que poderíamos chamar de tempo social.” Essa modificação na significação da noção de tempo está intimamente ligada a uma nova concepção da natureza, que é vista como composta por regularidades imanentes às ligações observáveis entre os acontecimentos. Essas regularidades podem ser matematicamente expressas e adquirem o estatuto de leis eternas, presentes em todas as transformações observáveis na natureza.

Na concepção de tempo físico introduzida por Galileu, o termo tempo designa, na verdade, um movimento físico, uma seqüência de eventos físicos tomada como padrão de medida de tempo. Essa peculiaridade faz com que os instrumentos desenvolvidos para medir o tempo, os relógios, devam estar constantemente em movimento uniforme, sem aceleração. Os ponteiros de um relógio, por exemplo, devem percorrer um dado espaço fixo a um intervalo de tempo sempre regular. “Galileu marca o início da cronometria”, disse Mariconda.Einstein dá um passo além na definição do tempo. Para ele, além de grandeza física, o tempo é uma dimensão do espaço natural. “Vocês podem ver, principalmente na parte relativa ao tempo da exposição Einstein, a dilatação e contração da dimensão temporal proposta pelo físico alemão”, afirmou.

Para estabelecer a relação entre as idéias de Galileu e Einstein sobre a questão da relatividade do movimento, Mariconda retrocedeu ainda mais no tempo e recorreu às teses do polonês Nicolau Copérnico (1473-1543). No século XVI, ao apresentar a sua hipótese do duplo movimento da Terra (rotação e translação), Copérnico introduz o chamado princípio da relatividade óptica do movimento, que determina três situações possíveis na relação entre o observador e o objeto observado: o movimento pode ser produzido pelo observador, pela própria coisa observada ou por ambos. “Esse princípio chama a atenção para a relatividade do conceito de movimento e de repouso em relação ao observador”, explicou o filósofo.

Galileu aprofunda essa concepção na direção da relatividade mecânica, segundo a qual o movimento e o repouso são estados relativos e complementares dos corpos: um só pode ser definido em relação ao outro. Ou seja, o movimento só pode ser caracterizado em função dos corpos que não participam desse movimento. “Segundo Galileu, o movimento é totalmente extrínseco à natureza das coisas”, disse. “Ele é definido como uma simples modificação das relações espaço-temporais entre as coisas.” De acordo com as idéias do cientista italiano, dois corpos animados pelo mesmo movimento estão em repouso entre si e, ao mesmo tempo, em movimento em relação a todos os outros corpos que estão fora desse movimento comum.

O princípio da relatividade de Galileu possui uma importante conseqüência experimental: um observador situado no interior de um sistema em movimento não consegue definir se esse sistema mecânico está em repouso ou em movimento uniforme. Galileu, portanto, mostra as diferenças entre um observador interno e outro externo a um sistema em movimento. “A relatividade einsteiniana aprofunda essa perspectiva”, comentou Mariconda. Einstein muda de maneira muito peculiar a posição do observador em seus experimentos de pensamento. O físico imagina, por exemplo, o que aconteceria se fosse possível postar um observador se movendo à velocidade da luz (300 mil quilômetros por segundo). Uma das conseqüências dos estudos de Einstein é demolir a noção de que há um tempo absoluto, como dizia Isaac Newton. Para um observador em movimento na velocidade da luz, o tempo passa mais lentamente do que para as demais pessoas, segundo a relatividade de Einstein.

De Galileu a Einstein: do tempo da física ao  tempo vivido
Pablo Rubén Mariconda, filósofo e professor titular da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP

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