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Prêmio

Poeta norte-americana vence o Nobel de Literatura

Versos de Louise Glück mobilizam mitos gregos e romanos para aludir a questões íntimas e familiares

Louise Glück foi selecionada por sua voz poética que, como beleza austera, torna universal a existência humana

Niklas Elmehed / Nobel Media

Com livros inéditos no Brasil, a poeta e ensaísta norte-americana Louise Glück levou o Nobel de Literatura deste ano. No anúncio da premiação, a Academia Real Sueca de Ciências destacou que o reconhecimento se deu por conta dos versos “repletos de uma beleza austera que torna universal a experiência individual”. A poesia de Glück é marcada por precisão técnica e linguagem objetiva e dialoga com mitos gregos e romanos para mobilizar questões da vida pessoal, como divórcio, a relação entre mãe e filha e o envelhecimento do corpo. Com 77 anos, Glück publicou 12 coletâneas de poemas, além de livros de ensaios. Professora da Universidade Yale, foi a primeira de uma família de imigrantes húngaros de origem judaica a nascer nos Estados Unidos, na cidade de Nova York.

Pouco pesquisada no Brasil, a obra de Glück recebeu diversos prêmios nos Estados Unidos, com destaque para o Pulitzer, em 1993, pelo livro The wild iris (Ecco, 1992), e o Wallace Stevens, que ganhou em 2008 pelo conjunto de sua produção. “Ela não está vinculada às vanguardas norte-americanas, como a poesia beat, por exemplo, e por isso ficou à margem dos grandes grupos. Mesmo assim, tem grande reconhecimento naquele país”, observa Thiago Ponce de Moraes, professor do programa de Estudos Linguísticos e Literários do Instituto Federal do Rio de Janeiro (IFRJ), que está traduzindo poemas da autora, ainda sem previsão de publicação.

Segundo Moraes, The wild iris estabelece relação íntima com o mundo natural, de maneira que flores e plantas aparecem como personagens dos versos, evidenciando uma visão de que o ser humano deve se colocar em patamar de igualdade com a natureza, e não em uma relação hierárquica. “Os versos dela transparecem certa perplexidade diante do mundo natural, que é retratado como capaz, ao mesmo tempo, de nos acolher ou nos afastar”, observa Julio Pimentel Pinto, do Departamento de História da Universidade de São Paulo (USP). De acordo com ele, embora muitos livros da autora se estruturem em temas, a mitologia e elementos da psicanálise perpassam todas as suas obras.

“Os poemas de Glück são narrativos, evidenciando uma relação com seu trabalho como ensaísta. Ao mesmo tempo, a autora busca tensionar esses versos, fazendo o uso de metáforas e encadeando desdobramentos, o que mostra um grande domínio técnico da poesia”, analisa Moraes, que também é poeta e foi finalista do Prêmio Jabuti com o livro Dobres sobre a luz (Lumme, 2016). Ele observa que outro aspecto marcante do trabalho da autora envolve a clareza da linguagem. “Ela não é hermética, não trabalha com torções sintáticas. Ao contrário, seus versos são diretos, mesmo que nem sempre luminosos. Glück também mobiliza o sofrimento, assim como temas obscuros”, afirma. Para Moraes, a linguagem direta é um aspecto que pode atrair novos leitores, inclusive brasileiros.

Outro diferencial da obra de Glück é o diálogo constante com mitos gregos e romanos, mobilizados para abordar questões pessoais. Um desses trabalhos é Averno (Farrar Straus Giroux, 2006), livro em que ela conta a trajetória de Perséfone, deusa do submundo na mitologia grega, até chegar ao inferno. “Nessa obra, os poemas acompanham os passos da personagem”, comenta Pimentel Pinto, da USP. Segundo ele, outros trabalhos que seguem essa mesma lógica, com um tema geral desdobrando-se em diferentes poemas, são os livros mais recentes da autora: Faithful and virtuous night (Farrar, Straus and Giroux, 2014) e A village life: Poems (Farrar, Straus and Giroux, 2009).

“Glück produz uma poesia de caráter confessional, mas um confessional transfigurado e habitado por personagens do universo dos mitos. Ao tratar de situações recentes, como ao explorar as memórias da infância, ela convoca a tradição poética ocidental”, observa Moraes. Ele explica que alguns críticos norte-americanos afirmaram que por causa desse diálogo com a tradição clássica sua poesia seria pouco acessível, algo do qual ele discorda. “Apesar de recorrer aos mitos clássicos, sua linguagem é clara e objetiva, aspecto que inclusive facilita o processo de tradução”, informa.

Moraes conta que, no Brasil, foram publicadas em revistas literárias e em cadernos de cultura de jornais traduções esparsas de alguns de seus poemas. “Aprecio o trabalho da autora justamente por essa relação com a tradição ocidental, sem submeter-se a ela, mas convocando sempre outras obras para o diálogo e atualizando, de certa forma, alguns mitos e personagens”, comenta. Ao anunciar a escolha, em seu pronunciamento Anders Olsson, presidente do Comitê Nobel, afirmou que a autora busca o universal: “As vozes de Dido, Perséfone e Eurydice – os abandonados, os punidos, os traídos – são máscaras para um eu em transformação, tão pessoal quanto universalmente válido”.

Antes de Glück, a última mulher poeta a receber o Nobel foi a polonesa Wislawa Szymborska (1923-2012), em 1996. Em 2011 o poeta sueco Tomas Tranströmer (1931-2015) também foi laureado. Em 2019, os agraciados com o Nobel de Literatura foram a polonesa Olga Tokarczuk (Nobel de Literatura 2018, ano em que não foi entregue o prêmio) e o dramaturgo e escritor austríaco Peter Handke. Até hoje, foram entregues 113 prêmios Nobel de Literatura – 16 para mulheres e somente um para um autor de língua portuguesa, José Saramago (1922-2010), em 1998.

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