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Política

Primeiro-ministro etíope leva o Nobel da Paz

Abiy Ahmed Ali estabeleceu acordo com a Eritreia, colocou em prática reformas democráticas e mediou o diálogo em conflitos regionais

Prêmio da Paz: Abiy Ahmed Ali

Niklas Elmehed / Nobel

As iniciativas para solucionar os conflitos na fronteira com a Eritreia e os esforços para promover a paz e a cooperação internacional renderam o Nobel da Paz ao primeiro-ministro da Etiópia, Abiy Ahmed Ali. O anúncio foi feito na manhã de 11 de outubro pelas Academias sueca e norueguesa.

Nascido em 1976 na cidade de Beshasha, Ali se tornou primeiro-ministro em abril de 2018, tendo o processo de paz com a Eritreia como uma de suas bandeiras. Ao justificar a premiação, Berit Reiss-Andersen, líder do comitê que atribui o prêmio ao político, disse que quando Ali estendeu a mão e tomou a iniciativa de iniciar o diálogo, o presidente da Eritreia, Isaias Afewerki “agarrou-a e ajudou a formalizar o processo de paz entre os países”. A premiação também busca “reconhecer todos os agentes que trabalham pela paz e reconciliação na Etiópia e nas regiões Leste e Nordeste da África”. O comitê destacou ainda que, nos primeiros 100 dias de governo, Ali conseguiu retirar o país do estado de emergência, concedeu anistia a milhares de presos políticos e demitiu líderes civis e militares, suspeitos de corrupção. No ano passado, o primeiro-ministro também contribuiu para a normalização das relações diplomáticas entre Eritreia e Djibouti, depois de anos de hostilidade entre as duas nações. Tentou também mediar encontros entre os dirigentes do Quênia e da Somália com o objetivo de solucionar disputas envolvendo uma zona marítima.

A Eritreia foi anexada à Etiópia em 1962. Logo em seguida, uma frente política passou a exigir sua independência, efetivamente conquistada em 1993. Conforme detalha Sérgio Luiz Cruz Aguilar, professor do Departamento de Sociologia e Antropologia da Universidade Estadual Paulista (Unesp), campus de Marília, em 1998, disputas sobre o controle da região de Badme motivaram a eclosão de uma guerra que durou dois anos e terminou com cerca de 100 mil pessoas mortas. Ao assumir as iniciativas envolvendo a formalização do processo de paz, Ali colocou fim a tensões que se estendiam por quase duas décadas, reflexo do conflito “congelado” a partir de 2000. Para assinar o acordo, a Etiópia retirou suas tropas da região de Badme e passou a reconhecê-la como território eritreu, enquanto a Eritreia franqueou à Etiópia acesso aos portos no mar Vermelho. Com a retomada do tráfego aéreo e marítimo, os dois países reabriram embaixadas e passaram a permitir a circulação de pessoas pela fronteira. Pelo acordo, firmado em 2018, cidadãos dos dois países também podem viver e trabalhar em qualquer um dos territórios.

“Em Addis Abeba, capital da Etiópia, está localizada a sede da União Africana, o que tende a impulsionar o papel do primeiro-ministro nas negociações de questões envolvendo todo o continente”, analisa Aguilar, que também coordena o Grupo de Estudos e Pesquisa sobre Conflitos Internacionais (Gepci) e o Observatório de Conflitos Internacionais (OCI), na Unesp. O fato de o primeiro-ministro ter pai muçulmano da região de Oromo e mãe cristã ortodoxa da região de Amara, avalia Aguilar, pode facilitar a resolução de problemas internos envolvendo diferentes etnias do país. “A maioria dos partidos na Etiópia são étnicos e Ali tem promovido ações para criar um ambiente estável entre os diferentes grupos”, relata.

“O primeiro-ministro se assemelha a Barack Obama na retórica e no carisma. Tem um discurso conciliador e é leitor assíduo de Nelson Mandela [1918-2013], utilizando trechos dos textos do sul-africano em suas falas”, informa a diplomata Adriana Telles Ribeiro, que serviu na embaixada do Brasil em Adis Abeba entre 2016 e agosto deste ano. Segundo Ribeiro, quando em julho de 2018 os primeiros voos entre Etiópia e Eritreia foram retomados, as pessoas se surpreenderam. Imaginava-se que isso aconteceria somente em setembro. “O primeiro-ministro antecipou o acordo de paz para evitar a resistência de grupos que se opunham à medida”, diz.

Ribeiro explica ainda que o partido que governou durante 20 anos, antes de Ali, apesar de representar uma minoria da população, fomentou acúmulo de poder e riqueza entre os integrantes de seu próprio grupo étnico, o que acabou por gerar a eclosão de conflitos tribais. “Quando assumiu o poder, Ali passou a defender que era necessário buscar soluções conjuntas para os problemas do país”, observa. “Ele é um intelectual com carreira militar e, ao apresentar diferentes facetas, consegue fazer com que as pessoas se identifiquem com ele”, analisa a diplomata, que também destaca seu empenho em promover a liberdade de imprensa. A Etiópia é o segundo país mais populoso da África e tem a economia mais desenvolvida da África Oriental.

Outro aspecto de destaque na trajetória do primeiro-ministro envolve seus esforços para ampliar a participação feminina na política. “Ali implementou paridade de gênero em seu gabinete. No discurso de posse, citou as mulheres, agradecendo a sua própria mãe e à força feminina”, conta Ribeiro. Também indicou, enquanto presidente da Casa dos Representantes do Povo (semelhante à Câmara dos deputados brasileira), a primeira presidente da Etiópia, a diplomata Sahle-Work Zewde, de 68 anos. Daniel Carvalho, coordenador do curso de relações internacionais da Universidade de Vila Velha (UVV), no Espírito Santo, explica que desde a promulgação da constituição etíope, em 1995, a indicação do primeiro-ministro sempre foi validada pela Casa da Federação, que corresponde ao Senado no Brasil. Segundo ele, desde os anos 2000 14 mulheres ocuparam o cargo de presidente ou primeira-ministra no continente africano, composto por 54 países. “Ellen Johnson Sirleaf, que presidiu a Libéria entre 2006 e 2018, é o caso mais famoso”, diz Carvalho. Ele esclarece que Sahle-Work Zewde é a quarta mulher a alcançar o posto de presidente por vias institucionais ou democráticas na África. As demais, além dela e de Sirleaf, são Joyce Banda (no Malawi) e Ameenah Gurib-Fakim (nas Ilhas Maurício).

O pesquisador avalia que o Nobel vai reverberar positivamente na legitimação das reformas na Etiópia. Ele explica que Ali pertence à etnia Oroma. Apesar de ser a mais numerosa no país, nunca tinha contado com um primeiro-ministro. “Sua escolha para ocupar o cargo foi uma tentativa de acalmar os ânimos da população, descontente com o governo anterior, que privilegiava grupos étnicos minoritários”, explica. Mesmo assim, seu governo tem tido de lidar com movimentos de oposição. Há poucos meses uma tentativa de golpe de Estado foi frustrada. “O Nobel deve enfraquecer a atuação de grupos com intenções antidemocráticas”, avalia. O pesquisador observa que o movimento iniciado por Ali pode se expandir para países vizinhos, beneficiando uma região que vive um processo de instabilidade endêmica. “O primeiro-ministro pode inclusive assumir um papel-chave na resolução de outros conflitos que venham a ocorrer na região.”

Aguilar, da Unesp, lembra da dimensão política do Nobel. “Quando o comitê indica pessoas ou instituições para receber o prêmio está, ao mesmo tempo, reconhecendo o esforço e aprovando determinadas iniciativas como práticas importantes em processos de busca de paz, apesar do perigo de agraciar pessoas envolvidas em processos que ainda estão em andamento”, finaliza.

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