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Resenha

Primorosa reconstrução

Cinquenta anos esta noite | José Serra | Record, 266 páginas, R$ 35,00

Resenhas_SerraEduardo CesarSe o Serra político de um Brasil em processo de redemocratização é velho conhecido dos brasileiros, o José Serra que se revela neste recém-lançado Cinquenta anos esta noite é um surpreendente e poderoso escritor-memorialista, além de notável personagem da trama dramática, às vezes macabra, que foi a ditadura brasileira dos anos 1964 a 1985. Trama, notemos para começar, que atravessa os limites territoriais do país, entra nos domínios dos vizinhos da América do Sul, tem lances decisivos jogados nas Américas Central e do Norte e peripécias que se espraiam longamente pela Europa e outras partes do mundo. Essa espacialidade tão ampla em que se desdobram os inumeráveis dramas originados pelo golpe militar de 1º de abril de 1964 – data, aliás, enfaticamente marcada no livro – é apenas uma das características da ditadura para a qual Serra convoca o nosso olhar.

Na verdade, com um notável domínio narrativo, ele conduz a atenção do leitor para uma infinidade de dimensões e aspectos do objeto político e histórico que examina e reconstrói a partir principalmente de sua inserção pessoal em acontecimentos que o compõem. Há lugar, assim, por exemplo, para uma avaliação das forças reacionárias que se mobilizaram para desferir o golpe, da sua base social de sustentação e para uma radiografia das fragilidades intrínsecas e do espantoso amadorismo do esquema militar do governo de João Goulart no livro de Serra. Há espaço para a crítica incisiva aos diferentes grupos da esquerda em ação, com lugar especial para o Partido Comunista Brasileiro (PCB), o chamado Partidão, e às radicalizações inconsequentes, tanto quanto para a autocrítica – Serra ressitua a Ação Popular (AP), partido que ajudou a fundar, no centro do debate político-ideológico do período. Há espaço para a denúncia contundente da impropriedade do pêndulo revolução/reforma que sempre orientou as opções históricas da esquerda dentro e além do país. Há até mesmo algumas linhas nas páginas de Cinquenta anos esta noite para interrogar até que ponto uma conciliação que num momento-chave não chegou a termo entre os dois mais poderosos partidos políticos da época pré-ditadura, o PSD e a UDN (Partido Social Democrata e União Democrática Nacional), o primeiro mais ao centro, o outro à direita, poderia ter mudado o rumo de nossa história recente. (p. 82) Entretanto, tomando de empréstimo a E. J. Mishan uma bela fábula (p. 89), Serra mais adiante deixa claro que em sua visão não há um evento decisivo, mas a coincidência de múltiplos eventos na determinação dessa história: o golpe e a longa escuridão que a ele se segue.

Mas é preciso destacar que se trata de um livro de memórias, e, nesta condição, jamais rejeita, ao contrário, inclui fortemente sem nenhuma concessão a tentações piegas todas as nuances afetivas que integram e recobrem suas lembranças e rememorações. O fio condutor da narrativa memorialística é a experiência vivida por Serra, do começo de 1964, ainda que haja necessárias incursões a tempos anteriores para dar força à urdidura da história que vai tecendo, até maio de 1977 – quando finalmente retorna ao Brasil, depois do longo exílio em duas etapas e em diferentes países, com o entremeio do aterrador pesadelo vivido num segundo golpe, o do Chile, em setembro de 1973. Nove capítulos enfeixam todo esse percurso e as profundas transformações na vida do narrador/personagem com títulos inspirados: Cinquenta anos esta noite; Na UNE do Flamengo; Sem pátria vagando; O Brasil, desde longe; Clandestino no Brasil; A família chilena e a felicidade da formação; Socialismo sem empanadas e vinho; Tempos brutos, tempos sórdidos; Exilado ao quadrado e O regresso.

Ancoradas nesses marcos, as páginas de Cinquenta anos esta noite fluem literariamente e de forma admirável das descrições mais gerais e das análises objetivas para as experiências particulares mais sensíveis. Entrelaçam épocas e transitam à vontade por entre os anos, indo e voltando com elegância em favor da limpidez da história que contam. Apresentam e entrecruzam centenas de personagens, reconhecem em vários deles dimensões heroicas, mas, com frequência maior, oferecem exemplos de profunda solidariedade, amizade e coragem. Simetricamente, há também o outro lado das coisas: histórias de covardia e comportamentos torpes.

Para quem não viveu 1964, a narrativa de Serra recria com mestria a ambiência dos meses pré-golpe. Mostra uma grande importância política, hoje mal suspeitada, de instituições como a UNE, a União Nacional dos Estudantes, tão próxima do Executivo federal, financiada pelo governo e com recursos para sua sobrevivência, quando necessário, antecipados sem problema pelo Banco Nacional. Veja-se: “– Presidente, nós defendemos que o pedido do estado de sítio seja retirado (…) – Olha, jovem, não precisas te preocupar, porque antes de vir aqui já tomei providências para retirar o projeto do estado de sítio. Não deixem esta notícia circular, pois vou anunciar depois de amanhã (…) O presidente era João Goulart. O jovem, o presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE), eu. Num domingo de outubro de 1963, num apartamento em Ipanema, estávamos uns oito dirigentes da Frente de Mobilização Popular, a FMP. Ao abrir a reunião sigilosa, o deputado Leonel Brizola sugeriu que eu expusesse os motivos de nossa rejeição ao estado de sítio que Jango solicitara ao Congresso”. (p. 15)

Ele traz também à cena de forma intensa o clima tenso, sombrio, atravessado por presságios e temores do dia do golpe e o desalento dos dias seguintes. E examina as esperanças e as sucessivas derrotas de líderes civis do golpe e de outros políticos que a ele aderiram, acreditando que o calendário da eleição presidencial de 1965 seria mantido.

“Como vocês deixaram isso acontecer?”
A embaixada da Bolívia foi o refúgio de Serra após o golpe e antes de conseguir o salvo-conduto para partir para o exílio. Ele relembra a partida: “Aquela quinta-feira, 2 de julho, foi estranha e melancólica (…) Revi meus pais, avós e tios num restaurante acanhado, feio e mal-iluminado, de comida insossa. Eram pessoas simples, marcadas pela imigração, que queriam se adaptar (…) Não compreendiam por que eu deveria deixar o Brasil às pressas, entre fugido e expulso”. (p. 101-2) La Paz foi a primeira parada. Depois de 80 dias e muitos esforços, conseguiu seguir para Paris. E uma das histórias curiosas que conta dos primeiros dias parisienses é a da cobrança estapafúrdia dos companheiros de partido. “Havia um grupo da AP em Paris – estudantes que estavam lá na época do golpe e me acolheram com afeto (…) Com o passar do tempo, as posições ficaram cada vez mais extremadas. Cresciam a indignação e a impaciência dos que estavam longe do Brasil durante o golpe. A cobrança tornou-se pessoal, como se pudéssemos ter barrado a ditadura. Eu ouvia: ‘Como vocês deixaram isso acontecer?’”(p. 120-1)

O exílio de Serra tem um breve intervalo em 1965, mas ele é obrigado a sair outra vez. O Chile de Frei, mais adiante de Salvador Allende, é o destino e seu relato dá conta da formação de sua família, da rede de novos contatos que vai estabelecendo, de sua formação como economista e dos estudos no campo das ciências sociais e da ciência política, que, nas memórias, lhe permitem discorrer sobre as ideias que vai amadurecendo, as teses que vai rejeitando, a visão de mundo que vai sofisticando. Ao relatar um trabalho desenvolvido com Maria da Conceição Tavares, por exemplo, Além da estagnação, ele observa: “Era difícil combater o determinismo esquerdista, envolvido sempre numa análise catastrofista das perspectivas da América Latina. Ele levava ao limite as contradições no processo de desenvolvimento, transformando-as em leis de bronze do capitalismo da periferia do sistema. A antiga polêmica entre Eduard Bernstein e Rosa Luxemburgo – reforma ou revolução – retornava sub-repticiamente”. (p. 196-7) Serra já se referira algumas vezes antes a esse dilema, a exemplo de quando relata (p. 122) um debate entre Vargas Llosa, Josué de Castro (Geografia da fome) e o jornalista francês Claude Julien, do Le Monde, em 1965. “A tese dominante na mesa era de que a América Latina vivia uma situação pré-revolucionária, e que o caminho cubano da luta armada era a opção mais plausível – inclusive no Brasil, dizia Julien em seu estilo moderado e didático. Retomava-se o dilema que a esquerda criara no Brasil: reforma ou revolução.” (p. 122)

Uma das páginas mais dramáticas entre tantas em Cinquenta anos esta noite conta o momento em que Serra é solto, pode deixar o estádio nacional do Chile, pede uma ficha de telefone ao soldado que o acompanha e liga para um amigo dizendo que temia naquele instante ser vítima de uma armadilha. “A caminhada da porta do estádio até a primeira rua foi a mais tensa da minha vida. Enquanto andava, morbidamente me perguntava se a bala do fuzil, além de derrubar-me, doeria.” (p. 218-9) Depois é a breve estada na Itália, os anos de estudos e trabalho nos Estados Unidos, nas universidades de Cornell e Princeton e o retorno ao Brasil. A última frase do livro, não sem duas estocadas no PT: “Continuo na luta. Não sei viver de outro jeito”.

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