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Prêmio

Programa de alimentos da ONU ganha Nobel da Paz

Organização criada em 1961 atendeu 97 milhões de pessoas em 88 países em 2019

Niklas Elmehed / Nobel Media

“Se a tendência atual continuar, o número de pessoas com fome chegará a 840 milhões em 2030”, alertava o mapa global da fome crônica elaborado pelo Programa Mundial de Alimentos (PMA) da Organização das Nações Unidas (ONU) divulgado em agosto. Brasil, Estados Unidos, Canadá, Rússia, China, Austrália e a maioria dos países da Europa formam o grupo dos países com a melhor situação, menos de 2,5% da população com fome crônica. Chade, Madagascar e Coreia do Norte estão na situação oposta, com mais de 35% da população em estado de desnutrição contínua.

Por elaborar trabalhos abrangentes como esse e atender 97 milhões de pessoas em 88 países, o PMA foi anunciado nesta sexta, dia 9, como o ganhador do Prêmio Nobel da Paz deste ano. Ao comunicar a premiação, a Fundação Nobel justificou a escolha com base no esforço do PMA “para combater a fome, por sua contribuição para melhorar as condições para a paz em áreas afetadas por conflitos e por atuar como uma força motriz nos esforços para prevenir o uso da fome como arma de guerra e conflito”.

Criado em 1961 como um braço da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) e sediado em Roma, o PMA é a maior organização humanitária mundial na área de segurança alimentar. Com 5.600 caminhões, 30 navios e 100 aviões, que distribuem alimentos às populações mais necessitadas, principalmente na África, é responsável pelo cumprimento da meta de erradicação da fome até 2030, estabelecida pela ONU em 2015.

A pandemia de coronavírus aumentou o número de vítimas da fome no mundo, principalmente quando combinada com conflitos internos em países como Iêmen, República Democrática do Congo, Nigéria, Sudão e Burkina Faso, observou o comunicado da Fundação Nobel. “Diante da pandemia, o Programa Mundial de Alimentos demonstrou uma capacidade impressionante de intensificar seus esforços”, informou a nota. 

No Brasil, a situação também se deteriorou este ano. “Na pandemia, o fechamento das escolas [por oferecerem alimentação] tem sido desastroso”, comenta a pediatra Maria Paula de Albuquerque, gerente geral clínica do Centro de Recuperação e Educação Nutricional (Cren), criado em 1993 como um projeto de extensão da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e atualmente apoiado financeiramente por organizações nacionais e internacionais. Segundo ela, o Cren atende crianças e adolescentes do município de São Paulo, que obtêm na merenda escolar 70% dos nutrientes de que necessita.

Desde março, quando a pandemia levou ao fechamento de escolas, a equipe do Cren readequou suas formas de atuação, fez cerca de 6 mil teleatendimentos aos responsáveis pelas crianças que assiste, realizou 1.300 visitas domiciliares e distribuiu cerca de 2 mil cestas básicas, de acordo com um informe da própria instituição.  

Segundo Albuquerque, as crianças estão chegando ao ambulatório do Cren mais malnutridas nos últimos cinco anos. “Em 2019, por exemplo, 80% das crianças atendidas tinham problemas de obesidade”, diz ela. “Agora, elas estão também com subnutrição e má nutrição, com problemas de baixa estatura e magreza. É um sinal de alerta.”

A farmacêutica-bioquímica Bernadette Dora Gombossy de Melo Franco, do Departamento de Alimentos e Nutrição da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo (FCF-USP) e coordenadora do Centro de Pesquisa em Alimentos (FoRC), um dos Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepid) apoiados pela FAPESP, concorda: “Quando tem o que comer, boa parte da população de baixa renda se alimenta de modo incorreto”. Por falta de orientação, ela observa, as pessoas tendem a consumir alimentos com mais açúcar, sal e gorduras do que o recomendado.

“Esse é um problema multifacetado”, acrescenta a nutricionista Patrícia Constante Jaime, da Faculdade de Saúde Pública da USP. Segundo ela, existe a fome mais evidente, dimensionada pela desnutrição, que resulta em extrema magreza e déficit de estatura; e a oculta, como a falta de micronutrientes, como vitaminas e minerais. Ambas causam problemas de saúde que levam a dificuldades de aprendizagem, principalmente em crianças. Outra expressão da insegurança alimentar é a obesidade.

A seu ver, o Nobel para PMA é oportuno por trazer à tona um problema que se agrava. Segundo previsão do PMA em abril de 2020, por causa da pandemia e dos conflitos internos de diversos países o número de pessoas com fome crônica deve passar dos 135 milhões em 2019 para 265 milhões em 2020.

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