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Literatura

Protagonismo restaurado

Pesquisas trazem à luz trajetória de romancista negra, pioneira na literatura antiescravista

Silvana Mendes

A partir do desenvolvimento de pesquisas acadêmicas iniciadas há duas décadas e que ganharam força nos últimos cinco anos, a historiografia literária passou a reconhecer a maranhense Maria Firmina dos Reis (1822-1917) como fundadora da literatura negra e do romance antiescravista no Brasil. Se no começo dos anos 2000 eram escassos os estudos que se debruçavam sobre a obra da autora, hoje ela é considerada marco fundamental nas análises da produção de intelectuais negros. Permanecem, no entanto, lacunas a serem investigadas. Entre elas, a origem paterna da escritora e o paradeiro dos manuscritos de seu romance Úrsula, editado em 1857 e considerado um dos primeiros livros publicados por uma mulher no país.

Reis colaborou com diversos jornais maranhenses durante mais de meio século, publicando poesias, crônicas e contos, entre eles Gupeva (1861) e A escrava (1887). “Ela foi a mulher com presença mais intensa na imprensa maranhense durante todo o século XIX”, informa Algemira de Macedo Mendes, professora do Departamento de Letras da Universidade Estadual do Piauí (Uespi). Mesmo assim, sua trajetória literária acabou sendo esquecida, quadro que começou a ser revertido apenas na década de 1970, mais de 50 anos depois de sua morte. Na ocasião, o historiador e bibliógrafo paraibano Horácio de Almeida (1896-1983) identificou em um sebo carioca uma edição de Úrsula, mostrando-a ao poeta e jornalista José Nascimento Morais Filho (1922- 2009), de quem era amigo. Na mesma época, durante pesquisa realizada em arquivos públicos, Morais Filho se deparou com o nome da escritora em textos editados em revistas e periódicos. Os dois pesquisadores acabaram descobrindo que o livro Úrsula, escrito sob o pseudônimo de “uma maranhense”, era de autoria de Reis.

Para conhecê-la melhor, Morais Filho decidiu fazer um levantamento abrangente. “Após essa descoberta, ele publicou anúncios em jornais solicitando aos leitores que lhe enviassem informações sobre trabalhos elaborados pela escritora”, conta Mendes, que defendeu tese de doutorado sobre Reis na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS), em 2006. Em 1975, Morais Filho editou a biografia Maria Firmina: Fragmentos de uma vida, publicada pela editora COCSN. Também na década de 1970, Almeida preparou uma nova edição de Úrsula, por solicitação do governo do Maranhão. Dessa forma, Morais Filho e Almeida deram início ao processo de resgate da vida e obra de Reis, que segue em desenvolvimento.

Ilustração: Silvana MendesDe acordo com Mendes, até o início dos anos 2000 os poucos estudos sobre Reis envolviam apenas instituições do Maranhão. Foi a partir do interesse de pesquisadores de São Paulo e do Rio de Janeiro que sua produção começou a ganhar terreno em universidades de todo o país. Um dos eventos que colaboraram para a disseminação de sua obra foi a promulgação, em 2003, da Lei Federal nº 10.639, tornando obrigatório o ensino da história e da cultura afrobrasileiras e africanas em escolas de todo o país, a partir do ensino fundamental. “A legislação provocou uma grande circulação da obra de escritores afrodescendentes entre todos os públicos”, justifica, lembrando que o processo de resgate também foi favorecido pelo crescente interesse de pesquisadores em investigar narrativas de populações historicamente oprimidas, além da ascensão dos estudos de gênero.

Danglei de Castro Pereira, professor de literatura brasileira na Universidade de Brasília (UnB), concorda com Mendes ao afirmar que a legislação despertou o interesse por autores negros, contribuindo para a revitalização da obra de Reis e também para a leitura de autores célebres, como Machado de Assis (1839-1908) e Lima Barreto (1881-1922). Entre 2017 e 2018, Úrsula ganhou 13 novas edições, totalizando 23 atualmente. Além disso, instituições como a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e a PUC-RS incluíram a obra no rol de textos obrigatórios de seus concursos vestibulares. Anteriores às recentes descobertas que evidenciam seu protagonismo, os manuais de maior circulação em cursos universitários, como História concisa da literatura brasileira (1970), de Alfredo Bosi, e Formação da literatura brasileira (1959), do crítico Antonio Candido (1918-2017), no entanto, não fazem jus ao protagonismo da escritora.

Na esteira desse processo, Calila das Mercês, que em seu doutorado em literatura na Universidade de Brasília (UnB) mapeia autoras negras contemporâneas, lembra que em 2017 a Secretaria de Cultura do Distrito Federal criou o Selo Maria Firmina dos Reis, com o objetivo de valorizar a produção literária de afrodescendentes e ampliar a disponibilidade de livros de autores negros em bibliotecas públicas. “O resgate de Reis integra um conjunto de forças que têm buscado compreender a história do negro no país, em sintonia com o pensamento de intelectuais, como a escritora Conceição Evaristo, que circulam entre a academia e o movimento negro”, analisa Mercês. Em 2018, a Edições Câmara, da Câmara dos Deputados, publicou as obras completas de Reis.

Romance pioneiro
Úrsula se passa em meados do século XIX e relata a história de Tancredo e Úrsula, que, apaixonados, enfrentam adversidades para conseguir concretizar sua relação. Os protagonistas são brancos. Cabe aos personagens negros fazer uma abordagem crítica à escravidão e à estrutura patriarcal da sociedade. “Único romance conhecido de Reis, o livro passou a ser considerado o primeiro na história literária brasileira a se posicionar abertamente contra o regime escravocrata, antecedendo em mais de 10 anos obras que até poucos anos atrás eram tidas como pioneiras, como O navio negreiro [1870], do baiano Castro Alves [1847-1871], e A escrava Isaura [1875], do mineiro Bernardo Guimarães [1825-1884]”, observa Mendes, da Uespi.

Pereira, da UnB, explica que o livro está situado na tradição romântica brasileira, marcada pela valorização do nacionalismo, caráter sentimental e subjetividade. “Reis foi uma das primeiras autoras a dar voz a personagens periféricos, na mesma medida em que seu trabalho está ancorado no Romantismo, por causa da perspectiva burguesa de mundo que apresenta. Nesse sentido, Úrsula reproduz as convenções sociais de seu tempo, mas também aborda elementos ligados à marginalidade dos negros, que são retratados como sujeitos e não objetos da narrativa”, avalia o pesquisador.

Na tese de doutorado “Corpo de romances de autoras negras brasileiras (1859-2006): Posse da história e colonialidade nacional confrontada”, agraciada em 2020 com o Prêmio Capes de Tese na área de Linguística e Literatura, Fernanda Rodrigues de Miranda propõe uma leitura de Reis como autora de fundação. “Ou seja, a partir dela é possível identificar a formação de um repertório de romances de autoras negras brasileiras”, afirma Miranda, que defendeu sua tese na USP. Em sua avaliação, Reis tinha uma posição política à frente de seu tempo, algo que se evidencia no caráter realista das falas de Suzana, uma das personagens negras de Úrsula. Em uma dessas passagens, ao ouvir de Túlio, outro personagem negro, que conseguiu sua alforria, Suzana questiona-o a respeito daqueles que seguiam escravizados. “A autora faz uma reflexão sobre a necessidade de se pensar o momento posterior à Abolição, chamando a atenção para o fato de que não basta extinguir a escravidão, também é preciso mudar a ordem hierárquica da sociedade, em uma discussão que permanece atual”, analisa Miranda. “Os personagens negros estão localizados no interior do conflito dos brancos, mas os papéis que eles desempenham são responsáveis pela força que o romance carrega”, sustenta, ao defender que Reis produziu um imaginário que em muito contribuiu para a compreensão da realidade nacional. Em sua tese, ao propor um corpus literário formado por autoras negras desde o século XIX, Miranda procurou evidenciar essa produção nacional, submetida a um processo de apagamento no decorrer da história.

Ilustração: Silvana MendesReis nasceu em São Luís do Maranhão em 1822. Aos 8 anos, órfã de mãe, mudou-se para a casa de uma tia na cidade de Guimarães, onde viveu até o final da vida. A família tinha boas condições econômicas e dedicou esforços para que a escritora pudesse estudar, algo inusitado para mulheres negras. “Não há comprovação de que ela tenha frequentado a escola. Provavelmente, foi educada em casa”, pondera a historiadora Régia Agostinho da Silva, da Universidade Federal do Maranhão (UFMA). Em 1847, Reis foi aprovada em um concurso público para professora do curso primário, função que exerceu até se aposentar, em 1881. A biografia escrita por Nascimento de Morais Filho relata que quando Reis passou no concurso, a família quis que ela fosse transportada em um palanquim carregado por escravos para assinar os documentos de aprovação, algo que ela teria se recusado a fazer. “Essa informação foi levantada com base em relatos orais e pode não ter, de fato, acontecido. Independentemente disso, ela permanece no imaginário coletivo”, comenta Silva.

Um ano antes de se aposentar, Reis fundou a primeira escola mista do Maranhão, voltada para meninas e meninos de baixa renda. Morreu aos 95 anos, deixando 11 filhos adotivos. Até 2018, de acordo com a biografia escrita por Morais Filho, acreditava-se que Reis havia nascido em 11 de outubro de 1825, filha de mãe portuguesa. Nesse ano, pesquisas realizadas em arquivos de cartórios e sacristias de São Luís permitiram constatar que a escritora nasceu em 11 de março de 1822 e era filha de uma escrava alforriada.

Apesar das descobertas dos últimos anos, ainda há muito o que pesquisar. Da vida da escritora seguem desconhecidos, por exemplo, a origem do pai de Reis, detalhes de sua formação escolar e se quando ela nasceu sua mãe já era alforriada. Outra lacuna diz respeito à sua aparência física. Não há fotos nem retratos a óleo conhecidos da autora. Até 2012, em uma parede da Câmara dos Vereadores de Guimarães, Reis era representada como uma mulher branca.

Além dos manuscritos de Úrsula, os pesquisadores não descartam a possibilidade de outros textos de sua autoria serem descobertos, considerando o extenso período em que Reis escreveu e publicou. Além de Úrsula e dos contos, foi localizado até agora o livro de poemas Cantos à beira-mar (1871). “Reis construiu em seu romance uma memória pioneira sobre a diáspora africana e o que sabemos sobre ela é apenas a ponta do iceberg. Muita coisa ainda surgirá”, prevê Silva, da UFMA. Em 2012, ela defendeu sua tese de doutorado sobre Reis na USP. “Os contos da autora merecem mais atenção da academia. Além disso, a elaboração de uma nova biografia, que atualize o trabalho de Morais Filho e leve em conta as descobertas recentes, também se faz necessária.”

Artigo científico
SILVA, R. A. e FERNANDEZ, R. A. Maria Firmina dos Reis: Intérprete do Brasil. Letrônica. v. 13, n. 1. p.1-12. abr. 2020.

Livro
MENDES, A. M. A escrita de Maria Firmina dos Reis na literatura afrodescendente brasileira: Revistando o cânone. Lisboa: Chiado Editora, 2016.

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