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Obituário

Silvano Raia fez o primeiro transplante de fígado intervivos do mundo

Pioneiro em várias frentes, médico criou uma unidade especializada em cirurgia hepática no Hospital das Clínicas da USP e sonhava com a possibilidade de usar órgãos de outras espécies

Dadá CardosoRaia, que tinha como princípio aliar pesquisa à prática clínicaDadá Cardoso

No dia em que completou 55 anos, em 1985, o cirurgião Silvano Raia realizou o que poderia ser o grande feito de sua carreira: o primeiro transplante de fígado bem-sucedido da América Latina. Não estava satisfeito. Três anos depois, idealizava e executava o primeiro transplante hepático com doador vivo da literatura médica, abrindo uma avenida que proporcionou sobrevida a milhares de pessoas. Ainda assim não se contentou. Ao morrer, em 28 de abril, aos 95 anos, perseguia o sonho de, com a ajuda da engenharia genética e dos animais, dar a todos que precisem de um transplante a chance de receber um órgão.

“Era um trator. Não aceitava não como resposta”, lembra o colega e discípulo Paulo Massarollo, da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FM-USP). Em sua sala na Unidade de Fígado do Hospital das Clínicas da FM-USP, que criou em 1975, Raia mantinha, ao lado de seus aquários marinhos, a citação do arqueólogo e escritor T. E. Lawrence (1888-1935) sobre os homens que sonham de olhos abertos.

Na autobiografia O impossível é apenas o começo (Editora Labrador, 2025), o duplo titular da USP – em cirurgia experimental e em clínica cirúrgica – descreveu seus lemas: pensar sempre no desafio seguinte, liderar de forma multidisciplinar e raciocinar de modo horizontal, dando espaço à criatividade.

Ao montar a Unidade de Fígado, Raia escolheu autoridades de diferentes especialidades para integrá-la, contrapondo-se à liderança centralizadora, experimentada ao cursar medicina na USP, de seu mentor, o cirurgião Edmundo Vasconcelos (1905-1990).

A inspiração para o estilo de liderar, que Massarollo compara ao de um maestro, veio da hepatologista irlandesa Sheila Sherlock (1918-2001), com quem Raia estagiou no Royal Free Hospital, em Londres, em 1964. Formado em 1956, estava decidido a trazer para o Brasil o transplante de fígado, tentado sem sucesso nos Estados Unidos e na França. Para isso, decidiu estudar hepatologia clínica. Recebeu o título de doutor (PhD) pela Universidade de Londres em 1965 ao descrever, em um artigo na revista Nature, uma técnica de separação de dois tipos de bilirrubina (pigmento produzido pela quebra das hemácias). No mesmo ano, defendeu o doutorado na USP com um trabalho sobre o tratamento cirúrgico da esquistossomose mansônica, orientado por Vasconcelos.

Mais tarde, Raia realizou um estudo inédito comparando três técnicas cirúrgicas para evitar hemorragias no esôfago decorrentes da esquistossomose. O resultado, uma das conquistas da Unidade de Fígado, consagrou a estratégia de Vasconcelos. Aliás, foi a vaga do seu tutor que ocupou na Academia Nacional de Medicina em 1991.

Aliar pesquisa e prática clínica era um dos princípios estabelecidos por Raia para a unidade, que ganhou o apelido de “Nasa”. A experiência da equipe com hepatectomias em suínos e ressecções em humanos a preparou para o primeiro transplante de fígado com doador falecido, realizado com sucesso por Raia e Sergio Mies em 1º de setembro de 1985.

Na sequência, um novo problema se apresentou: para crianças com doenças de fígado mal havia doadores. Raia tinha observado, ao retirar o lobo esquerdo do fígado de adultos, que o órgão se regenerava. Seu raciocínio, conforme relata no livro, gerou a expectativa de que, após retirar um segmento do fígado sadio de um adulto, em poucos meses o órgão remanescente se regenerasse assim como o segmento transplantado na criança.

Arquivo pessoalEm ação, em 1º de setembro de 1985, realizando o primeiro transplante de fígado bem-sucedido da América LatinaArquivo pessoal

A descrição dos primeiros transplantes hepáticos intervivos feitos no Brasil saiu na revista The Lancet em 1989, assinada por Raia, Mies e José Roberto Nery. “A técnica que ele primeiro aplicou hoje é usada em larga escala. Não é exagero dizer que ele contribuiu para salvar dezenas de milhares de vidas”, afirma o cirurgião-pediátrico Paulo Chapchap, que dirigiu o Hospital Sírio-Libanês e hoje preside o conselho do Instituto Todos pela Saúde.

Razões religiosas que impediam a doação de órgãos em alguns países impulsionaram a adaptação da técnica usada em crianças para receptores adultos. Raia gostava de lembrar o sucesso da abordagem ao citar os dados do Global Observatory on Donation and Transplantation, que contabiliza mais de 112 mil transplantes de fígado intervivos entre 2000 e 2024. “Era um empreendedor. Buscava a inovação em benefício dos pacientes e tinha uma preocupação central com o Sistema Único de Saúde”, ressalta Chapchap.

“Em 1986 organizamos a Associação Brasileira de Transplante de Órgãos [ABTO]”, conta o imunologista Jorge Kalil, da USP, próximo de Raia desde 1985. “Fui o primeiro diretor-presidente e ele foi o primeiro presidente do Conselho. Trabalhamos para que a distribuição de órgãos fosse equitativa, em vez de beneficiar pessoas com mais recursos ou influência”, lembra o imunologista.

Após a aposentadoria da USP, Raia passou a atuar em hospitais privados, e comandou, entre 2012 e 2015, um curso sobre captação de órgãos em 22 estados. Além de ter criado, com Mies, a Unidade de Fígado no Hospital Israelita Albert Einstein em 2002, deixou marcas administrativas. Em sua gestão como diretor da FM-USP (1982-1986), trabalhou pela criação da Fundação Faculdade de Medicina e pela consolidação dos Laboratórios de Investigação Médica (LIM). Foi secretário da Saúde da Prefeitura de São Paulo (1993-1995) e, a partir de 2011, atuou no Ministério da Saúde para desenvolver centros de captação e transplante de órgãos e a viabilização de transplantes inovadoresl.

Sob sua influência, centros de transplante de fígado brotaram pelo país. “Aprendi com uma medicina ousada, multidisciplinar, e iniciei no Recife um programa que hoje tem mais de 1.800 transplantes de fígado”, conta o cirurgião Cláudio Lacerda, da Universidade de Pernambuco (UPE), orientado de Raia no doutorado. “O transplante de fígado é milagroso. O paciente está para morrer e, três meses depois, recupera a saúde plena. O serviço que Raia prestou ao Brasil é imenso”, completa.

Inconformado com a falta de órgãos, Raia aproximou-se, já octogenário, do Centro de Estudos sobre o Genoma Humano e Células-Tronco da USP (CEGH-CEL), um dos Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepid) financiado pela FAPESP, e de sua então coordenadora, a geneticista Mayana Zatz, iniciando um projeto para tentar revascularizar órgãos sólidos com células-tronco. “O professor Silvano Raia percebeu a importância de juntar a parte cirúrgica com os avanços em biologia molecular”, destaca Zatz. “E se encantou com a ideia do xenotransplante.”

Desde 2022, Raia estava à frente do Centro de Ciência para o Desenvolvimento em Xenotransplante, apoiado pela FAPESP. Lá, com Zatz e Kalil, que o substituiu na liderança do projeto, trabalhava para modificar geneticamente suínos a fim de obter órgãos para humanos. Em março, comemorou o nascimento do primeiro porco clonado, passo inicial para a obtenção de animais geneticamente modificados.

Filho de italianos e sobrinho do fundador da rede de farmácias Droga Raia, Silvano Mário Attílio Raia reunia os amigos em almoços para bate-papos com hora marcada para terminar – a siesta era sagrada. “Foi um ser iluminado”, afirmou o arquiteto Julio Neves, com quem manteve 79 anos de amizade. Raia continuava tão atuante que sua morte foi encarada pelos colegas como precoce. Infecções e cirurgias recentes o debilitaram e, no fim de abril, um mal-estar súbito o levou. Divorciado três vezes, deixa as filhas Virgínia (falecida em 1998), Ana e Paula, além de quatro netos.

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