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Jair Bonfim

Sobre homens e vermes

Os Seres IV Sheila Goloborotko 2008, cologravura, gravura em metal e Chine-collé sobre papel arches, 28 x 38 cm“—‘Seu verme imundo, você não passa mesmo de um verme!’ E tome socos, cadeiradas e muita gritaria, com prostitutas de meia-liga e coletes que terminam em curtíssimas saias cheias de babados, subindo correndo as escadas que levam para os quartos do bordel, que agora mais parecia um campo de batalha.” Ele apertou rápido a tecla pause do controle remoto: uma ideia surgira em sua cabeça diante da frase que dava início ao filme de faroeste que pegara apenas para relembrar quando, ainda menino, seu pai o levava aos domingos nas sessões da tarde do cinema da cidade.

“… Verme, você não passa de um verme…”, como ainda não havia pensado nisso? Apertou a tecla power e achou melhor passar para o papel o turbilhão de ideias, possibilidades, devaneios e hipóteses que fervia dentro de sua cabeça. O filme já não era mais tão importante agora, poderia ser visto mais tarde, ou outro dia qualquer.

Verme, isso mesmo! E se o homem não fosse mais do que um simples verme – uma bactéria, uma ameba –, o planeta Terra, não mais do que uma célula, o sistema solar ou até a Via Láctea, um órgão qualquer de um ser que jamais seria conhecido por inteiro – assim como o parasita Balatidium coli nunca terá consciência do corpo que escolheu para se desenvolver.

Apelar para o fato da existência da inteligência humana, e toda a civilização resultante dela, ou até mesmo invocar a consciência divina que parece ser atributo exclusivo do animal chamado homem, não parecia constituir argumentos de peso. Afinal – as ideias misturavam-se, atropelavam-se, exigindo da mente um esforço imenso para tentar alguma ordem no caos de prós e contras que surgiam desordenadamente –, quem pode ter certeza que os vermes, os ácaros, as bactérias, enfim, todos os parasitários, vírus e micro-organismos que fazem do corpo humano seu universo não possuam também a sua “civilização”, sua história e suas crenças?

A “lógica” de algumas coisas pareciam agora ganhar uma evidência clara em sua cabeça. Lembrou-se do fato de que quando o corpo fica ameaçado por algum tipo de parasita, ou vírus, é comum que o próprio corpo ponha em ação seus mecanismos de defesa natural, sendo que quando isso não acontece ou sua reação se mostre insuficiente torna-se indispensável o uso de drogas que eliminem, ou pelo menos reduzam ao máximo, a ação nefasta destes micro-organismos. Chegou a esboçar um leve sorriso no canto dos lábios, ao imaginar que os terremotos, furacões, enchentes, ou mesmo as epidemias, as doenças que ceifam milhares de vida ao longo da história humana, poderiam não passar de reações “naturais” desencadeadas pelo sistema imunológico desse corpo desconhecido que o “verme homem” escolheu como hospedeiro para se desenvolver. Quem poderia garantir que nosso belo planeta talvez nada mais seja do que uma célula infectada por hospedeiros – ou seja, nós! – que além de colocar em risco sua sobrevivência ainda ameaça destruir a própria célula?

Estava excitado com sua “descoberta”, que agora já nem lhe parecia ser tão absurda assim. Um pequeno esforço mental, para deixar de lado vários tipos de preconceitos, conceitos, noções de tempo, espaço, e até mesmo abolir, nem que fosse por um breve período de tempo, a crença em tudo que pudesse relacionar-se com religiosidade, fé ou espiritualidade: era tudo o quanto se fazia necessário para admitir, pelo menos, a coerência de sua “teoria”. No entanto, sabia que essa postura, por momentânea que fosse, não era tarefa fácil para a maioria das pessoas; sem levar em conta, ainda, que para muitos seria mesmo uma atitude de heresia, de pecado.

Mais uma vez, um pequeno sorriso iluminou sua face ao permitir que sua mente – viajando no tempo e no espaço – o levasse para uma rua qualquer, de uma cidade qualquer do mundo, cheia de homens que andavam apressados por entre cavalos, vendedores ambulantes e senhoras com sombrinhas em uma das mãos e um leque aberto na outra. Ele, com uma enorme foto digital de um ácaro de sujeira, ampliada alguns milhares de vezes, tentava chamar a atenção de alguém – em um dia qualquer do século xvii – para a prova da existência daquele “monstro” em seu cotidiano.

— Senhor, senhor, olha para isto: sabia que centenas deles estão grudados em seu corpo, vivendo sob suas unhas ou agarrados nos seus pelos?

— Senhora, sabia que tem milhares deste bicho em suas cortinas de seda, em suas poltronas de veludo?

De volta à realidade, imaginava que até um ácaro, ou uma bactéria, podia servir de hospedeiro a outros seres, milhares de vezes menores, que poderiam ainda abrigar outras espécies menores ainda, sendo que estes últimos, por sua vez, poderiam ainda…

— Pai, vem deitar comigo, eu não estou conseguindo dormir.

A voz da menina quase o derruba da cadeira. Olhou para o relógio no canto da tela e percebeu que já passava das três horas da manhã. Ergueu a menina nos braços, desligou o computador e perguntou-lhe por que não conseguia dormir. A pequena disse que parecia estar vendo monstros horríveis que queriam se agarrar a ela. Ele se ajeitou ao lado da filha em sua cama e começou a contar para ela a história de como Deus criara o mundo: primeiro os animais, depois o primeiro homem e, de uma costela dele, a primeira mulher. A menina sempre lhe pedia para que contasse essa história na hora de deitar.

Antes mesmo que a serpente surgisse com o fruto do pecado que levava ao conhecimento, os dois já haviam entrado na escuridão silenciosa do sono profundo que só os puros e os ingênuos conseguem alcançar.

Jair Bonfim nasceu em 1961, escreve poemas e contos desde a adolescência. Formado em jornalismo, trabalha no ramo de confecções.

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